Entrevista a Inês Salema

Inês Salema
Inês Salema iniciou o seu percurso no IST, onde se licenciou em Engenharia Biomédica e desenvolveu o seu perfil de liderança na JUNITEC e na AEIST. O seu percurso internacional começou em Madrid, pelo programa ATHENS, e consolidou-se no Mestrado em Engenharia Biomédica na Universidade de Barcelona e Politécnico da Catalunha, onde se destacou como melhor aluna e co-capitã na competição SensUs. Após passagens pela Neyond e AstraZeneca, mudou-se para a Suíça para realizar a sua dissertação no centro ARTOG (Universidade de Bern). Atualmente, reside em Bern e trabalha como Engenheira Biomédica na CASCINATION, onde aplica a sua especialização à cirurgia assistida por imagem médica.
A ANEEB teve o prazer de entrevistar a Inês! A Inês falou-nos do seu percurso internacional e dinâmico: desde a liderança na JUNITEC e na AEIST, passando pelo mestrado em Espanha com distinção na competição SensUs, até ao trabalho de investigação na Suíça. Atualmente, como Engenheira Biomédica na CASCINATION, partilhou como aplica a sua especialização à cirurgia assistida por imagem médica, demonstrando a determinação necessária para traçar um caminho próprio na área.
[Entrevistadora] – Marta Filipe (ANEEB)
[Entrevistador] – Gonçalo Coelho (ANEEB)
[Marta Filipe]: Olá e sejam bem-vindos a mais um episódio de Biomédicos pelo Mundo. Eu sou a Marta Filipe, atual diretora do departamento de Ensino e Ação Social da ANEEB e estou aqui com o meu colega de departamento, o Gonçalo Coelho.
[Gonçalo Coelho]: Hoje temos connosco a Inês Salema, que é mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade de Barcelona e pelo Politécnico da Catalunha. Tem experiência em IT, oncologia e biossensores, e trabalha hoje em dia na Suíça, na área de inovações médicas para a assistência a cirurgias. Bem-vinda, Inês, e muito obrigado por teres aceite o nosso convite.
[Inês Salema]: Obrigada, obrigada eu.
[Marta Filipe]: Vamos começar por olhar mais para o teu percurso académico. Ao longo deste, estiveste bastante envolvida no associativismo, desde a JUNITEC, à Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico e também no Bio-me explica. De que forma é que estas experiências contribuíram para as competências que hoje utilizas no contexto profissional? Achas que são skills que são valorizadas pelas empresas?
[Inês Salema]: Sim, sem dúvida. Acho que toda a parte de interação de uma equipa e com a chefia de uma empresa são partes de um trabalho super importante que tu não consegues aprender na universidade. Em nenhum tipo de cadeira consegues aprender como interagir com conflitos de equipa, como pedir feedback ao teu chefe, ou toda essa logística de como interagir com pessoas. É uma grande parte do mundo de trabalho que só é possível tu teres contacto e desenvolveres essas skills se te puseres nesse tipo de contexto de associativismo. E depois também há o facto de que quando vais procurar o teu primeiro emprego, em princípio, não vais conseguir ter empregos prévios para dar exemplo, ou para te destacares. E dizer que tiveste certa cadeira na faculdade e tiveste certa nota, não te vai destacar os teus colegas, porque a verdade é que toda a gente esteve na faculdade, nos mesmos cursos, com as mesmas médias: não é um fator distintivo. Mas as empresas gostam de ver pessoas que foram capazes de gerir tempo, que foram capazes de gerir eventos, e às vezes até são skills procuradas no mercado de trabalho e é sempre supervalorizado, especialmente na minha opinião, para o teu primeiro emprego. Claro que para o teu segundo ou terceiro já não vai ser tão valorizada porque vais ter mais a referência do primeiro emprego. Mas eu acho que no início da tua carreira, tu precisas também de te distinguir dos teus colegas de alguma maneira e é super importante isso e também porque um emprego não é só saber engenharia. É também saber interagir com pessoas, ou senão mais às vezes do que a parte de engenharia, portanto, sem dúvida é muito importante.
[Gonçalo Coelho]: Passando agora um bocado para a tua experiência internacional. Ela surgiu durante a licenciatura quando fizeste o programa ATHENS em Madrid. Depois escolheste fazer o mestrado em Barcelona, e acabaste por realizar a tua dissertação e também iniciar a tua carreira profissional em Bern. Como é que foste construindo este percurso internacional e, desde a licenciatura até agora que estás a trabalhar, o que é que cada uma destas experiências te acrescentou?
[Inês Salema]: Na minha opinião, esta escolha que eu tive ao longo do tempo de mudar de ambiente e mudar de país e de universidade é sempre tentar expor-me um bocado, estar fora da zona de conforto, porque tu quando estás na tua zona de conforto, estás com as mesmas pessoas a toda a hora e uma coisa super importante também na tua carreira são os contactos que tu fazes pelo caminho. Não podemos ignorar o facto de que tu preferes sempre trabalhar com uma pessoa que já conheces do que com uma pessoa que tu não conheces, que acabaste de receber um CV aleatório. Portanto, mesmo as experiências pequenas, por exemplo, ir para o ATHENS em Madrid fazem a diferença porque, por acaso não era uma área que eu estava super apaixonada, aconselho imenso essa mobilidade, super divertida, aprendes imenso, mas por acaso entrei num curso que era de células estaminais que nem é bem a minha área, mas se por acaso fosse imaginem que eu tinha adorado um dos professores e tinha mantido o contacto e um dia fazia a tese lá. É esse tipo de coisas que às vezes temos de procurar, que é tentar expor-nos ao máximo de pessoas possíveis para ver se também encontramos a nossa pessoa com quem nós queremos trabalhar e vice-versa, e é muito mais fácil quando esse contacto é feito presencialmente através destes programas. Depois, sobre ir para o mestrado fora e a tese fora, acho que foi um bocado por causa do pensamento de que eu estava no mestrado integrado quando entrei no técnico, que gostava imenso de estar no técnico, mas eu sentia que se eu continuasse no mestrado no técnico ia ter uma “segunda licenciatura”. Com os mesmos professores, com tópicos parecidos e que eu já estava muito confortável em termos de: eu sei que para esta cadeira eu tenho de estudar isto, isto e isto – vou ter boa nota e eu já não estou sequer a aprender. Eu estou a estudar para este exame e eu vou saber muito bem este exame, mas eu não vou saber este tópico porque já estou tão confortável e já sei tão bem o que eles querem, que já não estou a aprender. Então eu senti necessidade de trocar de universidade e de trocar de país para não estar nesta zona de conforto e estar de facto a aprender, porque eu quero aprender, e não porque sei que me vão perguntar A, X ou B. A tese na Suíça foi um pouco por eu sentir que já tinha tido diversão suficiente, e que estava na altura de me focar. Porque sim, de facto o mestrado em Barcelona foi super positivo, mas provavelmente não foi o mestrado mais exigente do mundo, mas também porque assim eu o quis fazer, porque eu acho que não temos só de procurar a excelência académica a todo o momento e que às vezes é mais importante estarmos bem e estarmos felizes com a nossa vida e estarmos numa cidade onde sempre quisemos viver, e é super válido estarmos à procura dessas coisa. E às vezes há momentos em que tu tens de dizer, quero começar a minha carreira profissional e quero que seja aqui. E eu acho que a tese tem muito impacto. Claro que, pronto, aconteceu comigo, mas eu sempre tive a visão de: eu quero começar a tese no sítio onde eu quero trabalhar. Eu sabia que queria começar a trabalhar na Suíça, então comecei a procurar tese na Suíça porque sabia que era um ponto de referência quando tu já estás cá (na Suíça) e na verdade, agora confirmo que sim, que as pessoas confiam mais em ti se já tiveres um stamp, já foste aprovado por outro sítio também cá na Suíça. Nós confiamos mais em nós do que no estrangeiro, o que é válido. Eles são um bocado elitistas nesse aspeto. Sabendo isso, sabes que tens de entrar de alguma forma e é muito mais fácil entrar como estudante do que como trabalhador.
[Marta Filipe]: OK, obrigada. E voltando agora aqui um bocadinho atrás, antes de teres iniciado o teu mestrado, trabalhaste na Neyond, onde estiveste envolvida na automatização de processos através de soluções de software e robôs. O que te levou a aceitar este desafio e que competências desta experiência continuas a aplicar hoje em dia?
[Inês Salema]: Portanto, eu aí saí um bocado da minha área de engenharia biomédica e eu sabia que estava a sair da minha área quando aceitei esse desafio e não me arrependo nada, porque eu acho que o primeiro emprego não é sobre teres o teu emprego de sonho. Acho que é sobre teres o teu primeiro emprego. É super difícil de arranjar, é super difícil teres um empregador que olhando para ti, que não sabe nada sobre ti, te dá esse voto de confiança e eu sou muito grata a esse sítio por me ter dado esse voto de confiança , e fiz amigos incríveis, aprendi imenso. Estava numa empresa super bem estruturada, onde hoje em dia é um tipo de empresa que eu tenho como referência de como se faz bom trabalho, como é que uma equipa é bem estruturada, como é que te dão bom feedback, ajudam-te no momento que é suposto ajudar. Então acho que levo para a vida primeiro uma boa referência de como é que é bom trabalho, porque, de facto, às vezes essas empresas mais tipo consultoria são muito mais organizadas do que uma startup, sem querer ser má para uma startup: estou meio que numa startup agora mesmo e gosto imenso, mas tenho de reconhecer que essas empresas maiores e mais organizadas dão-te uma referência para como é que as coisas são para funcionarem bem, no mau caso e no bom caso. Depois também levo comigo uma primeira experiência profissional, onde tu estás a aprender imensas coisas sobre interações profissionais com o teu chefe e tudo mais. E é bom também tirares pressão de cima de ti: sabendo que não era o meu sítio de sonho e onde eu queria ficar para sempre, tira pressão do género “eu estou aqui a aprender e não quero estar frustrada a toda a hora sobre querer ter a melhor performance do mundo”. Não, é o teu primeiro emprego, vais ter uma performance muito inferior aos teus colegas e é importante estares num sítio onde te apoiam nesse nesse início. E eu acho que é isso que eu levo da Neyond.
[Gonçalo Coelho]: Depois de teres assistido a essa experiência, passaste pela AstraZeneca, onde colaboraste em projetos ligados ao diagnóstico de oncologia, e aqui já foi mais ligado à área de engenharia biomédica. Como é que foi trabalhar numa área tão próxima da medicina personalizada e o que é que tiras desta experiência?
[Inês Salema]: Sim, eu gostei muito de trabalhar na AstraZeneca. Foi incrível estar num ambiente assim de grande farmacêutica. Foi mesmo do género, meu Deus, eu desde que sou pequena, sonho em trabalhar num sítio assim, e foi muito bom para entender como é que funcionam estas organizações massivas, porque a consultoria onde eu estava era uma empresa pequena portuguesa. Agora estava numa multinacional gigante. Acho que foi super positivo para eu entender como é que funciona a área de oncologia em Portugal, que apesar de saberes como é que funciona, tu vês as nuances pequenas de como é que ela funciona e aprendes imenso sobre o equilíbrio que tem de fazer uma farmacêutica entre tentar fazer resultar um produto e tentar fazer resultar a sua marca, mas também tentar fazer o melhor para os doentes, que é um equilíbrio super difícil e que tem que se adaptar a cada mercado e a cada país. Então eu acho que aprendi imenso sobre o que é que é saúde em Portugal. E claro que é transposto para qualquer tipo de área, mas foi muito eye-opener de como é que as coisas funcionam no mundo real, sem ser no papel que nós aprendemos na faculdade.
[Marta Filipe]: Então, como temos visto aqui hoje, tu já passaste por consultoria em IT, a área de farmacêutica e oncologia e agora estás na parte de mais dispositivos médicos para cirurgia, e isto são áreas bastante diversas na engenharia biomédica. Então, o que nós queríamos perceber era o que é que aprendeste com esta diversidade de experiências?
[Inês Salema]: Exato. Portanto, eu acho que sempre fui uma pessoa que gostava de tudo. Eu tinha uma cadeira de uma cena e dizia: “Oh meu Deus, é isso que eu quero fazer para o resto da minha vida”, depois uma cadeira nada a ver e eu, afinal é isto. Então é, eu gostava de tudo. E há um momento em que é do género, giro, mas mesmo no teu CV e tudo mais, as pessoas gostam de ver algum tipo de consistência. Não é tipo estás all over the place, aceitas qualquer coisa. Então disse: no meu mestrado quero-me focar finalmente. E foquei-me em termos de cadeiras em robótica para cirurgia, em termos de projetos, em termos de professores com quem eu me relacionava e eu disse mesmo: o que eu quero fazer da vida é robótica para cirurgia. E disse isso quando saí do mestrado e eu acho que a escolha foi um pouco parcialmente porque eu, como gostava de tudo, achava que robótica para cirurgia era aquilo que conseguia unir mais áreas possíveis do mundo, porque tens a mecânica, tens a eletrónica, tens o software, tens a imagem médica, tens o doente, tens a gestão clínica de hospital, portanto tinha um bocado de tudo o que eu gostava. E quando tu fazes robótica para cirurgia, tu podes-te virar para qualquer um destes pontos. Como é que isso vai ser melhor integrado num hospital? Como é que a imagem médica vai sempre estar presente? A eletrónica, software, etc. Achei sempre que era uma área super holística e por causa disso foi a que eu escolhi. E só foi possível porque eu passei por várias áreas e consegui descobrir o que é que eu gostava ou não. Portanto, eu aconselho super a experimentarem o que puderem durante a licenciatura. Mas eu acho que há um ponto que se tem de se especializar minimamente, porque senão não sabes nada de nada ou sabes um pouco de tudo, mas tem de haver um momento em que sabes bastante de algo. E esse momento parece-me ser um bom momento, no mestrado.
[Gonçalo Coelho]: Durante o mestrado, também participaste na competição SensUs e foste co-capitã de uma equipa. Primeiro queria que nos explicasses um bocadinho, no que é que consiste a competição e o desafio em si daquele ano, e como é que foi liderar uma equipa num contexto internacional, e já agora também como é que foi estar na competição enquanto tinhas os estudos do mestrado e como é que te organizaste.
[Inês Salema]: Sim, portanto, a Sensus é uma competição que acontece todos os anos em Eindhoven, organizado pela Universidade de Eindhoven, que é uma competição para se fazer um biossensor qualquer. Todos os anos há um biomarcador novo que eles querem fazer um sensor e o ano em que eu fui era para fazer um para a creatinina, com a adição de que não era só um biossensor, mas tinha de ser contínuo, ou seja, tu não podias lavar entre amostras e tinhas de conseguir medir amostras diferentes sem as lavar. Enfim, não quero entrar em detalhes técnicos, mas acrescentaram um novo nível à competição que não era só medir amostras, mas medir amostras de forma contínua. Isto é um desafio muito grande porque eles dão-te um desafio que não está resolvido ainda. Não existe este sensor no mercado e dão a um monte de estudantes por aí: vamos ver se vocês sabem fazer este sensor. Até hoje eu acho que provavelmente foi dos maiores desafios que eu fiz a nível profissional, de longe. Claro que agora mesmo no meu trabalho, sinto que é um desafio enorme, mas tu neste tipo de competições de estudantes estás completamente tu e a tua equipa e não há ninguém que perceba minimamente do assunto. Portanto, eu achei que foi um desafio enorme, especialmente pelo contexto internacional, porque eu era a única portuguesa na equipa de Barcelona, em que a equipa de Barcelona eram só catalães. E eu estou a dizer catalães em específico e não espanhóis, porque eu falava espanhol, perfeito, estou lá. Agora eu não falava catalão, e eles preferem falar catalão. Eu estava a liderar a equipa, como tu disseste, e mesmo assim não falava a língua que eles gostavam de falar, então era uma logística muito difícil a nível social em que eu estava “podemos falar um segundo em espanhol ou inglês?”. Foi muito desafiante esse contexto de: eu sou estrangeira neste país e pus-me neste desafio em que só há pessoas daqui, e depois foi super desafiante porque não é a minha área, os biossensores, mas eu gostei do desafio, achei interessante. E até hoje acho que foi super benéfico, porque pela primeira vez eu fui para um wet lab que era uma cena que eu não estava a fazer no mestrado, tal como eu disse, fui mais para a área da robótica, então eu quase que me tinha esquecido o que é que era estar num wet lab e de repente tive de voltar a dar rewire no meu cérebro sobre essas tipo de skills que também se aprende, e soube super bem ter completamente liberdade para inventar uma coisa. Nós tínhamos de inventar uma tecnologia para medir este biomarcador. E tens completamente liberdade dentro das regras da competição. Portanto, eu até hoje acho que foi das melhores experiências que fiz. Aconselho imenso. Eu acho que a Universidade de Lisboa houve um ano que participou, não no ano em que eu participei, mas eu sei que já participou, a Universidade de Lisboa, a Universidade de Ciências, e eu aconselho imenso. Se na vossa faculdade não fazem esta competição, vocês podem falar com um professor e dizer “olhem, existe esta competição”. Vocês precisam sempre de ter um professor como referência. Ele não vos vai ajudar porque não é suposto. É suposto vocês fazerem o projeto sozinho, mas aconselho imenso, eu acho que em Portugal não se sabe muito disto e devia-se espalhar a palavra que é: os alunos podem tomar a iniciativa para ter estas cenas nas faculdades deles. No nosso caso foi uma aluna de PhD que tomou a iniciativa e disse “vá bora miúdos, vamos fazer isto” e nós dissemos que sim. Eu acho que também pode ser ao contrário, vocês podem tentar arranjar um professor ou um laboratório que queira tomar essa iniciativa com vocês e pode ser incrível. Vocês vão aprender imenso. Vocês têm de encontrar patrocinadores, no final do dia, podem ficar amigos dos patrocinadores que têm empresas bacanas que vocês um dia podem ir para lá, é toda uma cena que vos vai dar imensos connects e imensa confiança. E eu acho que em Portugal não é feito, então estou a aproveitar este momento para fazer patrocínio a esta competição, que também acho que está super bem organizada pela Universidade de Eindhoven. Vão a Eindhoven, conhecem um montão de empresas, têm hipótese de fazer pitch one-on-one a empresas que vocês podem estar super interessados, conhecer pessoas, ter feedback do vosso currículo, é uma competição super super bacana. Portanto, aconselho imenso, e no final do dia não ficámos assim tão mal qualificados. Acho que ficámos em sexto de vinte, dado que as primeiras equipas eram do US e da China, completamente incomparável. Ficámos super satisfeitos com o resultado, portanto, sim, aconselho muito e acho que devia-se dinamizar isto em Portugal.
[Marta Filipe]: Obrigada por esta partilha. De facto, também não conhecia este evento e acho que é realmente bastante interessante. E agora virando um pouco mais para a parte atual, também já foi mencionado aqui brevemente, mas atualmente trabalhas na CASCINATION, nomeadamente no desenvolvimento de tecnologias para cirurgia assistida por imagem. Como é que é trabalhar fazendo a ponte entre engenharia, imagem médica e cirurgia?
[Inês Salema]: Ou seja, eu acho que é mesmo o sonho. Como engenheira biomédica, para mim é o sonho, porque é mesmo isso, eu gosto sempre de fazer a ponte, porque eu sou um bocado, eu fico um bocado aborrecida, se eu estiver a trabalhar numa tarefa super específica, minúscula, dentro de uma empresa enorme, mas eu acho que a CASCINATION tem um tamanho da empresa bacano, somos cem, ou seja, tem uma certa dimensão, mas ainda assim é pequena o suficiente para tu teres a liberdade de fazeres um bocado o que te apetece. Então eu sou capaz de ir a uma cirurgia, por exemplo, às terças no hospital aqui em Bern, fazem a cirurgia com o nosso robô. Eu posso ir lá e eu vejo a cirurgia, não ajudo o médico porque não é a minha competência. Há pessoas na empresa a fazer isso. Mas eu posso ir lá, posso ver a cirurgia, posso tirar ideias e depois digo ao meu chefe “olha, eu vi isto e isto na cirurgia”, e como eu estou na equipa de software, então posso-lhes dizer “podemos fazer isto e isto” e muitas vezes ele aceita porque é uma empresa pequena. Eu aconselho imenso a entrarem numa pequena a média empresa, porque se vocês estiverem numa Roche, numa empresa gigante, provavelmente vocês vão ter de fazer a tarefa que vos estão a dar porque as coisas estão organizadas. Pronto, as empresas pequenas têm a desvantagem que eu já disse há bocado que é, às vezes é um bocado all over the place, é um bocado louco e vocês têm de se organizar vocês porque ninguém vos vai organizar por vocês as coisas, mas se vocês tiverem essa independência, dá-vos uma liberdade gigante para fazerem esse tipo de coisas. Eu amo fazer a ponte entre um bocado de tudo em que não me canso porque não estou sempre no hospital, mas também não me canso porque não estou sempre no escritório e é super divertido fazer um bocado de tudo e é super giro também ir a um hospital e tu veres “meu Deus, a engenharia biomédica funciona”. Não é só o que nós aprendemos os livros. Há robôs para cirurgia e eles são usados. É chocante. Não é só o da Vinci, existem mais, portanto foi giro.
[Gonçalo Coelho]: É, isso é mesmo muito interessante, teres essa oportunidade de ver cirurgias e ver o teu trabalho a ser usado, não é? E agora a próxima pergunta ia passar um bocado mais para a tua vida pessoal. Tu viveste e trabalhaste em vários países e então a pergunta é, como foi adaptares-te a diferentes culturas de trabalho e que conselho darias a quem vai fazer uma experiência semelhante?
[Inês Salema]: Certo, é uma boa pergunta porque às vezes sofres muito. O que eu costumo dizer à minha família e aos meus amigos quando estou fora é “os dias bons são super, super bons, porque estás a viver a tua vida de sonho: Oh meu Deus, sempre sonhei em estar fora a fazer isto e isto”, então estás mesmo super feliz, mas os dias maus são super maus porque é do género: eu só quero a minha mãe, e a minha mãe não está cá, portanto é um bocado mais extremo e vocês têm de saber ter pontos seguros em cada sítio e é importante também não te desconectares totalmente de casa. Mas eu acho que, por exemplo, em Espanha, a coisa mais importante que tive de fazer foi aprender a língua, e a partir do momento que aprendes a língua está feito. Isto porque os espanhóis são super parecidos connosco e são super divertidos e abertos e acolheram-me super bem. A partir do momento que eu soube espanhol, eu estava super na comunidade espanhola, só tinha amigos espanhóis, já não estava naquela comunidade de Erasmus bué à parte do mundo, em que não há nenhum espanhol. O primeiro semestre foi um bocado mais assim isolado, mas o segundo semestre eu senti que já estava completamente full on a dominar a língua e basta isso em Espanha e tu vais estar bem. Já na Suíça não. Primeiro, porque a língua, claro que é importante e claro que estamos aqui a tentar aprender alemão, mas pronto não é garantido que vá dar frutos. E claro que na Suíça também há 4 línguas oficiais, então não é estranho se tu não falares a língua, porque às vezes há um suíço que não fala alemão, portanto também não acham estranho eu não falar a língua, nem quer dizer que nem seja da Suíça, só quer dizer que não sei alemão e então pronto aqui sinto que a língua é menos um fator. Contudo, acho que o fator social aqui é mesmo gritante, ou seja, depende do sítio. Já tive 2 experiências aqui em 2 sítios diferentes, foi diferente de facto, mas em nenhum dos sítios digo que tenho a mesma relação com o meu chefe que tive com os meus chefes em Portugal, em que com os meus chefes em Portugal eu era super chegada, tínhamos uma relação super divertida e super informal, em que dizíamos coisas da vida pessoal e isso e aquilo e mostrávamos fotos do fim de semana, e aqui é bué “bom dia”, não é que não gostem de nós ou que não estejam bem, é só “bom dia, vou trabalhar” e “tchau, acabei de trabalhar” e, pode haver uma festa ou 2 bacano, e vão se vão se dar bem e falam, e está sempre tudo bem, é só uma cultura diferente em que não estamos a brincar no trabalho. Não é que em Portugal estejamos a brincar, é as pessoas confundem, acho eu, produtividade e aquela relação mais próxima. É só o que é e é só lembrares-te que não é sobre ti, que tu não és o problema, e que estás numa cultura nova, e tal como tu não te adaptas aos estrangeiros em Portugal, eles também não te estão a adaptar imenso a ti porque nem tudo é à volta de ti. É do género, tu é que és o outlier aqui, tu é que vais ter que te adaptar, portanto é um constante: eu não sou o problema, eu só me tenho de adaptar e eles são assim, eles são assim e acabou, mas sim. É complicado.
[Marta Filipe]: Obrigada. Tem sido uma conversa bastante interessante. Temos só mais uma pergunta final, mais uma nota geral. Se este episódio for ouvido por um estudante que está agora a decidir o seu futuro, que mensagem é que gostarias que ele levasse da tua história? Tudo o que tens nos contado aqui hoje, o que é que achas que é o mais importante?
[Inês Salema]: Exato, muito filosófica a pergunta. Portanto, eu acho que a parte mais importante, sobretudo, é tu conheces o teu percurso melhor do que qualquer pessoa, tu conheces-te a ti melhor do que qualquer pessoa. Eu ao longo do meu percurso tive imensas opiniões, imensas opiniões externas. “Oh meu Deus, não vais fazer um mestrado já, vais trabalhar um ano, nunca mais vais tirar o mestrado, vais começar a ganhar dinheiro e não vais querer tirar o mestrado, a tua carreira acabou aqui”. Uma pessoa super importante para mim a nível académico, um professor da minha faculdade, disse-me isto. Claro que estas coisas te marcam e tu ficas: Wow, e se eu nunca mais tirar o mestrado? Mas eu tive de me conhecer a mim própria o suficiente para saber: eu acho que preciso de trabalhar, porque eu acho que não posso ser mestre de uma coisa sem nunca ter trabalhado. Eu acho que faz sentido eu trabalhar, ganhar dinheiro, porque eu quero ir para fora depois, só tu é que sabes os planos da tua vida, então às vezes vais ter de engolir a seco e dizer “Tens razão” e mais tarde vais ter que ter a paciência para mostrar às pessoas que o que tu fizeste dá frutos e que só tu é que tu conheces o teu caminho. Também quando escolhi para fazer mestrado para Espanha, imensa gente me julgou: “não vais para uma universidade dessas privilegiadas no Norte da Europa?”. Eu quero ir para Espanha, eu acho que faz sentido para mim ir para Espanha, porque para mim o mais importante no final do dia é estar feliz. E eu acho que se eu não estiver feliz, não consigo estudar e eu acho que se eu não estiver feliz, não consigo ter o tempo e a liberdade mental para fazer as coisas que no final do dia são importantes para a tua carreira. E a verdade é que por ter estado em Espanha e por estar divertida e estar feliz, fui capaz de aceitar um desafio extra que foi essa competição que me deu imenso. Se calhar se eu estivesse numa faculdade super difícil no Norte da Europa, eu só conseguia estar a estudar, estudar, estudar, e não teria esta flexibilidade mental. São coisas que tu não sabes, mas são coisas que a minha intuição me dizia: acho que devias ir para Barcelona, tu queres imenso viver em Barcelona, vai só, é um ano, não define a tua vida toda. E assim foi, mas quando vim para a Suíça também me disseram “Ai vais gastar imenso dinheiro. É impossível arranjar um trabalho na Suíça. Meu Deus, vais 6 meses e vens embora.”. As pessoas vão-te dizer uma série de coisas, e tu vais ter de engolir a seco, dizeres que têm razão, porque na verdade estão a dizer coisas que estatisticamente são verdade, mas só tu é que sabes se faz sentido para ti ou não. E sobre isso é só esperar e ver se as coisas dão fruto ou não. E depois, no final, se derem fruto, sabe muito bem dizer às pessoas,”Olha, quem é que tinha razão?” Eu, porque eu é que me conheço. Portanto, acho que é um bocado sobre isso. É super bom falares com pessoas, mas no final do dia ouve o que a tua intuição diz, porque tu conheces-te melhor do que qualquer pessoa.
[Gonçalo Coelho]: Bem, obrigado por esta mensagem final e por todas as partilhas. Eu gostei imenso da conversa, acredito que a Marta também e espero que quem nos esteja a ouvir também, e muito obrigado.
[Inês Salema]: Obrigada eu e continuem com as boas iniciativas porque acho que eu, quando estaria na vossa idade, também gostava de ter ideias e faz super bem ouvir todo o tipo de experiências para nos inspirarmos. E eu acho que a ANEEB faz um trabalho incrível e continuem assim.
[Marta Filipe]: Obrigada. Foi mesmo um gosto ter-te aqui connosco. Desejamos-te também o meu melhor sucesso para o futuro e obrigada. Foi mais um episódio de Biomédicos pelo Mundo.
[Inês Salema]: Obrigada.
