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Entrevista a Paulina Rocha

Paulina Rocha

Mestre em Engenharia Biomédica pelo IST, com uma formação complementar em Inovação Tecnológica e Saúde pelo EIT e uma Pós-Graduação em Gestão de Saúde pela Nova School of Business and Economics. Realizou um período de mobilidade Erasmus na Universidad Politécnica de Madrid. Atualmente, integra a Siemens Healthineers, no Dubai, assumindo hoje o cargo de Gestora de Desenvolvimento de Soluções em Serviços Empresariais, com foco no Médio Oriente e em África. Destaca-se ainda pelo seu forte envolvimento em voluntariado e iniciativas de impacto social, incluindo a parceria com a Girl Move Academy.

A ANEEB teve o prazer de entrevistar a Paulina Rocha! A Paulina falou-nos do seu trabalho como Gestora de Desenvolvimento de Soluções em Serviços Empresariais na Siemens Healthineers, no Dubai, onde se dedica à consultoria e desenvolvimento de soluções em cuidados de saúde, para além do seu forte envolvimento no voluntariado.

[Entrevistadora] – Marta Filipe (ANEEB)
[Entrevistadora] – Maria Videira (ANEEB)
 
Vê aqui a Entrevista completa!

[Marta Filipe]: Olá a todos e sejam bem-vindos a mais um episódio de Biomédicos pelo Mundo. Eu sou a Marta Filipe, diretora do departamento de Ensino e Ação Social da ANEEB, e estou aqui com a minha colega de departamento Maria Videira.

[Maria Videira]: Hoje temos o prazer de conversar com a Paulina Rocha , mestre em Engenharia Biomédica pelo Instituto Superior Técnico e pela Universidad Politécnica de Madrid. A Paulina possui ainda um mestrado em Inovação Tecnológica na Saúde pelo EIT Health e uma pós-graduação em Gestão de Saúde pela Nova SBE. Atualmente, reside no Dubai, onde assume o cargo de MEA Solution Development Manager na Siemens Healthineers, focando-se em parcerias estratégicas e soluções de saúde para o Médio Oriente e África. Bem-vinda, Paulina, e muito obrigada por ter aceite o nosso convite.

[Paulina Rocha]:  Olá a todos, muito obrigada pelo convite, é um gosto enorme estar cá hoje para conversar um bocadinho convosco e espero que a sessão seja elucidativa, inspiradora, não sei, e que traga clareza também aos colegas que estão a estudar para serem engenheiros biomédicos.

[Marta Filipe]: Para começar, gostávamos de perceber melhor o teu papel atual no Dubai. Como é o dia a dia de uma Solution Development Manager e quais são os principais desafios ao desenhar soluções de saúde para mercados tão distintos como os da região do Médio Oriente e da África?

[Paulina Rocha]: Então, eu trabalho num departamento da Siemens que se chama Enterprise Services, e o que acontece é que esta é uma área de negócio relativamente recente, quando olhamos para a história das Siemens Healthineers, que antes era a Siemens Healthcare, e o que acontece é que a própria empresa teve de se começar a adaptar ao mercado, que é um mercado que está numa fase de transição já há algum tempo, passando do negócio que é o chamado transacional, em que um hospital ou clínica necessita de um equipamento médico e ele é vendido, é uma mera transação, portanto equipamento, manutenção, para esta visão mais holística, que é o que esta área de negócio da Siemens traz, que é basicamente nós somos uma área transversal a todo o portfólio da Siemens, que, entretanto, começou a desenvolver soluções digitais, soluções de consultoria, estratégia, e, portanto, na minha função, a minha principal responsabilidade é olhar para as oportunidades de negócio e ver de que forma é que as várias partes do nosso portfólio, portanto, as várias verticais, podem ser combinadas e integradas, de forma a criar uma solução que não é uma mera transação, mas é sim já uma solução que visa uma parceria a longo prazo. Portanto, por norma, estes projetos que nós chamamos as parcerias de valor em Enterprise Services, são projetos que vão desde 5, 10, 15, 20 anos de duração e em que nós já olhamos para todo o parque tecnológico, em vez de olharmos àquela que é a necessidade emergente naquele momento do cliente, e tentamos ter uma ação mais proativa e preventiva em vez de reativa. Portanto, olhar a idade dos equipamentos, quando é que eles eventualmente necessitarão de ser substituídos, mesmo a pensar aqui já num futuro a alguns anos, se há necessidade também de fazer uma revisão de processos, que soluções de consultoria é que podemos criar para apoiar aquele cliente, se é a melhoria da experiência do doente, se é numa parte mais de otimização de operações, que soluções digitais, em termos de digitalização, o que é que é preciso e também pensar muitas vezes que esta solução pode ir além do nosso portfólio e, portanto, que parceiros ou que terceiros podem ser envolvidos e também criar essas oportunidades. Portanto, o meu papel é ter essa visão um bocado, não sei se helicóptero, mas 360 sobre todo o nosso portfólio. Claro que há especialistas para cada uma das soluções, A minha função é juntar as peças do puzzle e tentar que também, nas várias equipas, haja uma visão comum daquilo que é a estratégia para aquele cliente, para trabalharmos todos em conjunto para uma solução integrada. Vocês tinham perguntado o que era o desafio assim entre Médio Oriente e África e eu esqueci-me de responder essa parte da pergunta que acho que também é bastante interessante. Eu comecei a fazer esta função em Portugal, antes de ir para o Médio Oriente, e agora desempenho a partir do Dubai, Médio Oriente e África. E é super giro, e muito interessante porque primeiro, Médio Oriente nós olhamos e claro que há uma infinidade de recursos, aquilo que nós não vemos na Europa, portanto há bastantes fundos, mas há uma coisa que eles não têm que é a experiência, portanto eles olham muito para o exemplo da Europa e dos Estados Unidos e eles querem caminhar rapidamente para estarem ao nível das instituições de referência do mundo ocidental. E, portanto, querem o melhor, querem estar à frente, querem que a Siemens traga experiências que tem pelo mundo nestas outras regiões. É muito interessante porque nós conseguimos, talvez, aqui também defender e apresentar aquilo que são as soluções de topo de gama. Depois, quando olhamos para a África, há uma missão que é o acesso aos cuidados de saúde e garantir que toda a população tenha acesso que ainda é muito desigual, mas é muito interessante e leva aqui também numa outra ótica que é aquilo que também sinto que é parte do meu propósito de vida, mas é muito, muito interessante olhar para estes países que muitas vezes até têm fundos que vêm do exterior, portanto acabam de ter capital mas não sabem de que forma o devem empregar da melhor maneira para responder àquilo que são as necessidades das suas populações. São populações que têm problemas de saúde muito distintos daqueles que nós vemos no Médio Oriente e na Europa. Estamos sempre a falar aqui de demografias muito diferentes, o que é um desafio super interessante porque uma solução não é igual à outra. Eu já tinha visto isto em Portugal, que é um país mini, ao lado de todos os outros que há pelo mundo, mas depois chegamos ao Médio Oriente e África e cada país é um país, é sempre importante olhar as demografias, porque é que as pessoas estão a morrer, porque é que morrem e o que é que pode ser feito. Aqui quando olhamos para a África se calhar estamos a falar de problemas de saúde que nós enfrentamos já há alguns anos atrás e nem vale a pena irmos a pensar nas soluções do futuro ou da saúde do futuro e os Estados Unidos e Europa, é mais de que forma é que nós podemos também ajudar estas pessoas, um a morrerem menos e dois, quer dizer, o um é sobretudo a terem acesso aos cuidados de saúde e a não morrerem por razões que podem ser evitáveis. Portanto, também acabamos por ter uma ação um bocadinho humanitária e é muito, muito interessante a perspectiva de um arquiteto de solução, que é assim a forma mais comum, como chamam a minha função. Nós sermos plásticos e numa empresa que deve ser lucrativa, também pensarmos de que conseguimos equilibrar, portanto, o lucro com a parte social e como é que podemos trazer valor para estas pessoas de forma diferente. Eu acho que é o desafio mais premente.

[Maria Videira]: O teu percurso académico levou-te de Lisboa a Madrid, participando também num programa do EIT Health. Como descreves essas experiências? Sentiste que ter saído da sua zona de conforto logo na faculdade foi o que te deu o balanço necessário para, mais tarde, dar o salto para o Dubai?  

[Paulina Rocha]: Talvez, não sei se foi só por aí. Eu sou natural dos Açores e, portanto, eu saí de casa com 18 anos. Quando chegou o momento de Erasmus, eu já estava fora de casa há alguns anos e acho que isto nos cria uma resistência ou aptidão para estar longe de casa desde cedo, infelizmente, mas depois também tem os seus benefícios. Eu fui para Madrid, não era propriamente o destino mais longe, porque muitas vezes quando temos Erasmus o objetivo é ir para muito longe. No meu caso, como eu sempre tive alguma curiosidade e vontade de no futuro trabalhar ou explorar outros mercados que não Portugal, eu pensei Vou ter a oportunidade de Erasmus, que é quase um trial, que eu dificilmente vou voltar a ter na minha vida, que é experimentar a viver num país sem o compromisso de, se correr mal, oh meu Deus, estou lixada, não, se correr mal posso voltar para trás, depois posso experimentar outro. Na altura não tinha também encargos financeiros e, portanto, foi numa ótica de eu acho que gostava muito de viver em Espanha, acho que em seis meses consigo passar a falar espanhol fluente, portanto, em seis meses de Erasmus estrago mais uma língua na bagagem, e isso foi o que me fez escolher Madrid. E claro que sim, só passando de Lisboa para Madrid já notamos imensa diferença. Eu infelizmente não estive em Madrid a trabalhar, portanto não tenho tanta experiência no mercado de trabalho, só pela convivência com outros colegas que trabalham lá e que são de lá. Mas acho que o Erasmus é capaz de ser o primeiro contacto que temos com o exterior, exterior mesmo, fora de Portugal, E acho que também é uma experiência espetacular para começarmos a pensar o que é que eu gostava de fazer no futuro. Será que me imagino a viver aqui ou noutro país? Ou também mesmo para percebemos aquilo que não gostamos, ou que gostamos, no meu caso, eu saí de Madrid, por mim teria continuado lá, não consegui pelas equivalências, mas saí de lá sempre a acreditar que quando começasse a trabalhar ia voltar para Madrid. Entretanto ainda nunca voltei para Madrid e não sei se vai acontecer num futuro próximo, mas acho que sim, foi talvez assim a primeira vez que eu pensei, não, eu quero mesmo assim que terminar,  portanto na altura a minha ideia era Madrid, mas tive sempre muito esta vontade e certeza de que queria trabalhar com outros mercados e queria experimentar trabalhar fora de Portugal. Acho que ter mundo nunca é demais e nós não devemos todos sair de Portugal, devemos sair de Portugal também com uma perspectiva de como é que um dia eu posso voltar com mais valor para o meu país, felizmente também nos proporciona coisas muito boas como a educação, e portanto não é negligenciar ou ignorar tudo aquilo que recebemos de Portugal, é também pensar como é que eu no futuro posso tentar contribuir para que Portugal seja um país mais rico, nem digo só em dinheiro, mas o que é que eu posso trazer, o que é que eu posso aprender e é muito isso também que eu faço atualmente no Dubai, que tem políticas e uma forma de gestão muito diferente do nosso país, mas de que forma é que aquilo que eu estou a experienciar e a presenciar também no Dubai, o que é que eu posso aprender e no futuro talvez partilhar e trazer algumas sementinhas, não sei, mesmo que entre colegas, acho que é sempre bom.

[Marta Filipe]: Viver e trabalhar no estrangeiro é um objetivo para muitos jovens profissionais. Para além do lado profissional, como foi a tua adaptação pessoal ao Dubai e que conselhos dás a quem esteja a considerar uma mudança para o Médio Oriente?

[Paulina Rocha]: Não é o Médio Oriente mais puro que há, portanto, o Dubai, a cidade de Dubai é bastante ocidentalizada, digamos assim, nós somos cerca de 90% de imigrantes, portanto, é uma cidade bastante internacional. Em termos de adaptação, eu diria que é dos sítios mais fáceis de nos adaptarmos, e aqui mesmo comparando com outros sítios da Europa, Há sempre aquela apreensão e receio quando falamos no Médio Oriente por todas as coisas que estão associadas ao Médio Oriente, seja cultural, religioso ou político também. Acho que temos que ir assim com uma capacidade, com abertura, não é? Agora, a adaptação é relativamente fácil porque o inglês é a língua mais falada, porque como eu referi, somos maioritariamente imigrantes, portanto não há aquela barreira da língua que muitas vezes quando mudamos de país não seja a língua inglesa é um desafio. Portanto aí acho que é uma grande vantagem e ajuda a integração e depois outra grande vantagem é como é fácil nos integrarmos porque é um país, os UAE são um país super dinâmico, Dubai dentro dos UAE talvez o Emirado mais dinâmico de todos e portanto estão sempre a chegar pessoas e estão sempre a sair pessoas também. Mas há muita abertura para grupos de amigos, para círculos sociais porque porque todas as pessoas já estiveram na posição de quem acabou de chegar e, portanto, há esta certa missão de reciprocidade, de ser recíproco, na medida em que eu também quero acolher da forma que fui acolhido. Portanto, as pessoas estão mais predispostas a receber pessoas no grupo de amigos, a convidar para eventos, portanto, do ponto de vista pessoal, eu achei um país fácil de nos integrarmos. Do ponto de vista também cultural, é super multicultural, claro que o país tem a sua religião, tem a sua cultura, mas respeita imenso todas as outras culturas. Eu sou católica, por exemplo, e sou praticante lá, portanto é perfeitamente execuível. E, portanto, é um país que acolhe muito bem e, por ser tão internacional, está super preparado para receber pessoas do mundo todo, seja no supermercado, portanto, não há, assim, aquele impacto de, ah, agora quero aquele produto, e ah só há na Europa, não há aqui, portanto, é muito fácil nesse sentido. A parte profissional, há muita competição, porque realmente é um país que oferece condições muito boas de trabalho e de segurança. O Dubai, os Emirados e o Dubai é um sítio bastante seguro, portanto eu fui para lá sozinha, também diria que é um bom sítio para se ir sozinho ou sozinha, porque é bastante seguro e portanto há toda uma coletânea de métricas ou de condições que fazem da cidade do Dubai um sítio bastante confortável para se viver, com boa qualidade de vida. Faz calor, mas é só no verão, é que é assim mais chato, o resto do ano é bastante agradável, portanto durante nove meses do ano é um sítio bastante agradável para se viver. E eu gosto muito do facto de sentir que o Dubai é um sítio que potencia e permite que a pessoa se empenhe e invista em várias dimensões da sua vida. Portanto, não só do ponto de vista profissional, mas também pessoal. E acho que do ponto de vista profissional é um sítio em que nós conseguimos o reconhecimento, ou conseguimos a progressão, conseguimos reconhecimento e conseguimos sentir que quanto mais trabalhamos, ou se trabalhamos e nos esforçamos, será reconhecido, claro.  

[Maria Videira]: Entre o Erasmus em Madrid, o início de carreira na Siemens Healthineers em Lisboa e a experiência atual no Dubai, passaste por realidades bastante distintas. Houve algum desses ambientes que tenhas considerado particularmente estimulante para a inovação?

[Paulina Rocha]: Eu acho que todos contribuem um bocadinho de forma diferente. Sempre que estive nos vários sítios estava em fases de vida ou de carreira. distintas, portanto eu procurei sempre nos vários sítios inovação de formas muito distintas, acho que não consigo assim, eleger um, diria que talvez o Dubai neste momento está a ser assim o mais desafiante de todos e também porque já tem aqui outra responsabilidade que não tinha nos restantes, mas e sim, Puxa muito pela inovação, do ponto de vista criativo também, da parte das soluções e porque também é um país muito digital e muito voltado para a digitalização, inovação em saúde também. Portanto, se tiver que eleger, talvez os Emirados Árabes Unidos sejam o mais desafiante. 

[Marta Filipe]: Obrigada. Sabemos que investiste numa pós-graduação em Gestão de Saúde na Nova SBE. Consideras que para um engenheiro biomédico chegar a cargos de decisão e gestão, este tipo de formação complementar é indispensável?

[Paulina Rocha]: Eu não diria que é indispensável porque lá está a varia também do percurso de cada um. Eu acho que é muito importante nós procuramos estar sempre atualizados e também procurarmos ter um perfil mais completo dentro daquilo as áreas que nos interessam mais ou que nos vemos progredir mais no futuro. E isso também foi um bocadinho a escolha, ou como aconteceu, quando eu fiz a pós-graduação em Gestão em Saúde, sempre foi a área que eu me interessei mais no âmbito da Engenharia Biomédica, parte de gestão, estratégia hospitalar, e achei que em dado momento me faltavam algumas competências da parte da gestão, que nós temos no nosso currículo formativo. Claro que não é o foco principal nos principais anos de formação e também quando fiz a pós-graduação já tinha dois anos e meio de experiência de trabalho, portanto eu diria que a curiosidade com que se vai, o interesse já é diferente e até porque quando estamos a ouvir as aulas, e também são aulas com metodologismo um bocadinho diferentes da faculdade, mas já conseguimos facilmente pensar de que forma é que vamos aplicar aquilo que estamos a receber no nosso dia a dia. Portanto, para mim foi espetacular e foi uma experiência ótima fazer a pós-graduação, e eu super recomendo,  não tem que ser em gestão hospitalar, mas assim começarem a trabalhar e passado alguns anos e perceberem já áreas de competência ou que vos interessam mais ou que sentem que no futuro gostariam que o vosso percurso passasse por ali é muito interessante e eu diria que muito positivo fazer uma formação mais direcionada para aquela área que acaba por ser uma formação um bocadinho mais prática tendo em conta que já temos alguma experiência de trabalho quando o fazemos.

[Maria Videira]: Ao longo do teu percurso académico, investiste também em workshops de public speaking e team building. Olhando para o teu papel atual, sentes que estas competências transversais são determinantes em contextos tão multidisciplinares e internacionais? 

[Paulina Rocha]: Sim, muito. Eu acho que as soft skills, eu sou uma mega embaixadora de soft skills, eu acho que as soft skills são tão mais importantes do que as hard skills. E sobretudo num curso tão técnico como o nosso, muitas vezes acabam a ficar um bocadinho esquecidas. Portanto, eu acho que é importante e também nesta linha de pensamento que eu vinha a dizer de nos tornarmos completos possível, dentro das nossas capacidades, procuramos também perceber, um, quais é que são os nossos pontos fortes, quais é que são os nossos pontos fracos, e eu não diria só para focar nos pontos fracos, eu acho que também se deve trabalhar os pontos fortes e cada vez especializá-los mais. Portanto, eu fiz estes workshops Tive oportunidade na altura durante o técnico, mas também trabalhei enquanto estudava e trabalhava porque tinha na altura um trabalho em part-time que era super exigente do ponto de vista de soft skills, e que me obrigava a conversar diariamente com muitas pessoas diárias diferentes. Portanto, eu sempre senti também esta necessidade de me desafiar continuamente, adoro. Adoro a parte da comunicação, mas mesmo assim sentia que nós quando estamos a estudar somos diariamente confrontados com a nossa avaliação em competências meramente técnicas. E eu acho que é importante procurarmos formas de avaliarmos também as nossas outras competentes mais sociais. E, portanto, procurar essas competentes, seja com trabalho, seja com workshops, seja com voluntariado. Eu acho que nós devemos ser mais do que só engenheiros biomédicos.

[Marta Filipe]: Eu só tinha uma última questão que era mais associada com essa parte voluntariada que acabaste de falar, porque nós sabemos que essa vertente tem uma forte presença no teu percurso, no teu banco alimentar, até a participar com o Program of Academy. Então a minha última pergunta era para perceber de que forma é que esta dimensão social influencia a tua atuação na Siemens e se achas importante o envolvimento das empresas nessas causas.

[Paulina Rocha]: É uma parte muito importante e, como eu vim a dizer, eu sinto que nós, quando terminamos, somos todos engenheiros biomédicos, temos todos o mesmo diploma, mas cada um de nós tem características e valores que são o que nos diferenciam, não para melhor, não para pior, são o que nos tornam indivíduos e, portanto, eu acho que é fundamental que nós, de alguma forma, tentamos trazer isso para o nosso dia-a-dia, também para não perdermos aquilo que é a nossa personalidade, aquilo que é a nossa identidade. E a parte social tinha uma dimensão muito importante na minha vida, que eu continuei a fazer, portanto, em paralelo, mas depois, por exemplo, a Girlmove, o meu primeiro contacto é do ponto de vista pessoal, mas eu encontrei e achei interessante trazê-lo para o meu local de trabalho. Então, por exemplo, era mentora de uma de uma menina da Girlmove, trouxe-a para o trabalho comigo um dia. E no ano seguinte, já trabalhei, a Siemens também possibilitou essa essa opção, não é? E já nos tornamos parceiros da Girlmove e passámos a receber como empresa para estágio outras meninas que vieram entretanto. Agora estou no Dubai e também faço parte da equipa de responsabilidade social da empresa. Não é uma coisa que deve ser feita para ser bonito ter no currículo. Eu acho que há outras coisas. há pessoas que gostam de esporte, há pessoas que gostam de arte, há de tudo um pouco. O que eu aconselho e que tento incentivar diariamente é que todos tragam para o trabalho os valores que têm na sua vida pessoal, que acham que podem melhorar o dia do outro.

[Maria Videira]: Muito obrigada, Paulina, por este momento de partilha. Foi um prazer ouvir sobre o teu percurso e acreditamos que vai inspirar muitos engenheiros Biomédicos a sonhar mais alto.

[Marta Filipe]: Agradecemos também a tua disponibilidade! Desejamos-te o maior sucesso para o futuro!

[Paulina Rocha]: Muito obrigada pelo convite e também deixo-me à disposição para quem quiser mandar mensagem no LinkedIn ou contatar-me, terei todo o gosto e a maior das sortes e felicidades para todos.

[Marta Filipe]: Obrigada!