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Entrevista a Filipa Castro

Entrevista a Filipa Castro

Filipa Castro

Mestre em Engenharia Biomédica formada pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP)

A ANEEB teve o prazer de entrevistar a Filipa Castro, Mestre em Engenharia Biomédica formada pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). A Filipa contou-nos acerca das experiências formativas e profissionais que viveu no Reino Unido, em 2017 (Center for Computational Imaging & Simulation Technologies in Biomedicine), e na Holanda, em 2018 (Technische Universiteit Delft).

[Entrevistadora] ‚Äď Telma Esteves (ANEEB)

[Entrevistada] ‚Äď Filipa Castro

 

Vê aqui a Entrevista completa!

[Entrevistadora] ‚Äď Boa tarde Filipa! Fala-nos sobre ti, ap√≥s a tua entrada na FEUP, como e quando decidiste ter n√£o s√≥ uma, mas duas, experi√™ncias ‚Äúl√° fora‚ÄĚ?

[Entrevistada] ‚Äď Quando entrei para Bioengenharia, logo no primeiro ano, e ao contr√°rio do que previamente tinha idealizado, decidi que o ramo em que iria enveredar seria o de Engenharia Biom√©dica [obs.: na FEUP os estudantes do Mestrado Integrado em Bioengenharia escolhem, no 3¬ļ ano, o seu ramo de especializa√ß√£o, sendo um dos quais ‚ÄėEngenharia Biom√©dica‚Äô]. Ap√≥s a escolha do ramo, o meu 3¬ļ ano coincidiu com o lecionamento de unidades curriculares introdut√≥rias √† programa√ß√£o, √† an√°lise de imagem e ao machine learning, e ao t√™-las reparei que seria por a√≠ que gostaria de enveredar no futuro. As experi√™ncias internacionais surgiram pouco depois, dado que os segundos semestres do 4¬ļ e do 5¬ļ ano do mestrado integrado, na FEUP, s√£o os semestres indicados para as experi√™ncias de Erasmus, e eu nunca tive grandes d√ļvidas de que queria fazer pelo menos uma, uma vez que sempre tive amigos mais velhos que mo recomendaram, e mesmo os meus pais tamb√©m. Pessoalmente, sempre achei tamb√©m que fosse uma boa experi√™ncia para alargar horizontes e que, simultaneamente, passar 5 anos na mesma institui√ß√£o de ensino superior pudesse ser limitador. Desta forma, decidi que o m√°ximo que eu pudesse fazer fora, devia aproveitar. Regra geral, n√≥s podemos fazer 12 meses no estrangeiro ao abrigo do programa Erasmus e eu decidi ent√£o gastar 5 desses meses no 4¬ļ ano num est√°gio, e outros 5 no 5¬ļ, para concretiza√ß√£o de tese.

[Entrevistadora] ‚Äď Para onde foste nessa primeira experi√™ncia em est√°gio e porque escolheste esse s√≠tio?

[Entrevistada] ‚Äď No 4¬ļ ano fui ent√£o para um centro de investiga√ß√£o ligado √† simula√ß√£o biom√©dica (CISTIB) em Sheffield, no Reino Unido. Tinha algum receio de ir para um s√≠tio completamente novo para onde ningu√©m tivesse ido previamente por isso escolhi este s√≠tio com base em colegas que para l√° j√° tinham ido, acabando por fazer um est√°gio nos mesmos moldes e com o mesmo professor orientador.

[Entrevistadora] ‚Äď No mesmo semestre em que realizaste o est√°gio, podias ter optado por completar unidades curriculares, tamb√©m em Erasmus. Porque decidiste desta forma?

[Entrevistada] ‚Äď Bioengenharia na FEUP deixa-nos, em vez de fazer cadeiras em Erasmus, fazer um est√°gio cujos cr√©ditos lhes equivalem. Isto acaba por nos dar muita liberdade, uma vez que, quando se trata de completar unidades curriculares, apenas algumas institui√ß√Ķes de ensino superior t√™m uma oferta formativa que nos concebe equival√™ncias. Pelo contr√°rio, ao irmos em est√°gio,a flexibilidade √© muito maior. N√£o temos sequer protocolos pr√©-estipulados. Assim, os docentes dizem-nos para contactarmos com as entidades (institutos/empresas) que quisermos, e se estas¬† porventura nos aceitarem durante um semestre, o protocolo √© estabelecido de forma a atribuir-nos as equival√™ncias necess√°rias. Normalmente √© relativamente f√°cil que as entidades aceitem a nossa proposta porque, estando a usufruir da bolsa de Erasmus, a maior parte dos alunos acaba por n√£o exigir uma remunera√ß√£o durante o est√°gio.

[Entrevistadora] ‚Äď E em que consistia o teu trabalho no centro de investiga√ß√£o?

[Entrevistada] ‚Äď Consistia em prever, tomando em considera√ß√£o um determinado fluxo de sangue e a forma de um aneurisma, a probabilidade de este rebentar num determinado momento e com uma determinada press√£o. Simulava esta situa√ß√£o para v√°rias velocidades, formatos e localiza√ß√Ķes do aneurisma na rede sangu√≠nea. O objetivo final do projeto de doutoramento em que o meu est√°gio estava integrado era auxiliar na decis√£o m√©dica de operar ou n√£o um paciente com um aneurisma, com base na probabilidade de este poder rebentar no futuro.

[Entrevistadora] ‚Äď J√° alguma vez tinhas feito algum trabalho do mesmo g√©nero?

[Entrevistada] ‚Äď O trabalho que eu fiz em Sheffield foi muito ligado √† simula√ß√£o biom√©dica, que no meu caso era algo completamente diferente do que tinha feito ao longo do curso. Considero a experi√™ncia de desbravar terrenos que n√£o tenhamos explorado previamente muito importante, e foi tamb√©m interessante comprovar que a Engenharia Biom√©dica √© muito caracterizada por incorporar backgrounds de muitas √°reas. No est√°gio apliquei conhecimentos de v√°rias unidades curriculares que j√° tinha tido, desde mec√Ęnica dos flu√≠dos, a programa√ß√£o (para fazer as simula√ß√Ķes utilizei python e foi a primeira vez que o usei), conhecimentos de anatomia e at√© de biomateriais. Foi engra√ßado este cruzamento de √°reas que, no fundo, acho que √© o que melhor carateriza um engenheiro biom√©dico.

[Entrevistadora] ‚Äď E relativamente √† tese, porque decidiste que tamb√©m a querias realizar ao abrigo do programa Erasmus Est√°gio?

[Entrevistada] ‚Äď Como gostei da experi√™ncia em Sheffield decidi, ainda l√°, que ia voltar a fazer Erasmus para a tese. Muita gente gosta tanto do s√≠tio onde estagiou que at√© opta por fazer a tese no mesmo s√≠tio, no entanto esse n√£o foi o meu caso, queria ir para um s√≠tio diferente.

[Entrevistadora] ‚Äď Gostaria que nos falasses acerca do teu processo de pesquisa, contacto e sele√ß√£o do tema de tese e do instituto. Primeiramente, como direcionaste a pesquisa de oportunidades?

[Entrevistada] ‚Äď Ao longo do curso gostei muito das √°reas de machine learning e intelig√™ncia artificial, no entanto, como s√≥ tive duas ou tr√™s unidades curriculares relacionadas, acabei por n√£o aprofundar muitos conhecimentos. Isto fez-me ver a tese quase como uma ‚Äú√ļltima oportunidade‚ÄĚ na academia para estar um semestre a aprender coisas novas nestas √°reas, que eu achava que me iam dar jeito para o que eu queria fazer no mercado de trabalho. Outra coisa que me direcionou na procura foi o tipo de projetos de machine learning. Na faculdade estes incidiam sempre em problemas m√©dicos, por exemplo, na dete√ß√£o de n√≥dulos numa radiografia. Por esse motivo, na tese, queria fazer algo diferente, numa √°rea que me interessa: desporto. Ao fim e ao cabo, sabia ent√£o que queria fazer a tese em machine learning, nomeadamente em deep learning (porque era uma √°rea emergente naquele momento e que eu sabia que ia fazer parte do futuro), e em desporto, uma vez que gosto muito de desporto e nunca tinha trabalhado num dom√≠nio semelhante. Foi assim que comecei a procurar, com muito tempo de anteced√™ncia (cerca de um ano), um tema de tese que conseguisse, ou tentasse, juntar estas duas √°reas de interesse.

[Entrevistadora] ‚Äď Ap√≥s esta pesquisa, como procedeste aos contactos com as institui√ß√Ķes/empresas que te despertaram interesse?

[Entrevistada] ‚Äď Contactei as entidades via email tendo iniciado estes contactos ainda quando estava em Sheffield. Enviei imensos emails. Nunca os somei mas totalizaram certamente perto de 100 mensagens.

[Entrevistadora] ‚Äď E eis que come√ßaram a chegar respostas. Como foi a sele√ß√£o a partir deste ponto?

[Entrevistada] ‚Äď As duas principais respostas afirmativas que tive foram uma novamente no Reino Unido, embora numa universidade diferente; e uma em Delft, num instituto especificamente dedicado ao desporto. Postas estas hip√≥teses acabei por preferir a oportunidade em Delft, por ser tamb√©m uma universidade muito conceituada em termos de engenharia, e por me dar oportunidade de conhecer uma nova cultura.

[Entrevistadora] ‚Äď Aceite a oportunidade, como correram as coisas?

[Entrevistada] ‚Äď Ap√≥s escolher a oportunidade em Delft falei ainda, tamb√©m com bastante anteced√™ncia, com um professor da institui√ß√£o que queria certificar-se de que eu possu√≠a os conhecimentos b√°sicos para desenvolver uma tese na √°rea de machine learning e desporto. Relativamente ao projeto considero que tive bastante sorte pois, exatamente no momento do meu contacto, a equipa de investiga√ß√£o encontrava-se a planear come√ßar um projeto em t√©nis, que √© o meu desporto de elei√ß√£o. A calendariza√ß√£o do projeto assentava numa recolha de dados durante o primeiro semestre (em que ainda me encontraria na FEUP), e no semestre seguinte iria ent√£o desenvolver a minha tese usando essa base de dados de jogos de t√©nis para reconhecer automaticamente os movimentos dos jogadores, isto √©, reconhecer quando um jogador est√° a realizar um servi√ßo, por exemplo. Todo este trabalho estaria enquadrado no objetivo de otimizar a an√°lise desportiva no t√©nis. Efetivamente, o que se verificou foi que ao longo do primeiro semestre desse ano a equipa n√£o conseguiu terminar a recolha e prepara√ß√£o da base de dados, pelo que no segundo semestre eu acabei por continuar at√© mais essa fase do projeto do que trabalhar em machine learning. Ainda assim foi uma experi√™ncia interessante.

[Entrevistadora] ‚Äď Relembrando novamente a tua experi√™ncia de est√°gio, como a compararias com a tua experi√™ncia de tese?

[Entrevistada] ‚Äď Gostei mais de Delft do que de Sheffield, mas provavelmente esta prefer√™ncia deve-se √† cultura dos holandeses. Para ambas as situa√ß√Ķes, fui acompanhada de uma colega minha da FEUP, e em ambas morei com pessoas naturais do pa√≠s de destino, experi√™ncia que aconselho. Antes destas experi√™ncias ouvia falar em ‚Äúchoque de culturas‚ÄĚ e achava que era uma coisa do passado e que agora com a internet j√° todos sab√≠amos tudo sobre todos. Nesta conviv√™ncia em casa acabei por perceber que afinal n√£o, mas acredito que √© tamb√©m assim que conhecemos a cultura de um pa√≠s.

[Entrevistadora] ‚Äď Ao n√≠vel da tua adapta√ß√£o √† Inglaterra e √† Holanda, particularmente quanto ao alojamento, sentiste maior dificuldade em qual? Tiveste apoio?

[Entrevistada] ‚Äď A adapta√ß√£o nas duas experi√™ncias foi muito semelhante porque j√° tinha arranjado alojamento online autonomamente, pelo que quando cheguei ao pa√≠s de destino j√° tinha tudo tratado, sem qualquer interven√ß√£o dos institutos onde fiz est√°gio e tese. Este mercado em Inglaterra acaba por ser mais acess√≠vel porque l√°, normalmente, os contratos s√£o formais e feitos por interm√©dio de uma ag√™ncia, havendo tamb√©m mais oferta porque Sheffield √© uma cidade muito universit√°ria. J√° em Delft h√° muito mais procura do que oferta o que tornou a pesquisa mais dif√≠cil, mas ainda assim conseguimos lugar numa resid√™ncia que iria abrir portas no nosso m√™s de chegada ao pa√≠s. Esta resid√™ncia constitu√≠a um projeto social com o objetivo de alojar estudantes, idosos e ex-sem-abrigos, promovendo o conv√≠vio entre estes grupos. Na primeira semana todos os estudantes at√© ajudaram a dispor a mob√≠lia na sala, o que foi bastante interessante.

[Entrevistadora] ‚Äď E quanto √†s condi√ß√Ķes meteorol√≥gicas?

[Entrevistada] ‚Äď O frio foi igualmente custoso nos dois casos. No Reino Unido custou-me mais em termos de boa disposi√ß√£o, dado que o tempo √© sempre muito cinzento. N√£o achei que chovesse assim tanto, mas tamb√©m nunca havia um dia inteiro de sol e isso, parecendo que n√£o, mexe com uma pessoa que est√° habituada √† meteorologia de Portugal.

[Entrevistadora] ‚Äď Relativamente ao estilo de vida e alimenta√ß√£o‚Ķ

[Entrevistada] ‚Äď Na Holanda adorei o facto de n√£o precisar de transportes para quase nada, diariamente desloquei-me sempre de bicicleta. Senti tamb√©m que a Holanda era um pa√≠s muito mais limpo e com uma alimenta√ß√£o muito mais saud√°vel face ao Reino Unido. Ao ir ao supermercado na Holanda via peixe, carne e vegetais muito bem apresentados, enquanto no Reino Unido o que est√° a atrair mais o cliente, quer em termos de exposi√ß√£o como de pre√ßo, s√£o os chocolates e as batatas fritas, sendo a fruta, carne e peixe de boa qualidade mais dif√≠ceis de encontrar. No Reino Unido at√© mesmo nos restaurantes tornava-se mais dif√≠cil encontrar um espa√ßo com uma alimenta√ß√£o parecida com a nossa, na Holanda tal era mais f√°cil.

[Entrevistadora] ‚Äď E a n√≠vel social?

[Entrevistada] ‚Äď Em termos de ambienta√ß√£o social, em Sheffield n√£o havia Erasmus Student Network (ESN), e em Delft, mesmo sendo uma cidade muito pequena, existia ESN e isso fez toda a diferen√ßa. No Reino Unido acabava por conviver basicamente com pessoas s√≥ do laborat√≥rio, que eram quase todas mais velhas do que eu, apesar de uma vez por m√™s termos jantares de portugueses, o que ajudou. J√° na Holanda, pela ESN conheci muitas pessoas de outros pa√≠ses e na primeira semana cri√°mos logo um grupo de amigos que nos acompanhou at√© ao fim da experi√™ncia. Relativamente ao contacto com os meus colegas de casa, no Reino Unido tinha 7 ingleses a viver comigo, no entanto eram pessoas mais fechadas, tinham o h√°bito de comer sempre no quarto, por exemplo. J√° na Holanda as pessoas eram mais abertas e interessadas em saber sobre o nosso pa√≠s e os nossos h√°bitos. Em ambos os casos, s√£o todos muito mais desarrumados do que n√≥s! [risos]

[Entrevistadora] ‚Äď Sentiste alguma diferen√ßa face √†s institui√ß√Ķes de ensino superior?

[Entrevistada] ‚Äď Em Delft era absolutamente vis√≠vel que a universidade tinha muitos mais fundos e recursos do que as nossas em Portugal e, nesse sentido, penso que me fez bem perceber que, apesar de Portugal ter um ensino superior de grande qualidade, h√° tamb√©m oportunidades muito boas de aprender l√° fora.

[Entrevistadora] ‚Äď Tradicionalmente existe muita burocracia subjacente a uma experi√™ncia de Erasmus. Tiveste dificuldades a este n√≠vel?

[Entrevistada] ‚Äď Eu nunca tive propriamente dificuldades e as outras pessoas que conhe√ßo tamb√©m n√£o. Claro que sempre nos aconselh√°mos muito junto de colegas que j√° tinham ido. Os nossos dois contactos essenciais eram a Coordenadora de Erasmus de Engenharia Biom√©dica, e o Departamento de Coopera√ß√£o da FEUP. O Departamento de Coopera√ß√£o articulava com a reitoria da Universidade do Porto, que era quem tratava da bolsa, dando-nos apenas datas limite para entregarmos documentos como a proposta de est√°gio (com instituto/empresa, descri√ß√£o, objetivos, tarefas, e per√≠odo temporal). Isto implicava que n√≥s contact√°ssemos previamente a entidade, ela aceitasse e fizesse a proposta, e a nossa coordenadora validasse tecnicamente a proposta at√© √† data limite estabelecida pelo departamento. Estando tudo entregue o departamento avisar-nos-ia posteriormente do dia em que tiv√©ssemos de ir assinar e receber a bolsa Erasmus. A comunica√ß√£o fluiu sempre bem c√° em Portugal, no Reino Unido tamb√©m foi super f√°cil porque o professor orientador do meu est√°gio j√° tinha feito isto, e na Holanda o professor respons√°vel era muito descontra√≠do, o que tamb√©m ajudou. A Coordena√ß√£o de Engenharia Biom√©dica da FEUP foi exemplar, nunca me tendo apresentado problemas e dando-nos sempre muita liberdade. Houve um ano em que correu um rumor de que n√£o iria haver bolsa para todos, mas depois toda a gente a teve e ningu√©m da FEUP, que eu saiba, foi alguma vez impedido de ir para fora por burocracia.

[Entrevistadora] ‚Äď Agora est√°s a trabalhar. No teu crescimento a n√≠vel profissional e pessoal o que √© que te ensinaram estas duas experi√™ncias?

[Entrevistada] ‚Äď Primeiramente fiquei muito mais √† vontade a falar ingl√™s e a apresentar em ingl√™s. De holand√™s aprendi apenas algumas palavras. N√£o acredito que apenas o facto de uma pessoa ter ido para o estrangeiro signifique que ela ganhou mais ‚Äúbagagem‚ÄĚ, no entanto tenho a certeza de que para uma empresa essa experi√™ncia confere um destaque positivo, independentemente da pessoa ter aprendido pouco ou mais do que em todo o curso. Tendo passado por processos de recrutamento consigo atestar que, num candidato, ter nenhuma, uma, duas, ou mais experi√™ncias internacionais, √© valorizado de forma diferente. Quando entrevisto candidatos e vejo curr√≠culos tamb√©m me faz diferen√ßa a presen√ßa destas experi√™ncias porque me mostra, essencialmente, que a pessoa n√£o tem medo de abra√ßar novos desafios. Quando vamos para uma experi√™ncia no estrangeiro √© imposs√≠vel n√£o termos receio porque vamos trabalhar com pessoas desconhecidas, num ambiente desconhecido e, portanto, √© natural que tenhamos medo de estar a desperdi√ßar um semestre ou um ano. Neste sentido, valorizo um candidato que n√£o teve medo de enfrentar essa experi√™ncia que, simultaneamente, o possibilita de abrir horizontes. O facto de, por exemplo, almo√ßarmos e jantarmos todos os dias com pessoas de outras nacionalidades prepara-nos para lidar com diferentes pessoas e, numa empresa, √© bom ter este tacto desenvolvido no caso de nos enviarem para trabalhar noutro pa√≠s. Noutra nota, pessoalmente sou uma pessoa que gosta muito de viajar e, como tal, tinha a ideia de que queria ir trabalhar para fora. Posso afirmar que as minhas experi√™ncias ajudaram-me a perceber que eu afinal queria era trabalhar em Portugal, pela cultura e pela meteorologia, n√£o descuidando, contudo, o contacto com o estrangeiro. Assim, para mim, revelou-se importante trabalhar numa empresa que tenha clientes internacionais e constante contacto com outras nacionalidades.

[Entrevistadora] ‚Äď O que dirias a estudantes que procurem ter experi√™ncias semelhantes √†s que nos apresentaste?

[Entrevistada] ‚Äď Chega sempre um momento em que te perguntam se queres fazer Erasmus ou n√£o e, no limite, ires sozinho pode colocar-te mais receio e ser o fator que te faz dar um passo atr√°s. Mas ainda assim, √†s vezes, temos de decidir sem pensar nas consequ√™ncias: ‚Äúvou fazer a minha candidatura sem pensar, vou enviar‚ÄĚ. Ap√≥s 5 anos de curso todos os teus colegas tiveram um percurso acad√©mico muito semelhante ao teu. Se a tua institui√ß√£o de ensino forma 60 engenheiros biom√©dicos por ano ent√£o, no limite, uma empresa pode receber 60 candidatos iguais. Se metade destes fez Erasmus eu diria que a outra metade estaria em desvantagem. Se fizeres Erasmus duas vezes ent√£o ter√°s mais um ponto por isso, pelo que quando temos uma oportunidade temos de nos obrigar a ‚Äúdar o passo em frente‚ÄĚ. Dado este passo, podes moldar a tua experi√™ncia de forma a que ela seja mais f√°cil para ti: podes tentar ir com algu√©m que tenha a mesma ambi√ß√£o e queira ir para o mesmo s√≠tio, podes tentar ir para um local sobre o qual j√° tenhas tido bom feedback, mas nunca deixes de ir por causa do medo. O mais importante √© lembrares-te que, ao dar esse passo est√°s a distinguir-te de todos os outros. N√£o te esque√ßas, tamb√©m, que mesmo que n√£o acabes por trabalhar numa √°rea relacionada com as tuas aprendizagens t√©cnicas de est√°gio/tese, estas ser√£o sempre importantes por te diferenciarem.

[Entrevistadora] ‚Äď Muito obrigada, Filipa, por teres despendido um bocadinho do teu tempo nesta entrevista e pelas motivadoras palavras, espero que ajudes muitos estudantes que ambicionem ter uma experi√™ncia semelhante √† tua.

[Entrevistada] ‚Äď Obrigada eu mais uma vez pelo convite!

A ANEEB agradece por teres aceite esta entrevista e pela partilha da tua experiência fora de Portugal, esperando com isto ajudar outros estudantes que estejam prestes a tomar esta decisão. Votos de sucesso