Testemunhos

No que diz respeito ao nível de vida em Portugal, alguns testemunhos de recém-diplomados dão-nos a melhor perspectiva:

Tiago Gonçalves Assistente de Investigação no INESC TEC & Estudante de Doutoramento na FEUP

A investigação na área de Engenharia Biomédica é um caminho incrível para quem ainda quer continuar no meio académico e/ou tem intenções de prosseguir para estudos doutorais (PhD). Em termos de remuneração, os salários são tabelados pela Fundação para Ciência e Tecnologia (FCT), funcionando num sistema de bolsas, não sendo, por isso, alvos de tributação. Os horários são muito ajustados a cada pessoa e o trabalho é bastante autónomo, sendo que aprendemos, desde cedo, a definir os nossos objetivos, prioridades e a tomar conta das nossas responsabilidades para, no geral, o trabalho do grupo correr bem. Acho que o valor das bolsas é justo, no entanto, dependendo do nosso contexto socioeconómico, poderá ser insuficiente para vivermos uma vida frugal.”

Dani Silva
Gestor de Produto de Bloco Operatório Braun Group

Neste momento sou Gestor de Produto numa empresa internacional de dispositivos médicos e, nesse sentido, irei apresentar a minha perspetiva tendo em conta este contexto profissional. As minhas funções profissionais consistem, principalmente, no suporte e garantia técnica de todos os produtos à minha responsabilidade; na elaboração, implementação e monitorização do planeamento de Marketing; formação de equipa de vendas e clientes; desenvolvimento de análises que suportem as tomadas de decisões; entre outras. Neste momento sou responsável pelos produtos e equipamentos de cirurgia minimamente invasiva e pelos consumíveis de bloco operatório como é o caso das suturas”. “A área dos dispositivos médicos em Portugal corresponde a um setor muito reduzido das saídas profissionais dos Engenheiros Biomédicos, mas os que aqui têm possibilidades de desempenhar algum cargo fazem-no com a garantia de uma remuneração justa e adequada. Nesta atividade profissional consegui integrar todo o conhecimento adquirido ao longo da minha formação académica diretamente no contexto hospitalar, bem como enquadrar funções de gestão, essenciais neste cargo.”

Inês Dias
Customer Success Manager na Knok Healthcare 

“Trabalho como Customer Success Manager na Knok Healthcare, uma start-up portuguesa que permite o acesso a cuidados de saúde primários, com recurso, sobretudo, a vídeoconsultas…o meu trabalho passa por garantir que os vários clientes (parceiros, médicos, pacientes, operadores, entre outros) conseguem tirar o melhor proveito das ferramentas de que dispomos, perceber quais as dificuldades que sentem e as necessidades que têm, por forma a que o produto evolua no sentido de colmatar essas necessidades e tornar claro o que dantes era uma dificuldade. Isso exige que esteja em constante contacto com os clientes destes vários pontos do mundo, que é algo que adoro, e que faça uma gestão das suas expectativas, enquanto faço também a ponte com a equipa de desenvolvimento, para que se mantenha a consistência do produto enquanto damos resposta aos vários pedidos. Para as funções que desempenho, sinto que o curso foi uma grande mais valia, sobretudo no que diz respeito ao mindset que nos dá, de desafio e adaptação, que é algo que valorizo muito e gosto particularmente de fazer. A sede, e onde está a maior parte da equipa, é no Porto, apesar de termos também sede em Lisboa, onde vou esporadicamente. A equipa é pequena, o que nos torna mais próximos, por isso o ambiente é excelente. Em termos de condições de trabalho, temos sempre água, café, bolachas, alguma fruta e natas (nos dias especiais!), e o trabalho remoto é algo que podemos fazer. Em termos de remuneração, vai ao encontro daquele que é o momento de vida em que encontro agora, pelo que me permite viver de forma confortável e investir em viagens e atividades que me ajudam a ter um bom equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Para além disso, há perspetiva de progressão em termos de funções e gestão de equipa, e simultaneamente, progressão salarial. Com o tipo de contrato de trabalho que tenho, desconto do vencimento base para a Segurança Social e IRS e tenho um cartão de refeição, onde recebo o valor do subsídio de alimentação, mais subsídio de férias e Natal.”.

Maria Paz
Investigadora no Coimbra Institute for Biomedical Imaging and Translational Research

“Trabalhar em investigação tem, como qualquer outro emprego, as suas vantagens e desvantagens. E dentro do mundo da investigação existem pessoas com diferentes graus académicos (o que influencia o teu salário), pessoas que são contratadas e que têm outros tipos de regalias e pessoas, como eu, que estão em regime de bolsa. Neste momento, a FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) exige que os seus bolseiros estejam a frequentar um ciclo de estudos (como mestrado ou doutoramento), sendo que o ano em que comecei a minha bolsa (2019) foi o último em que qualquer pessoa se poderia candidatar. Com isto, os valores das bolsas, que são públicos, foram também aumentados, estando nos 1064€ (líquidos). É este o dinheiro que te “cai na conta”, no entanto não descontas para as finanças, não declaras IRS, não tens muitas das vantagens que alguém com contrato tem. Claro que o que recebo me permite viver desafogadamente, e não preciso de andar a contar tostões, e aqui a cidade onde vives também é relevante, em Lisboa ou no Porto não seria tão fácil poupar, mas na minha opinião não deixa de ser um trabalho precário a longo prazo.”

Rui Garcia
Empreendedor

“…a minha experiência a trabalhar estritamente como Engenheiro Biomédico é pouca. A usar capacidades aprendidas no curso, pelo contrário foram inúmeras. No primeiro ano optei por abraçar um projecto numa startup ligada à venda de produtos sustentáveis do ponto de vista ambiental. A vida de empreendedor não é fácil e tem de se partilhar o risco no crescimento da empresa. Sob risco de se descapitalizar a empresa. Tirei pouco mais que o salário mínimo por mês (600€) que para viver em Lisboa exige alguma disciplina. O ambiente da equipa era bom e motivador. Trabalhava com pessoas fora da nossa área (Engenharia Ambiental, Marketing, Economia) que permitiu conhecer outros conceitos, aprender e ensinar. Aproveitei este ano de sabática para aprender. Assim de uma forma genérica resumia as tarefas a:…Curadoria dos produtos…; Acompanhamento de candidaturas a fundos de investimento…; Redação de artigos de opinião ambiental / saúde devidamente fundamentados cientificamente….; Análise de dados de entrada no site e venda de produtos.” “Relativamente: – a material, tinha boas condições de trabalho, posto, internet, copa. Pagavam-me as despesas. – equipa, muito dinâmica disposta a ajudar. Tinha como contrapartida a inexperiência que era balanceada pelas mentorias que recebíamos. Tivemos formações úteis para qualquer negócio com pessoas com provas dadas: https://www.bgi.pt/bgiteam – rede de contactos: conheci o Nobel da Paz, secretário de Estado do Ambiente, do Turismo, Empreendedores nas mais diversas áreas ambiente, IT, alimentar, transporte e Biomédica claro. Resumindo a experiência: foi enriquecedora mas é uma vida difícil. Atualmente não estou na startup ( www.planetiers.com ) mas fico muito contente pelo sucesso que estão a ter e deixo lá como amigos a equipa inteira.”

Tiago Rodrigues

Deployment and Project Engineer

Após ter terminado o Mestrado Integrado em Engenharia Biomédica na Universidade de Aveiro com uma tese de mestrado realizada na University of Twente em plena pandemia, optei, e a meu ver muito bem, por “tirar” seis meses de descanso. Aproveitei esse período para repor energias, passar tempo com a família e tratar da minha saúde física e mental, sem aceitar qualquer tipo de proposta e sem grande procura por emprego. Sabia que, assim que começasse a trabalhar, dificilmente teria mais alguma oportunidade para o fazer. Investi também esse momento para refletir no que queria fazer da minha vida pessoal e profissional e decidir entre um futuro no meio académico ou no mercado de trabalho. Certo de que uma entrada no mercado seria sempre passível de retorno à academia para seguir num doutoramento, desacreditado das condições das bolsas de investigação e doutoramento em Portugal e não achando ser um momento oportuno para seguir com uma carreira no estrangeiro, optei por dar seguimento a uma das oportunidades que estavam em cima da mesa. Levando apenas as bases do curso, procurava uma empresa capaz de investir na minha formação e que me permitisse evoluir na área da saúde. Encontrei o que procurava na SECTRA, que investiu em mim vários meses de formação e onde hoje encontro estabilidade, conforto salarial, perspetivas de progressão promissoras, uma vista do escritório inspiradora e colegas fantásticos. Atualmente, exerço as funções de Engenheiro Biomédico no cargo de Deployment and Project Engineer, levando a cabo projetos das soluções SECTRA nas áreas da Radiologia, Ortopedia, Patologia e Cardiologia em hospitais e clínicas um pouco por todo o mundo. Sinto-me bastante feliz e realizado no cargo que desempenho e devo isso ao meu esforço a nível académico, mas também às competências transversais que adquiri em todos os projetos extracurriculares.

Afonso Pinto
Engenheiro de R&D

“Neste momento estou a exercer o primeiro cargo que tive na área de engenharia biomédica. Estou na empresa RI-TE e trabalho como engenheiro de R&D, num projeto para criar um sistema de PET pré-clinico. As minhas responsabilidades nesta empresa foram programar a interface gráfica do software que controla o sistema e outras funções que permitem o funcionamento e distribuição deste produto. Devido ao facto de estar ser uma start-up o meu trabalho nela foi sempre variado. Num dia posso estar a lidar com a programação de um protocolo de controlo de qualidade e noutro posso estar a criar a plataforma para atualizar o software. A maior parte dos trabalhos que faço são mais alinhados com um trabalho de full-stack developer do que com um engenheiro biomédico. No entanto não acho que isto seja algo mau. A educação de um engenheiro biomédico é muito multimodal o que permite facilmente adaptar-me às mais variadas tarefas. Para um primeiro trabalho acho que uma start-up foi a perfeita empresa para entrar no mercado de trabalho, visto que me deu oportunidades para diversificar o portefólio de skills que tinha à minha disposição e para alargar os meus horizontes para o mundo profissional.”