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Entrevista a Manuel Soares

Manuel Soares

Mestre em Engenharia Biomédica pela FEUP e Licenciado em Bioengenharia pela Universidade Católica Portuguesa. Destaca-se pelo seu percurso internacional, com Erasmus em Roma e a realização da tese de mestrado em Maastricht, no MERLN Institute. Atualmente, é trainee em Gestão de Operações na CUF, com experiência em investigação, empreendedorismo digital e otimização de processos em contexto hospitalar.

A ANEEB teve o prazer de entrevistar o Manuel Soares! O Manuel falou-nos do seu trabalho como trainee em Gestão de Operações, na CUF, apresentando diversas experiências, para além do seu envolvimento no voluntariado.

[Entrevistadora] – Marta Filipe (ANEEB)
[Entrevistadora] – Andreia Freitas (ANEEB)
 
Vê aqui a Entrevista completa!

[Marta Filipe]: Olá e sejam bem-vindos a mais um episódio de Biomédicos pelo Mundo. Eu sou a Marta Filipe, diretora do departamento de Ensino e Ação Social da ANEEB, e estou aqui com a minha colega de departamento Andreia Freitas.

[Andreia Freitas]:  Hoje temos connosco o Manuel Soares, mestre em Engenharia Biomédica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, licenciado em Bioengenharia pela Universidade Católica Portuguesa, com experiência em investigação internacional no MERLN Institute, empreendedor na área digital e, atualmente, trainee em Gestão de Operações na CUF. Bem-vindo, Manuel, e muito obrigado por aceitares o nosso convite. 

[Manuel Soares]: Muito obrigado, é um prazer estar  aqui. Já vi muitos destes vídeos, muito enquanto estava à procura de um sítio para fazer Erasmus, por isso, também é bom partilhar a minha experiência.

[Marta Filipe]: Ótimo, muito obrigada. Pronto, comecemos, então, por trazer o teu contexto atual.  Em que consiste o dia a dia de um trainee em gestão de operações num contexto hospitalar e que desafios tens encontrado ao trabalhar com processos clínicos reais?

[Manuel Soares]: Atualmente, o meu dia a dia baseia-se maioritariamente em análise de dados, ou seja, o projeto em que estou integrado é, basicamente, criar uma nova ferramenta para processos cirúrgicos, o que é que isto quer dizer? Todo o processo entre um médico fazer uma proposta cirúrgica, que um cliente tem que ser operado, até ao ponto onde ele é, efetivamente, operado, ou seja, todo este workflow. O objetivo do programa é, então, ajudar a fazer uma nova ferramenta e para isto é preciso ter um bom conhecimento da ferramenta atual, perceber basicamente todo o processo, todas as equipas que passam, que tocam nesta ferramenta, como é que é feito o contacto, por exemplo, com seguradoras, de onde é que vêm as estimativas da cirurgia e tudo mais. Pronto, é preciso  perceber isto. É, também, preciso falar com as diferentes equipas, também já estive em bastantes reuniões para fazer um levantamento de requisitos, pronto, perceber o que é que cada equipa tem de problemas diários, é que é mais fácil falar com as próprias equipas, há coisas que nunca dá para perceber sozinho e isso também é essencial. Para além disso, também faço algumas análises mais singulares, que acaba tudo por contribuir para o mesmo objetivo, que é melhorar a eficiência, mas por exemplo, ver em certas equipas como é que funciona a produtividade para aí pós-teletrabalho, para perceber qual é o impacto deste no serviço. Perceber também, por exemplo, motivos de cancelamento, perceber se existe alguma especialidade dentro de uma unidade, neste caso do Porto, que tem um motivo de cancelamento maior que os outros, ou seja, tentar identificar outliers, padrões, de forma a que seja possível melhorar isto. Relativamente a desafios que eu tenho encontrado, eu acho que, neste momento, não se põe propriamente para mim, porque ainda sou trainee, mas que já percebi que é o mais difícil e que sempre soube dizer isso, que é lidar com pessoas. Acho que é o mais complicado em qualquer que seja o trabalho. E efetivamente, quando são equipas multidisciplinares, que todas elas com os seus objetivos, as suas vidas para além do trabalho, é muito difícil agradar a todos, quer por exemplo neste caso da implementação de novas ferramentas, mas no quer que seja, é sempre o mais difícil agradar a todos e até diria que é quase impossível. E pronto, acho que esse é um dos grandes desafios. Outro seria o facto de pôr os dados a significar alguma coisa. O que eu quero dizer com isto é que em análise de dados, por exemplo, na faculdade e tudo mais, eu próprio fazia análise de dados e tudo o que fazemos é quase um ponto de vista mais só para informar e para dizer, isto é assim. Neste caso aqui as coisas mudam um bocadinho porque é preciso, ou seja, não posso só apresentar as coisas e dizer, é isto, não, porque depois vêm muitas perguntas. Eu, por exemplo, se apresentar uma tabela, vou dar um exemplo prático, de cancelamentos por mês em 2025, isto na verdade não significa nada, porque mesmo que haja um pique em agosto, pode-se dever a mais médicos trabalharem e como fazem mais propostas, acabam por haver mais cancelamentos também, ou seja, é preciso fazer as análises já de um ponto de vista mais operacional e que os números efetivamente comecem a significar alguma coisa.

[Andreia Freitas]: Ok. O teu percurso académico começou em Bioengenharia na Universidade Católica e continuou para Engenharia Biomédica na FEUP, o que motivou essa transição e de que forma é que estas duas experiências se complementaram? 

[Manuel Soares]: Então, eu acho que tenho aqui uma história engraçada para contar, porque eu na verdade comecei em Mecânica na FEUP, ou seja, foi o meu primeiro, estive lá só duas semanas, mas foi o início, porque eu estava um pouco baralhado, relativamente ao que iria fazer. Gostava da parte da saúde, mas pronto, sabia mais ou menos do curso de Bioengenharia, mas achava que não ia ter, e não tive, efetivamente, média para entrar na pública e tinha, enquanto o rapaz de 18 anos, um bocadinho ignorante, aquela ideia pré-concebida que a pública é o que é que tinha que ser e se não fosse para ir para a FEUP não valia a pena e tudo mais. Por isso, acabei por ir para Mecânica com o mesmo objetivo, que seria efetivamente, depois de um Mestrado, integrar a parte robótica, ou seja, sempre para ir para a parte da saúde. E, entretanto, numa simples conversa com a minha mãe que me disse para me inscrever no curso da Católica, ou seja, pronto, o plano curricular era ótimo, era muito interessante, mas pronto, tinha essa ideia. Acabei por me inscrever na mesma e ainda bem, porque passadas duas semanas em Mecânica, aquilo não estava a fazer muito sentido, comecei a aprofundar mais o curso e pronto, ou seja, achei que não era esse o caminho a seguir e efetivamente, tive muita sorte porque consegui falar com os serviços académicos, ainda da Católica e ingressei então, na Licenciatura em Bioengenharia, o que foi ótimo. Foi um daqueles momentos quase efeito borboleta de me ter inscrito no curso, porque foram aqueles 3 anos de experiência de faculdade mesmo. Foi um sonho, adorei mesmo, ou seja, os professores eram ótimos, senti-me mesmo em casa, fiz muitas amizades e foi muito bom mesmo a nível do que aprendemos efetivamente, as cadeiras senti que o programa era muito completo, fiquei a aprender muito, lidámos muito com o laboratório também. E, depois, a transição deve-se um bocadinho ao facto do curso ser pronto em modelo Bolonha, o que também nos permite que possamos ingressar por outro caminho, ou seja, claro que não me teria importado fazer um Mestrado ainda na Católica. Até porque acabei por me candidatar também, mas tinha interesse, efetivamente, em fazer um Mestrado noutro sítio, também para ganhar outra experiência. Até eu, inicialmente, o objetivo era fazer um Mestrado no Reino Unido, mas, mais uma vez num destes momentos efeito borboleta, eu esqueci-me do passaporte, quando fui fazer um exame de inglês e falhei a validade da candidatura e pronto, acabei na FEUP. Por sua vez, também foi muito interessante, foi diferente, ou seja, as cadeiras, como qualquer Mestrado, já eram um bocadinho mais viradas para a gestão, o que foi ótimo, porque sentia que a Licenciatura, apesar de completa, não nos dá muito essa vertente mais, pronto, virada para o lado da gestão e como é que podemos efetivamente, pegar na Bioengenharia e pô-la no mercado, por assim dizer. E tivemos muitas cadeiras dessas a lidar com projetos reais que estão a tentar desenvolver, no meu caso, foi desenvolver um fármaco para pôr, para ser um novo antibiótico, pronto, e sim, acho que foram duas experiências bastante diferentes, as duas, mas que efetivamente, no final deram, assim, uma panóplia de assuntos que conheci dentro da bioengenharia bastante sólida.

[Marta Filipe]: Ok, obrigada, acho que vai haver muita gente que vai ouvir isto e se vai identificar com o que tu disseste. Então, pronto, vamos continuar. Durante o teu Mestrado, escolheste fazer Erasmus em Roma e realizar a tua tese em estágio em Maastricht, como descreves estas experiências internacionais? 

[Manuel Soares]: Ou seja, em Roma e Maastricht foram experiências completamente diferentes, sendo que Roma acaba por ser aquela experiência mais tradicional de Erasmus. Foi ótimo, ou seja, foi a primeira vez que eu vivi sozinho, por isso o primeiro dia foi uma coisa totalmente diferente, ou seja, foi um país novo, sem conhecer absolutamente ninguém. Houve ali umas três horas, onde eu estava mesmo um bocadinho em pânico, ou seja, pronto, não conhecia ninguém, não sabia muito bem e comecei a entrar naquele pensamento “ui, se calhar vou estar aqui seis meses sozinho”, claro que não acontece, é sempre preciso, foi o que aconteceu. Nesse mesmo dia, que cheguei, por acaso, fui a um evento social sozinho, que para mim fazer isso um ano antes, ou assim, era uma coisa totalmente impossível, mas acho que é aquela coragem, pronto, que é preciso ter inicial, porque rapidamente se percebe que há muita gente exatamente igual, não é? Que não conhece absolutamente ninguém, e que também estão só à procura de alguém que vá falar com eles, e por acaso tive muita sorte, porque acabei logo por encontrar três portugueses, que depois acabam por ser ainda hoje meus amigos, não é? E no Porto e tudo, e ainda combinamos, por isso tive muita sorte, mas acho que se puder fazer uma recomendação a qualquer pessoa que, pronto, que está a pensar em ir de Erasmus, que está com esse receio, acho que acaba por ser muito mais fácil do que parece, no sentido de fazer amigos, porque está toda a gente à espera disso. Basta dar uma mão, que alguém agarra logo a mão, e pronto. Relativamente a aulas, confesso também que a faculdade poderá não ter sido o sítio onde passei mais tempo nesta primeira fase, mas as aulas foram muito interessantes, por acaso. Algumas cadeiras até de assuntos que eu tinha interesse, como próteses e tudo mais, que é uma coisa que não explorei tanto na Licenciatura, e por isso, também foi bom. As pessoas foram muito simpáticas. Apesar de que eu tive quer aulas, quer exames em italiano, o que foi um pouco um choque, apesar de haver algumas coisas parecidas com o português. Pronto, é bastante diferente, e havia aulas onde eu não conseguia sequer comunicar. Até houve uma vez, que o professor fez uma piada, e eu só percebi que era uma piada, porque a sala toda riu-se, e eu fui o único que não me ri. Teve a sua piada. Mas eram, os professores eram todos muito simpáticos, e depois das aulas ajudavam-me em inglês e tudo mais, e nos exames, pronto, eu falei lá um bocadinho de inglês. Pronto, eles queriam ajudar, percebiam, simpatizavam também com o facto de eu ser estrangeiro, mas foi muito bom. Eu acho que Roma é uma cidade espetacular, dá para todos os gostos, sinceramente, quer a nível de gastronomia, da cultura da cidade. Pronto, também a parte de sair à noite e tudo mais, que acho que também é uma coisa que motiva as pessoas a ir, também é ótimo, foi uma experiência mesmo muito boa.

E depois Maastricht, por outro lado, já foi uma coisa mais parecida àquilo que eu tenho neste momento. Ou seja, uma rotina muito mais estruturada, onde ia à faculdade quase todos os dias, tinha objetivos, tinha a minha orientadora também de lá. Também aproveito para mencionar a professora Maria Pia, que foi a minha orientadora de tese aqui, através do Porto, e que sem ela nada deste ano teria sido possível, porque quer em Roma, quer em Maastricht, ajudou-me muito. Porque eu também tive alguns problemas relativamente a horários, porque tinha muitas cadeiras que se sobrepunham em Roma, e por isso a professora Maria Pia ajudou-me muito a estruturar isto, a perceber que cadeiras é que eu podia fazer e que iam ter equivalências, por isso, foi uma ajuda enorme. E também, durante todo este ano que eu estive fora, acabou por estar sempre muito disponível para me ajudar com a tese, e de rever muito rápido o meu trabalho, por isso também sem ela nada disto teria sido possível. Pronto, para além disso, também tive muita sorte com a minha orientadora do próprio centro de investigação, que me ajudou muito e acolheu-me muito bem. Eu, na verdade enviei, eu sabia que iria fazer a tese fora, e enviei alguns mails, e por acaso, na Holanda, surpreendentemente, ou não, não sei, mas responderam-me todos os professores rapidíssimo aos e-mails, a marcar logo reuniões muito disponíveis para me aceitar num projeto qualquer. E, neste caso, o professor Lourenzo, que é o gestor do centro de investigação, aceitou-me logo, perguntou-me que tipo de projeto é que eu queria, e acabei por ingressar num projeto muito interessante, com a minha orientadora de lá, que chamava-se Ezgi, que era turca, e é Engenheira Mecânica. E, foi ótimo, porque ela ajudou-me muito, não só a dar o acompanhamento necessário no mesmo projeto, mas a ensinar-me maneiras de pensar, maneiras de atacar o problema, mais nesta vertente da investigação, que apesar de já ter tido algum acesso a isso, ainda não tinha tido tanto, e por isso foi muito bom. Maastricht, também recomendo imenso enquanto cidade, é uma cidade extremamente universitária. Para quem estiver indeciso entre o primeiro e o segundo semestre, talvez escolhesse o segundo, porque faz muito frio. Eu ainda apanhei um bocadinho em fevereiro, bastante frio, mas é uma cidade ótima, totalmente acessível de bicicleta, foi mesmo uma experiência muito boa. 

[Andreia Freitas]: Ok, próxima pergunta. Paralelamente ao percurso académico, foste co-fundador das Zenith Essentials. O que te levou a apostar no empreendedorismo, ainda durante a faculdade, e que aprendizagens trouxeste dessa experiência para a tua vida profissional atual?

[Manuel Soares]: Então, isto aqui surge como uma ideia. Eu tenho um colega meu, que provavelmente vai ouvir isto, e por isso tenho que lhe fazer também aqui uma homenagenzinha, que pronto, nós falamos sempre muito, e temos sempre estas ideias perdidas em conversas. Pronto, que entretanto esta acabou por não ficar perdida em conversas, e nós já tínhamos alguma, fomos fazendo algumas coisas juntos online, e entretanto, no meio de uma dessas conversas decidimos apostar nisto. E, efetivamente criar esta loja online, e passou muito rapidamente de ideia a projeto, que se calhar olhando para trás, uma próxima vez poderia ter sido um bocadinho mais, pronto, pensar um bocadinho mais estrategicamente sobre as coisas, mas tínhamos tempo. Isto começou entre semestres, ou seja, foi numa fase pós-exames, onde ambos tínhamos bastante tempo e disponibilidade, e também vontade de fazer isto, e começámos logo a explorar todas as ferramentas necessárias para pôr o negócio a funcionar. O que foi ótimo também, ele até mais do que eu tem esta facilidade de perceber logo rapidamente como é que as coisas funcionam e foi muito bom, porque rapidamente ficámos com algumas bases de muitos skills, por assim dizer, que eu acho importantes, ou seja, quer seja de edição de vídeos, de web design, mesmo a nível de programação. Ficámos a perceber, através desta tentativa-erro, quase os dois, muito de como estas coisas funcionam. O site funcionou durante algum tempo e foi ótimo, mas depois, quer por motivos, no caso, dele, profissionais, quer por motivos, meus, académicos, ou seja, era uma coisa que, para funcionar a sério e para ter o resultado esperado, tínhamos que efetivamente dedicar o nosso dia inteiro, a nossa semana inteira àquilo, e pronto, não era o nosso objetivo. Mas a nível de coisas que eu levo para o dia a dia, foram bastantes, acima de tudo, se já era verdade há três anos, hoje é mais que nunca, que é uma pessoa com bastante vontade e acesso à internet consegue aprender quase tudo no que toca a este tipo de coisa online, através de, basta ter vontade, e tentativa-erro e tentar explorar por nós próprios. Acho que é uma coisa espetacular, que a mim também me abriu um bocadinho os olhos, porque, claro que eu achava que tinha capacidade, mas, ou seja, não estava assim tão consciente da quantidade de informação grátis, e efetivamente, já nem é preciso entrar para coisas que são preciso pagar, mas informação grátis que está disponível na internet, para nós aprendermos a ser autossuficientes numa data de coisas. E como é que dois rapazes de 20 anos, eu nunca achei que eu e ele conseguíssemos pôr a funcionar uma coisa destas, e por isso também é bom, porque cria aqui uma base de uma certa confiança, que efetivamente quem consegue fazer isto, não é tudo, mas pronto, ou seja, estou mais aberto a conseguir as tarefas que me pedem. E, pronto, e é um bocadinho isso, é a chamada arte do desenrasque, que acho que é importante levar para qualquer que seja o trabalho, e que eu levo um bocadinho, de pronto, ou seja, se for preciso introduzir uma nova ferramenta, que é o que aconteceu por acaso neste trabalho, acabo por lidar com algumas ferramentas de base de dados que antes não conhecia. Mas pronto, ou seja, é uma questão de ir ver meia-dúzia de vídeos, explorar por nós próprios outros sites, e testar coisas nós próprios, e rapidamente ficamos com bases do que quer que seja, e por isso, acho que foi a principal coisa que retiro desta experiência.

[Marta Filipe]: Ok, obrigada. Ao longo do teu percurso, passaste por investigação, indústria e inovação, e mais recentemente por áreas de gestão e operações. Como é que navegar por mundos tão distintos tem contribuído para a tua perspetiva sobre o impacto real da Engenharia Biomédica na saúde? 

[Manuel Soares]: Então, eu acho que fazendo aqui a separação entre investigação e também mais o mundo empresarial da Biomédica, eu acho que são os dois claramente igualmente importantes, não é? Acho que, por um lado, a parte da investigação é muito importante, é o que cria inovação, não é? Ou seja, é através da investigação muitas vezes que nascem novos medicamentos, novas terapias, novas maneiras de, pronto, atacar certas doenças, não é? E por isso acho que sem isto é impossível o setor crescer. Acho que é um setor onde é mais importante, na minha opinião, do que noutros, ser mesmo apaixonado pelo que estamos a fazer, porque acho que também pode ser um caminho de vida um pouco frustrante, se calhar, para algumas pessoas. Eu acho que isto me aconteceria a mim, porque, ou seja, pronto, não sou a pessoa mais paciente sempre, e acho que é mesmo uma coisa que é preciso perceber, que é preciso ser muito paciente, e acho que sem este sentido de propósito, que o que estamos a fazer faz nos realmente sentido, acaba por ser difícil. Porque, por exemplo, eu posso dar um exemplo prático, a minha orientadora passava dias no laboratório, ou seja, mas dias do sentido das oito da manhã, se for preciso às oito da noite, a testar diferenças de volume de 30 microlitros numa solução, e como é que isso afetava a levitação das nossas células em 0,2 segundos, porque tinha que bater exatamente ali. E às vezes, são semanas e semanas, e reuniões depois, por exemplo, com o chefe, por assim dizer, onde não temos, efetivamente, nada de novo para apresentar, porque simplesmente não deu, não é que o caminho esteja errado, mas é uma coisa que eu acho que é preciso ter muita paciência. Pronto, e lá está, se não houver esta paixão, acho que fica mais difícil, mas acho que é essencial, e sinceramente é uma coisa que também não descarto, sinceramente, um dia regressar à investigação. Mas lá está, acho que é preciso fazer essa salvaguarda, que é mesmo preciso, eu diria, fazer um projeto que nos faça sentido, e que estamos dispostos, aquela coisa que nos deixa um bocadinho acordado à noite, porque acho que de outra forma fica um pouco mais complicado.

Do outro lado, acho que a Engenharia Biomédica também pode ter muito impacto na parte empresarial, por achar que dá perfeitamente fazer este balanço entre a parte mais de gestão, que acabamos por ter também um bom, compreender bastante bem a parte da gestão, mas também a parte da saúde mais biológica. Eu acho que isso é importante, até mais no setor hospitalar, se já é importante, diria que em empresas, por exemplo, de dispositivos biomédicos, acho que acaba por ser muito importante ter este conhecimento também, porque claro que talvez um Engenheiro Mecânico, por exemplo, consiga manusear melhor e mexer melhor na própria máquina, mas eu acho que este balanço entre também conseguir ter esta parte, mas também perceber a terapia para a qual estamos a desenvolver este dispositivo e tudo mais, todo este conjunto de competências acho que é muito importante, e pronto, eu também sou suspeito, não é, que sou Engenheiro Biomédico, mas eu acho, efetivamente, que é um curso bastante completo, e que, pronto, nesta parte empresarial também dá, sem dúvida, para fazer a diferença. 

[Andreia Freitas]: Ok, então, sabemos que o voluntariado também fez parte do teu percurso, incluindo o Banco Alimentar e o Apoio Educativo, de que forma é que esta dimensão social influencia a forma como encaras o trabalho e as tuas escolhas profissionais? 

[Manuel Soares]: Então, pronto, relativamente ao voluntariado, é sem dúvida uma coisa importantíssima para mim, e fico muito feliz que isto seja uma pergunta. Eu já fiz, pronto, fiz, como disseram algumas edições do Banco Alimentar, engraçado que a primeira foi com a escola, ou seja, uma coisa que eu, quase obrigatória, não é? Que eu estava mais interessado em estar com os meus amigos do que propriamente… Pronto, não estava assim com sentido de missão, entretanto, voltei a procurar o Banco Alimentar já sozinho, quando as coisas já me fizeram mais sentido. Esta parte também do Apoio Educativo foi ótima, porque acabamos por estar com realidades e ouvir histórias que acabam por ser inspiradoras e ser um bocadinho, voltarmos a pôr no nosso lugar, assim dizer, quando às vezes estamos… Pronto, eu próprio, às vezes estar chateado com coisas insignificantes, e às vezes vemos pessoas que ficam alegres com coisas que a nós são… é só o dia a dia, não é? Deixamos passar e tomamos por garantido, quando para estas pessoas isto muda-lhes completamente o dia. 

Eu aproveitava também para dizer que, efetivamente, a experiência que eu tive de voluntariado, que foi assim a mais transformadora, foi com a UDreams, que é uma associação de voluntariado também para alunos universitários, que aproveitava também para dizer, que quem quiser, o programa de liderança social, que foi completamente transformador também, que eu fiz durante o Mestrado, que muda-nos completamente, pelo menos a mim mudou-me, quer a nível de consciência social para com a sociedade, mas também para comigo próprio e com as pessoas mais perto de mim, ou seja, aprendemos mesmo que não é preciso uma grande coisa para mudar o dia de alguém. E quando eu digo o dia de alguém pode ser o dia dos nossos avós, por exemplo. Às vezes, é uma coisa que eu próprio também tinha a questão, por exemplo, gostava de trabalhar com idosos e faz-me sentir e tudo mais, mas, na verdade, tenho dois idosos que são os meus avós em casa, que às vezes, se calhar, não dou tanta atenção quanto devia e basta uma chamada e muda completamente o dia. Por isso, eu acho que é muito importante esta parte do voluntariado, porque, lá está, torna-nos pessoas mais sensíveis, mais atentas ao outro. E acho que, a nível profissional, acaba por ser um bocadinho a mesma coisa, ou seja, acabam por nos tornar pessoas mais cientes do mundo à nossa volta. E, por acaso, também tenho sorte que a CUF, efetivamente, também disponibiliza oportunidades de voluntariado, podemos fazer até 40 horas. O que é ótimo, acho que é sempre uma iniciativa importante nas empresas, porque põe-nos mais em contato com as nossas emoções, com o nosso ser humano, não é? Porque quase que, hoje em dia, as coisas já são muito automatizadas, as pessoas são muito focadas no trabalho, e acho que é ótimo, podemos ajudar só por ajudar, e estar naquele momento com quem quer que seja, com qualquer que seja a atividade social que estejamos a fazer. 

[Marta Filipe]: Ok, muito obrigada por essa resposta, só temos mais uma para terminar esta entrevista. Pronto, então, agora que terminaste o Mestrado recentemente, e estás a dar os primeiros passos no mercado de trabalho, que conselho darias a um estudante de Engenharia Biomédica que está a tentar perceber que caminhos pode seguir? O que tem sido mais desafiante e o que mais tem motivado este início do percurso? 

[Manuel Soares]: Eu acho que o melhor conselho que eu posso dar, quer para uma pessoa de Licenciatura ou de Mestrado, acaba por ser mesmo para ser curioso e não parar quieto. No sentido que acho que é a altura ideal, enquanto estamos no curso, de tentar falar com o máximo de pessoas possíveis, porque eu quanDo estava no curso, e ainda agora se calhar um bocadinho, ou seja, a Biomédica é uma área gigante, cheia de opções, e acho que muitas pessoas se calhar passaram pelo mesmo que eu, que é não saber exatamente o que é que eu quero fazer, e há muita coisa que faz sentido, muita coisa que parece interessante. Mas, acho que é a altura ideal mesmo para falar com pessoas, ou seja, qualquer que seja o caminho que queremos, tentar encontrar alguém que faça isso no dia a dia, e perceber, falar, mandar mensagem, quer seja no LinkedIn, onde quer que seja, tentar perceber como é que é efetivamente um dia a dia. Se tivermos uma área onde achamos que gostaríamos de tentar perceber, se podemos fazer um estágio aqui, algures. Eu acho é que estar parado, é o pior possível, e até porque o pior que pode acontecer numa destas experiências, é riscar alguma coisa que afinal não era o que nós achávamos, mas ficamos com a experiência, com o contacto, o que quer que seja. E pronto, acho que é mais fácil nesta fase, perceber o que não queremos dentro da Biomédica, do que propriamente aquilo que queremos. E eu acho que uma coisa que eu também tinha essa ideia errada, mais uma vez, é que as pessoas não estão muito abertas para partilhar o seu conhecimento, quando na verdade é exatamente o oposto. Eu já tive, enquanto procurava trabalho, muitas conversas, enviei muitas mensagens com respostas ótimas de pessoas, mais do que disponíveis para me ajudar, e para falar um bocadinho sobre o seu dia a dia. E já agora, aproveito para dizer que este trabalho onde estou agora surge, através de uma mensagem que enviei no Linkedin, a perguntar alguma, pronto, a pedir alguma ajuda nesta fase que é acabar o Mestrado, e foi mencionado esse trabalho, que se não fosse por essa conversa não teria encontrado, não teria ouvido falar sobre ele. Por isso, acho que é mesmo isso que eu posso dizer, acho que tentem fazer o máximo de contatos possíveis, tentem fazer, perceber o máximo de áreas dentro da Biomédica possível, porque é uma área ótima, cheia de coisas para fazer, e às vezes, há trabalhos que nem sequer conhecemos, empresas que nem sequer conhecemos e estão a fazer uma coisa que é ótima para nós, e pronto, com quanto mais pessoas conhecermos, e mais tivermos abertos a essas oportunidades, mais rapidamente o vamos conhecer.

A níveis de desafios, pronto, acho que acaba por ser um bocadinho isso que eu acabei de dizer, que ainda sinto às vezes um bocadinho, como é uma área tão grande e podemos fazer tanta coisa, às vezes é um bocadinho demasiado, não é? Há demasiadas coisas, será que isto era melhor? Sei, pronto, a minha cabeça às vezes anda um bocadinho a mil a pensar naquilo, pronto, no que é que quer ser o Manuel daqui a 20 anos, mas ao mesmo tempo acaba de ser um bocadinho essa mesma, a minha motivação, porque eu acredito que é um curso, onde efetivamente podemos fazer bastante a diferença no setor da saúde. E pronto, a minha motivação é pensar que as decisões, pronto, que vou tomando, quer academicamente, quer profissionalmente, vão ajudar a tentar ter o máximo de impacto possível neste setor. 

[Andreia Freitas]: Pronto, acabámos, muito obrigada Manuel por partilhares connosco o teu percurso e a tua experiência. Foi um gosto enorme ouvir-te, e temos a certeza que esta conversa vai inspirar muitos estudantes de Engenharia Biomédica. 

[Manuel Soares]: Obrigado.

[Marta Filipe]:Também queria agradecer a tua disponibilidade, a tua simpatia, e o teu interesse também em estar aqui, e, pronto. Resta-nos desejar o maior sucesso no teu percurso. Obrigada. 

[Manuel Soares]: Muito obrigado.