Entrevista a João Matos

João Matos
Licenciado em Bioengenharia e mestre em Engenharia Biomédica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Atualmente, está a realizar o doutoramento em Estatística Médica na Universidade de Oxford.
Hoje temos o prazer de conversar com o João Matos, licenciado em Bioengenharia e mestre em Engenharia Biomédica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Ao longo do seu percurso, João teve a oportunidade de fazer Erasmus na Universidade de Ghent, na Bélgica, e participou em diversos projetos na área da Biomédica, incluindo investigações no INESC TEC, no MIT e na Universidade de Duke. Além disso, também teve experiências profissionais na Fujitsu, no Japão e na Deloitte. Atualmente, está a realizar o doutoramento em Estatística Médica na Universidade de Oxford.
[Entrevistadora] – Mariana Meneses (ANEEB)
[Entrevistadora] – Marta Filipe (ANEEB)
[Mariana Meneses]: Olá e sejam bem-vindos a mais um episódio de “Biomédicos pelo Mundo”. Eu sou a Mariana Meneses, diretora do departamento de Ensino e Ação Social da ANEEB, e estou aqui com a minha colega de departamento Marta Filipe.
[Marta Filipe]: Hoje temos o prazer de conversar com o João Matos, licenciado em Bioengenharia e mestre em Engenharia Biomédica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Ao longo do seu percurso, João teve a oportunidade de fazer Erasmus na Universidade de Ghent, na Bélgica, e participou em diversos projetos na área da Biomédica, incluindo investigações no INESC TEC, no MIT e na Universidade de Duke. Além disso, também teve experiências profissionais na Fujitsu, no Japão e na Deloitte. Atualmente, está a realizar o doutoramento em Estatística Médica na Universidade de Oxford. Bem-vindo, João, e muito obrigada por teres aceitado o nosso convite.
[João Matos]: Obrigada eu.
[Mariana Meneses]: Então para começar gostaríamos de saber o que te motivou a escolher esta área de Estatística Médica para o teu doutoramento e, em particular, a razão pela qual optaste pela Universidade de Oxford.
[João Matos]: Em primeiro lugar, o nome do programa doutoral é um bocado confuso, porque não é necessariamente um bom reflexo daquilo que estou a fazer. Em Oxford as coisas demoram bastante tempo a mudar de nome e, no meu caso, eu estou a trabalhar com Inteligência Artificial, portanto, em Oxford, a Inteligência Artificial ainda acaba por cair no mundo da Estatística, o que é bastante engraçado. Acabei por escolher esta área, porque, como vocês disseram, fiz Bioengenharia na Faculdade de Engenharia na Universidade do Porto, depois com a especialização em Engenharia Biomédica e, em específico, mais em Ciência de Dados, trabalhar com AI na saúde fez bastante sentido para mim. Portanto, este programa acabou por se alinhar bastante naquilo que tinha sido a minha experiência, tanto no mestrado, mas depois também na investigação que comecei a fazer. Em específico, eu estou a trabalhar com Ética e Justiça em modelos preditivos com AI na saúde e, portanto, o nosso objetivo é garantir que a Inteligência Artificial funciona e funciona para todos, ou seja, não é só mais um modelo que vai funcionar nas populações maioritárias, tradicionalmente na Medicina, homens brancos. É a realidade, portanto, todo o conhecimento médico acaba por surgir nos Estados Unidos ou na Europa, que são os países ricos que conseguem fazer investigação e, portanto, todos os clinical trials acabam por ter a representatividade das populações destes países. Portanto, o que estamos a verificar com a Inteligência Artificial é que os modelos acabam por refletir a realidade que temos e a sociedade que temos. E a sociedade que temos não é ok, e tem todos os estereótipos que conhecemos, todas as imparidades, todos os vieses, todos os racismos, sexismos, o que quiserem chamar, e, portanto, todas estas questões são muito mais gritantes na Medicina, porque trata-se da saúde das pessoas. Portanto, a investigação que estou a fazer, e respondendo à tua pergunta, porquê Oxford, porquê este programa, é precisamente tentar medir a justiça dos modelos de Inteligência Artificial na saúde, também traduzir princípios éticos e discussões filosóficas em equações matemáticas ou métricas para avaliar estes modelos e, portanto, tendo em conta o meu percurso e este interesse, o programa doutoral em Oxford fez todo o sentido para mim.
[Mariana Meneses]: Ok, obrigada.
[Marta Filipe]: Sabemos que, ao longo do teu percurso académico, esta não é a tua primeira experiência internacional. Durante o mestrado, tiveste a oportunidade de realizar um semestre na Universidade de Ghent. Como descreves essa experiência? Consideras que teve um impacto significativo no teu crescimento pessoal e académico?
[João Matos]: Sim, significativo, sem dúvida. Acho que todas as experiências acabam por ser significativas. Ghent, na altura foi em 2021, salvo erro, foi mesmo depois do COVID e, na altura, foi no meu primeiro ano de mestrado. Portanto, foi uma experiência de Erasmus um pouco atípica, na altura, estava tudo fechado ainda. Eu optei por ir com um grupo de amigos da FEUP, fomos todos de Erasmus, estivemos todos na mesma casa, porque queríamos garantir que se houvesse um lockdown outra vez estávamos todos juntos e, portanto, a experiência foi bastante diferente nesse sentido. Acabámos por não ter acesso às festas de Erasmus, ou aos pubs, estava tudo fechado, mas tivemos uma experiência mesmo positiva, porque erámos cinco e erámos bastante amigos, ainda somos amigos e a experiência nesse sentido foi espetacular. Do ponto de vista mais de carreira, mais académico, foi um bocadinho a primeira experiência full-time que tive em investigação. Nós na Faculdade de Engenharia, na altura, podíamos substituir as cadeiras do semestre todas, portanto 30 créditos, acho eu, por um estágio de investigação. Portanto, o que tínhamos de fazer era simplesmente encontrar um grupo, encontrar um professor que nos aceitasse, o financiamento era o financiamento de Erasmus e, portanto, o que fui para lá fazer foi, basicamente, fazer um projeto de investigação. Na altura, estávamos a tentar prever epilepsia após um primeiro evento e estávamos a fazer isso com eletroencefalograma e machine learning, na altura métodos bastante tradicionais, e foi super engraçado. Foi uma primeira experiência, foram cinco meses, foi o primeiro artigo, também, foi um cheirinho do que é que era a Academia. Não adorei necessariamente o trabalho na Academia, na altura, o trabalho de investigação, mas também não desgostei, digamos assim, e, portanto, foi, sem dúvida, significativo.
[Mariana Meneses]: Obrigada. Para além do Erasmus, sabemos que realizaste um estágio no Japão, foste investigador no INESC TEC, no MIT e na Universidade de Duke e, ainda, foste professor em Harvard. Como foi esta tua adaptação a estas diferentes culturas académicas e profissionais?
[João Matos]: Foi uma adaptação constante. Houve ali uma altura, nos últimos 3 anos, que vivi em países, cidades diferentes, a cada 6 meses, portanto, estive sempre a mudar de um lado para o outro. Acho que, sem dúvida, foi um processo de adaptação contínua, fez-me uma pessoa muito mais resiliente. Eu, na altura, seguindo o mestrado em Ghent, como foi um Erasmus assim um bocado atípico, eu achei que queria algo diferente, significativamente diferente, e, portanto, foi nessa altura que me candidatei para ir para o Japão. Há um programa muito fixe, que se chama “Vulcanus in Japan”, que é financiado pela União Europeia e que, basicamente, leva estudantes de Engenharia, durante um ano, para o Japão, em que, os primeiros meses é para aprender japonês e depois os oito meses que sobram são para trabalhar numa empresa japonesa, e foi isso que eu fui fazer. Tive imensa sorte em ser selecionado, o programa é bastante competitivo. Aquilo é um bocado black box, ninguém sabe como é que o processo de seleção funciona, mas tive essa oportunidade e, portanto, foi diametralmente oposto de Ghent e, do ponto de vista cultural, muito mais. Super enriquecedora, a comida é espetacular, o país é espetacular. O stipend que tínhamos não era enorme, mas era o suficiente para viajar bastante, todos os fins de semana íamos a alguma cidade, ou íamos a algum sítio diferente. Do ponto de vista do trabalho, foi, sem dúvida, uma ótima experiência, mas definitivamente não é o tipo de ambiente em que me vejo a trabalhar. Achei muito hierárquico, bastante conversador, também. Todo o sistema de comunicação, a cultura, é bastante diferente daquilo que estamos habituados e, portanto, nesse momento achei que queria novamente uma experiência diferente na minha vida e pensei que os Estados Unidos eram a experiência diametralmente oposta, novamente, portanto um bocadinho outra vez para os antípodas, e decidi candidatar-me a uma fullbright, que são umas bolsas que existem entre os Estados Unidos e inúmeros outros países, basicamente, para fazer a tese de mestrado numa universidade americana. Muito semelhante ao Erasmus, o que foi preciso fazer foi basicamente encontrar um professor, um laboratório, um grupo de investigação, que me aceitasse, para fazer investigação de borla para eles, quem financia é a fullbright, e, portanto, não é super difícil arranjar alguém que aceite assim estudantes. Candidatei-me, estive no MIT durante 4 meses e depois tive aí realmente uma experiência de investigação que gostei. Foi mesmo muito imersivo, super enriquecedor, conheci imensa gente, não só no MIT, mas em todo o lado. Foi nessa altura, também, que tive a oportunidade de dar aulas em Harvard, no verão, graças ao Leo, que foi o professor que me acolheu no MIT, que é uma pessoa incrível e somos amigos e já viajamos em imensos sítios. O grupo do MIT em que estive a trabalhar organiza eventos em várias cidades no mundo e, portanto, graças a essa experiência no MIT, tive a oportunidade de conhecer imensas outras pessoas, universidades e grupos de investigação. Portanto, sim, foi um processo de adaptação constante, mas acho que na altura da vida em que foi, não foi assim há tanto tempo, agora até parece que foi, a falar, mas acho que é definitivamente algo que uma pessoa deve fazer.
[Marta Filipe]: Com esta tua vasta experiência internacional, entre as universidades e laboratórios onde já tiveste a oportunidade de trabalhar, houve algum ambiente que consideraste particularmente estimulante para a inovação?
[João Matos]: Sim, acho que o ambiente que vivi nos Estados Unidos foi muito produtivo nesse sentido. Não vou dizer que seja o ambiente mais work-life balance friendly. Acho que os americanos são, de facto, muito focados no trabalho, o que é bom para a inovação, mas depois se calhar não é tão bom para outras vertentes na vida que nós aqui na Europa valorizamos mais. Portanto, nesse sentido, estou a gostar muito da minha experiência agora aqui em Oxford. Há muitos pontos que se intersetam, no sentido da inovação e da produtividade e da ambição que eles têm cá, para, de facto, serem líderes na Ciência e há cá universidades espetaculares, mas acho que se consegue ter um melhor balanço entre inovação e vida fora do trabalho. Portanto, a experiência que estou a ter agora aqui em Oxford está a ser, definitivamente, a mais positiva.
[Mariana Meneses]: Obrigada. Sabemos, também, que já atuaste como mentor de alunos de mestrado no passado e que, inclusive, te encontras atualmente a orientar uma aluna na sua tese. Quais são, na tua opinião, os principais desafios e recompensas deste processo?
[João Matos]: Sim, é algo que acontece naturalmente quando se está na Academia, quando se está no mundo da investigação. A dada altura começa a haver tantas ideias, tantos pontos de curiosidade, que a melhor forma de explorar todas essas ideias é ter outros estudantes, outros investigadores com quem trabalhamos e colaborações, e, portanto, as oportunidades de mentoria que tenho tido é muito o resultado disso. Têm sido sobretudo no âmbito do mestrado em Bioengenharia, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, com o professor Jaime Cardoso, que foi o meu orientador de tese. Eu quando acabei o mestrado, estive 6 meses a trabalhar com o professor Jaime, a fazer investigação, estávamos a continuar um bocado o trabalho que já tínhamos começado, e surgiu a oportunidade de mentorar estudantes no mestrado e foi com muita energia que começámos isso. No primeiro ano, portanto, no ano passado, tivemos duas estudantes e agora temos uma outra estudante e estamos a desenvolver muito trabalho em machine learning na saúde, visão por computador com imagem e sempre com perspetiva de fairness, perspetiva de resolver um bocadinho os biases que existem nos modelos, nos dados, quando estamos a treinar AI. Acho que é super recompensador ver o processo de um estudante num espaço de um ano, um semestre, o crescimento e a aprendizagem, ver o documento overleaf da tese ir de uma página em branco para um documento com quase 200 páginas, depois estar no processo final, na defesa, as notas, ver tudo a acontecer. No ano passado, com as duas estudantes, com a Maria e a Inês, cada uma delas conseguiu publicar um artigo até, foi espetacular. Portanto, todo esse processo acho que é super recompensador e, enquanto investigador, é um privilégio ter acesso a estudantes top, estudantes brilhantes, que podem também interessar-se pelos temas que nós estamos interessados e levar um bocadinho a cabo os nossos projetos. Acho, sem dúvida, um privilégio.
[Marta Filipe]: O teu percurso académico tem uma forte ligação à aplicação da Inteligência Artificial à área da saúde. Nesse sentido, como avalias a evolução da interseção entre Inteligência Artificial e a Medicina ao longo dos últimos anos e até onde acreditas que esta relação pode progredir no futuro?
[João Matos]: Acho que é uma relação que ainda está muito no início. Acho que há demasiadas promessas, demasiado hype, muita esperança que a AI pode revolucionar a Medicina. O próprio Geoffrey Hinton, que ganhou o prémio Nobel no ano passado, disse que os radiologistas não iam sobreviver 5 anos e a verdade é que ainda temos radiologistas a trabalhar. Portanto, acho que é uma relação que é muito mais complexa, portanto, a relação entre AI e a Medicina é muito mais complexa do que AI e outra qualquer parte da sociedade. Tem de ser definitivamente estudada e trabalhada em conjunto. Não podemos achar que um Engenheiro vai resolver os problemas todos, e nós, enquanto Engenheiros Biomédicos, vemos isso muito bem, acho eu. Estamos na interface entre as duas áreas e, portanto, temos um background técnico muito forte, mas precisamos, sem dúvida, dum Médico para nos explicar os dados, para ter um problema real, para dar significado e sentido às tecnologias que nós podemos oferecer. Portanto, essa relação acho que é o grande desafio, neste momento. Falei de Engenheiros e Médicos, mas também há que considerar os pacientes, que são, na verdade, quem importa e muitas vezes são esquecidos, as famílias, mas também, os Enfermeiros e todas as outras partes envolvidas. Agora estou enviesado, porque é o tema da minha tese e os temas que importam para mim, mas as questões de garantir que os modelos são justos e são equitativos e funcionam para toda a gente, acho que é particularmente importante na saúde e não está a ser levado tão a sério como deveria ser levado neste momento, porque, neste momento, só se quer criar mais modelos, modelos maiores, que funcionam melhor, mas depois na verdade vai se a ver e o modelo não funciona tão bem dependendo do género da pessoa, ou dependendo da cor da pele, ou dependendo do salário. Portanto, essas diferenças não fazem sentido e têm de ser consideradas desde o início e não como algo que se tenta corrigir no final. É, sem dúvida, uma relação, portanto AI e a Medicina, que está a começar, e tem de ser mesmo trabalhada num ponto de vista holístico, que envolva várias partes.
[Mariana Meneses]: É verdade. Estamos quase a terminar esta entrevista, mas gostávamos de saber o que dirias a quem está a pensar em seguir um caminho internacional, seja em Erasmus, estágios ou mesmo no mercado de trabalho?
[João Matos]: Eu sugiro bola para a frente. Acho que é tentar tudo, especialmente se tiverem curiosidade em ir para fora e conhecer culturas diferentes de trabalho, ou até mesmo culturas só. Às vezes, ir para fora no trabalho é uma desculpa para conhecer outros países, e eu fiz isso, sem dúvida, e acho que a forma de o fazer é ter coragem para se candidatarem a financiamento, para se candidatarem a programas, a intercâmbios, o que for. Os meus amigos muitas vezes partilham comigo: “Ah! Candidatas-te a coisas e ganhas”, e eu: “Pois, mas vocês não sabem é as coisas que eu sou rejeitado, ou as coisas que não consigo” e, portanto, se eu consegui ganhar a bolsa para ir para o Japão foi porque, se calhar, fui rejeitado noutras tantas, ou se calhar mais. Acho que é muito importante não ter medo da rejeição nestas candidaturas e acho que uma pessoa tem é que se candidatar, tem é de tentar, e quem não tenta não consegue e, portanto, acho que esse é o maior conselho que tenho. Acho que se aprende muito, também, com as rejeições que se vai tendo no caminho e, portanto, se tiverem essa ambição, tentem.
[Marta Filipe]: Muito obrigada, João, pela tua partilha. Foi um prazer ouvir sobre o teu percurso e tenho a certeza que muitos dos nosso ouvintes ficaram inspirados pelas tuas experiências.
[Mariana Meneses]: Agradeço também pela tua disponibilidade e desejamos-te o maior sucesso para o futuro!
[João Matos]: Obrigado. Foi um prazer falar convosco.
