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Entrevista a André Ventura

André Ventura

Formado em Engenharia Biomédica pela UC e certificado em Gestão de Projetos (PMP), o André personifica a versatilidade do setor. Da programação de simuladores médicos no CHUC à liderança de projetos internacionais, o seu percurso evoluiu da técnica para a gestão. Atualmente, como Territory Manager na Applied Medical, alia a estratégia comercial ao suporte técnico em bloco operatório, sendo a ponte essencial entre a inovação tecnológica e a prática clínica real.

A ANEEB teve o prazer de entrevistar o André! O André falou-nos do seu percurso versátil: desde a programação de simuladores no CHUC até à liderança de projetos internacionais. Atualmente, como Territory Manager na Applied Medical, partilhou como alia a estratégia comercial ao suporte técnico no bloco operatório, sendo a ponte entre a tecnologia e a prática clínica.

[Entrevistadora] – Marta Filipe (ANEEB)
[Entrevistadora] – Carolina Novo (ANEEB)
 
Vê aqui a Entrevista completa!

[Marta Filipe]: Olá e sejam bem-vindos a mais um episódio de Biomédicos pelo Mundo. Eu sou a Marta Filipe, diretora do departamento de Ensino e Ação Social da ANEEB, e estou aqui com a minha colega de departamento Carolina Novo.

[Carolina Novo]:  Hoje temos connosco o André Ventura, mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade de Coimbra, com uma pós-graduação em Business Administration e certificação em Project Management. Com um percurso marcado pela área da simulação médica e, mais recentemente, pelos dispositivos médicos, o André é atualmente Territory Manager na Applied Medical, onde trabalha diretamente com equipas clínicas em contexto hospitalar. Bem-vindo, André, e muito obrigada por teres aceitado o nosso convite.

[André Ventura]: Olá, boa tarde a todos. Agradeço também o convite a oportunidade de partilhar a minha experiência. 

[Marta Filipe]: Começando pelo papel que desenvolves atualmente. Em que consiste o dia a dia de um Territory Manager na área dos dispositivos médicos e como é trabalhar de perto com as equipas clínicas, nomeadamente em contexto de bloco operatório?

[André Ventura]: A Applied Medical é uma empresa americana. Nós desenvolvemos e comercializamos soluções para cirurgia minimamente invasiva, trabalhando com várias especialidades e a nossa sede europeia está localizada em Amersfoort, nos Países Baixos. Portanto, nós aqui em Portugal acabamos por ser um bocadinho a cara da empresa. Nós é que fazemos o contacto direto com o clientes e desconfiem, sempre que virem uma função com a palavra “manager” quer dizer que nós temos de fazer tudo. A verdade é que temos de fazer desde a ponte com a parte financeira dos clientes, com a parte administrativa, com os departamentos de compras e claro, a parte mais importante acaba por ser o contacto clínico, não só com médicos, neste caso estamos a falar de equipas cirúrgicas de várias especialidades, cirurgia geral, ginecologia, urologia, cirurgia torácica, pediatria e obviamente são diferentes especialidades que requerem diferentes atenções e estamos a falar de diferentes técnicas também. Acabamos por trabalhar um pouco com todas as equipas, não só médicas mas também de enfermagem que acabam por fazer parte da solução que é entregue depois ao doente. 

[Carolina Novo]: Muito bem. Como referiste então, trabalhas de perto com médicos e equipas de saúde, muitas vezes em situações críticas como cirurgias. Como é que um engenheiro biomédico se posiciona nesse ambiente e qual é o teu papel na equipa?

[André Ventura]: Felizmente e também dadas as características da empresa e dos produtos que temos, sempre que é feita uma avaliação ou a utilização de um produto novo, normalmente é feito em cirurgias eletivas, portanto, são cirurgias programadas e não temos nenhum contexto urgente. Tentar que seja o mais controlado possível para toda a gente, para evitar desconfortos, para evitar que o foco não seja o produto e sim, o doente. 

Obviamente nós aqui fazemos parte da equipa, tentamos ao máximo, antes da cirurgia, explicar como funciona o produto, portanto, os médicos nunca vão às cegas. É importante que conheçam o produto e que saibam como funciona mas normalmente nós depois estamos presentes no bloco operatório, fazemos parte da equipa e é um privilégio estarmos presentes também na sala operatória, nunca esquecendo que o foco ali é sempre o doente. Às vezes há um conceito errado, que é que a pessoa mais importante da sala é o cirurgião mas a pessoa mais importante da sala é sempre o doente, por isso temos de estar sempre em sintonia, não só com o cirurgião, com as equipas de enfermagem e de anestesia para que corra tudo da melhor forma e sempre que possível, passamos despercebidos durante o procedimento, o que é bom sinal. 

[Marta Filipe]: Trabalhar em contexto de bloco operatório exige não só conhecimento técnico, mas também controlo emocional e comunicação eficaz. Que competências sentes que foram mais desafiantes de desenvolver nesse ambiente?

[André Ventura]: Como referi estamos a falar de muitas especialidades, todas muito particulares, pessoas com egos e personalidades diferentes e muitas vezes estamos num cenário, não digo de stress mas por vezes há situações que podem despertar algum desconforto. É muito importante conseguir gerir esta comunicação com toda a gente na sala e é muito importante que essa comunicação seja clara, portanto, saber com quem estamos a lidar e a comunicação tem de ser muito eloquente porque temos pouco tempo para passar a informação e esta tem de ser clara e confiante. 

Tudo o que nós não queremos é um médico a usar um produto em que não se sinta confortável em usá-lo e isso também depende muito da forma como transmitimos a informação para que corra tudo de forma muito tranquila. Não esquecendo o resto da equipa, é muito importante tanto o enfermeiro instrumentista, o enfermeiro circulante e toda a gente tem de estar envolvida para que não se sinta excluída e para que não surjam dúvidas desnecessárias durante a cirurgia. 

Portanto, o mais importante mesmo é a forma como comunicamos e aquilo que comunicamos. 

[Carolina Novo]: Muito obrigada! Voltando agora aqui um bocadinho atrás, o teu percurso começou na área da simulação médica, ainda durante o estágio no Centro de Simulação Biomédica de Coimbra. Como surgiu esse interesse e de que forma essa experiência influenciou as tuas escolhas profissionais iniciais?

[André Ventura]: Foi claramente pelo acaso, na verdade foi durante um ENEEB realizado em Coimbra, uma das palestras foi realizada pelo fundador do Centro de Simulação Biomédica de Coimbra e a iniciativa até foi de um colega meu que achou interessante o projeto e propusemos, na altura quatro colegas, fazer lá um estágio de verão no Centro de Simulação. A verdade é que foi interessante, não foi nada muito complexo mas deu para termos um contacto já com o mundo fora da academia. 

A relação com a equipa local foi positiva, mesmo após o estágio fomos mantendo o contacto e mais tarde, já em 2010, esse próprio fundador do Centro de Simulação tinha criado uma empresa, a MedsimLab, e precisava de gente nova que abraçasse o projeto e de preferência com alguma experiência na área e acabei por ficar eu e um outro colega e esse foi o começo. 

Depois, obviamente, passei 8 anos na MedsimLab que me deu para trabalhar em várias áreas diferentes dentro da simulação médica, algumas delas vão de encontro aquilo que faço hoje, o que me levou a abraçar um projeto diferente não só na área mas também na dimensão da empresa. Trabalhar numa empresa familiar, cheguei a uma altura que achei que era importante conhecer outro tipo de estruturas e estamos a falar da Applied Medical que tem mais sete mil colaboradores a nível mundial, portanto é uma realidade diferente. 

A verdade é que todo o percurso acabou por me levar ao ponto onde estou hoje. 

[Marta Filipe]: Boa! Mencionaste que estiveste envolvido em projetos de investigação e desenvolvimento neste contexto e queríamos saber se nos consegues dar  um exemplo concreto de um projeto que te tenha marcado e quais foram os principais desafios em todo o processo?

[André Ventura]: Um dos projetos que posso partilhar e acho que é fácil de perceber foi, nós trabalhamos com várias soluções de simulação, desde básicas a mais complexas e as mais complexas basicamente simulam o comportamento humano até com movimentos e reações fisiológicas em situações reais e esses simuladores permite prever cenários, para treinar as equipas médicas, de enfermagem e profissionais de saúde em geral, e nós na altura tentamos desenvolver algo que não existia a nível mundial, aquilo que se chama um módulo educativo que basicamente é um conjunto de vários cenários clínicos dedicados a doenças tropicais infecciosas. Na altura estávamos a trabalhar com alguns projetos também em África e tentamos, com alguns profissionais na área da medicina tropical, criar alguns cenários que respondessem a esses casos mais críticos. O que isto iria permitir era replicar casos clínicos, que muitos deles até, não digo que sejam raros mas há algumas dificuldades das equipas lidarem com eles de forma frequente e o treino permite vivenciarem isso antes de aparecer um doente. 

A parte desafiante, obviamente é a seleção dos casos, nós queríamos escolher doenças em que o treino de pequenos processos tivesse um impacto grande, como vírus ou doenças infecciosas de bactérias por exemplo, em que uma pequena alteração do processo ou do protocolo, num curto espaço de tempo possa ter um impacto gigante no outcome do doente. Depois foi tentar, não só identificar as doenças, mas planeá-las de forma que fossem replicáveis de forma simples e com métricas que fossem fáceis de trabalhar  e de medir realmente o impacto da performance das equipas. 

[Carolina Novo]: Obrigada! Voltando agora ao teu percurso académico, depois de concluíres o mestrado em Engenharia Biomédica, optaste por fazer uma pós-graduação em Business Administration, queríamos saber o que te levou a complementar a tua formação com uma vertente mais ligada à gestão, o que é que te levou a seguir por esse caminho? 

[André Ventura]: A parte de gestão foi sempre uma área que me despertou interesse e a verdade é que a partir do momento em que entremos numa engenharia, a gestão tem de estar presente. Apesar de ter tido algumas cadeiras de gestão no curso, é mais uma vertente teórica e ainda não conseguimos aplicar muito bem os conceitos e ao estar numa empresa familiar onde a estrutura hierárquica não é pesada, nós acabamos por estar envolvidos em processos de vários departamentos, senti que era necessário reforçar alguns conceitos teóricos. Numa pós-graduação, já tendo mais maturidade e experiência profissional, permite-nos reforçar alguns conceitos teóricos e aplicá-los. Não só, a pós-graduação é mais aplicada, como depois conseguimos transpor isso para o mundo empresarial e acho que é uma componente que toda a gente que possa, devia reforçar. 

[Marta Filipe]: Obrigada! Voltando aqui à tua experiência na Medsimlab, sabemos que estiveste envolvido na expansão internacional para Angola e Moçambique, então queríamos perceber como foi trabalhar em sistemas de saúde tão diferentes do português?

[André Ventura]: Foi bastante desafiante, eu diria mais do que diferente do sistema português, é diferente do sistema europeu. Estamos a falar de um gap gigante em termos tecnológicos, para terem uma ideia, por exemplo em Moçambique, a maior parte das pessoas prefere ir a um curandeiro do que a um hospital porque sentem mais confiança e é lidar com uma realidade completamente diferente, temos de dar um passo atrás, perceber que as prioridades às vezes são outras. Chegava a custar nós estarmos a dar soluções de dezenas ou centenas de milhares de euros quando às vezes eles não têm o básico, como vacinas e medicamentos e isso é um choque grande, não digo em termos pessoais porque já tinha essa perceção mas quando chegamos ao terreno é que percebemos que há ali uma grande diferença. 

Obviamente que estar a trabalhar com outro continente e com outros países há alguns desafios em termos logísticos que dificultam sempre os negócios, mas foi bastante gratificante e muito desafiante. 

[Carolina Novo]: Acredito que tenha sido uma experiência bastante diferente e queríamos perguntar-te então que aprendizagens trouxeste dessas experiências internacionais, tanto a nível profissional como pessoal?

[André Ventura]: A nível pessoal, é sempre gratificante perceber que estamos a ter um impacto gigante, pelo menos a médio/longo prazo, porque ao estarmos a dar estas soluções de formação estamos a dar oportunidades que para a maioria das pessoas não existia. Posso dar um exemplo, nós temos um projeto também internacional, em que desenvolvemos um plano para formação de médicos, enfermeiros e parteiras em Angola e isso teria um impacto gigante na natalidade e depois também na redução da mortalidade infantil e perceber que estamos a contribuir para a melhoria dos cuidados básicos a nível internacional é muito bom. 

A nível profissional, reforçou alguns pontos muito importantes como o planeamento, se em qualquer área é muito importante planear, se formos para um país em desenvolvimento isso é muito mais importante ao ponto de levarmos um simulador que precisava de ser ligado à corrente e não encontrarmos uma tomada que funcionava, por exemplo, ou termos de fazer um transporte para outro local e não haver meio de transporte. Portanto, há certos desafios que têm de ser planeados com antecedência e mesmo assim, por vezes, há contratempos.  

[Marta Filipe]: Olhando para o teu percurso todo em perspetiva, como é que estas experiências moldaram a tua visão sobre o que é ser engenheiro biomédico?

[André Ventura]: O conceito de engenheiro biomédico é muito vago, ou seja, não há uma definição exata. Quando eu entrei no mercado de trabalho, quando eu dizia que era engenheiro biomédico, praticamente ninguém sabia o que isso era ou nunca tinha ouvido falar e hoje em dia, todas as empresas ligadas à saúde e não só, têm engenheiros biomédicos. Posso-vos dizer que das várias empresas da minha área, concorrentes inclusive, existem vários engenheiros biomédicos. É bom perceber perceber que há ali uma figura que está preenchida, que não existia e que complementa bastante a área da saúde e acho que ninguém melhor do que nós para fazer a ponte entre a tecnologia e os cuidados de saúde ou o desenvolvimento destes cuidados. 

[Carolina Novo]: Por fim, queria-te perguntar que conselho darias a um estudante de Engenharia Biomédica que está a tentar perceber que caminho seguir, especialmente considerando áreas diferentes como a componente comercial?

[André Ventura]: Hoje em dia, mais do que nunca, a área comercial está em todas as funções que nós possamos fazer, mesmo que não seja uma função puramente comercial, nós somo a imagem da empresa ou da entidade que estamos a representar e é muito importante saber que estamos a representar algo maior do que nós e por isso é preciso saber vender e saber estar também, ou seja, não é só uma componente comercial pura e dura mas até mais de soft skills. 

As componentes mais técnicas só se aprendem no terreno, lá está, como na simulação, só praticando é que aprendem. O que eu posso sugerir é, ainda durante o curso, envolverem-se o máximo possível em atividades extracurriculares, seja núcleos, associações, estágios de verão, voluntariado, ou seja, todo o tipo de atividades que vos possa pôr em contacto com o mundo empresarial, vai-vos pôr à frente de 99% dos vossos colegas, porque a verdade é que, eu posso dar o exemplo do meu trabalho, quando recebo licenciados, nós estamos completamente verdes e não temos experiência de nada, portanto acreditem que é preciso dar tempo ao tempo, não querer subir demasiado rápido e essencialmente querer aprender e rodearem-se das pessoas que possam ser um bom exemplo e desempenham as funções que vocês gostavam de desempenhar no futuro. 

[Marta Filipe]: Já estamos aqui a finalizar a nossa entrevista queríamos só terminar, agradecendo a tua presença e por partilhares connosco o teu percurso e a tua experiência. Foi um prazer ouvir-te e acreditamos que esta conversa vai inspirar muitos estudantes de Engenharia Biomédica quando depois tiverem a oportunidade de a ouvir. 

[Carolina Novo]: Agradecemos mais uma vez a tua disponibilidade! Desejamos-te o maior sucesso para o futuro tanto profissional como pessoal!

[André Ventura]: Muito obrigada eu também pela oportunidade!