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Entrevista a Danilo de Jesus

Entrevista a Danilo de Jesus

Danilo de Jesus

Mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade de Coimbra. Atual investigador na Holanda pelo programa Erasmus MC.

A ANEEB teve o prazer de entrevistar Danilo de Jesus! O Danilo falou-nos sobre o seu amplo percurso internacional: come√ßou na Finl√Ęndia, onde ficou um ano na empresa BioMediTech; fez Doutoramento na Wroclaw University of Science and Technology, na Pol√≥nia,¬†no √Ęmbito do programa Marie Curie Initial Training Network; fez um p√≥s-doutoramento na KU Leuven, na¬†B√©lgica; e atualmente √© investigador na¬†Holanda, pelo programa Erasmus MC.

[Entrevistadora] ‚Äď Lu√≠sa Balbino (ANEEB)
[Entrevistadora] ‚Äď Adriana Santos (ANEEB)
Lê aqui a Entrevista completa!

[Entrevistadora] Olá a todos, sejam bem-vindos a mais uma entrevista do Biomédicos pelo Mundo! Eu sou a Luísa e sou colaboradora do departamento de Formação e Saídas Profissionais da ANEEB e estou aqui acompanhada pela Adriana que pertence ao departamento de Ensino e Ação Social. Estamos aqui hoje para conversar com o nosso convidado Eng. Danilo Jesus que se tornou mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade de Coimbra em 2012. Danilo, muito obrigada por teres aceitado o nosso convite! O Danilo fez uma bolsa de investigação na Universidade de Coimbra durante seis meses; depois, durante um ano, foi research assistant na Biomedi-Tech que é uma faculdade em Tampere; depois fez o doutoramento na Wroclaw University of Science and Technology através do programa Marie Curie Innovative Training Network; procedeu, depois, para um pós-doutoramento em Leuven durante um ano; e, desde 2018, está, também através do Erasmus Marie Curie, na Holanda e é agora o principal investigador no grupo de investigação Eye Image Analysis Group. Sugiro então que comecemos pela tua experiência no Biomedi-Tech: como é que tiveste conhecimento desta oportunidade? Como é que te candidataste? Como é que funcionou o processo?

 

[Entrevistado] Antes de mais, Lu√≠sa e Adriana, obrigado pelo convite e parab√©ns pela iniciativa, uma excelente iniciativa, Biom√©dicos pelo Mundo √© uma excelente forma de mostrar o que √© que os biom√©dicos portugueses andam a fazer pelo Mundo e certamente ia dar-me muito jeito na altura em que acabei o curso tamb√©m para servir como refer√™ncia do que √© que as pessoas faziam. Mas, relativamente √† tua quest√£o, a Biomedi-Tech que √© um co-institute entre a Tampere University of Technology e os hospitais de Tampere, na Finl√Ęndia. Ent√£o, eu fui l√° bater porque na altura‚Ķali√°s, dando um passo atr√°s, porque eu comecei a fazer investiga√ß√£o em Coimbra numa bolsa de investiga√ß√£o, foi quando come√ßou o meu bichinho pela investiga√ß√£o. Nas bolsas de investiga√ß√£o em Portugal faz-se investiga√ß√£o durante um ano mas n√£o te d√° muitas perspectivas de futuro, √© um projeto fixo. E ent√£o, despertou-me na altura o interesse em sair de Portugal, em sair um pouco da minha zona de conforto, j√° estava muito, muito confort√°vel em Coimbra, demasiado confort√°vel e ent√£o queria sair um pouco da minha zona de conforto e ver o que se faz l√° fora. Eu lembro-me que na altura houve um e-mail que passou na mailing list do departamento, e uma das nossas colegas de biom√©dica que se encontrava na Finl√Ęndia em postdoc num per√≠odo de investiga√ß√£o nesse mesmo instituto, e na altura fiquei interessado, contactei-a, concorri, fui aceite e l√° fui eu, passado seis meses de acabar o curso, mais ou menos, para a Finl√Ęndia. Eu sou da Madeira, portanto nunca tinha visto neve a s√©rio e ent√£o fui¬† logo diretamente para a Finl√Ęndia e passei l√° um ano, um ano espetacular. O inverno finland√™s √© muito engra√ßado com temperaturas que conseguem chegar aos menos vinte e cinco graus e era engra√ßado porque eu estava excitado e ficava contente‚Ķ eu sa√≠a de casa e estavam menos vinte e cinco graus, toda a gente deprimida, toda a gente a querer ficar em casa e eu todo contente para o trabalho porque cada dia que passava era uma temperatura mais baixa e era um recorde para mim, um recorde pessoal.¬† Mas entendo que muitos anos daquilo torna-se um pouco depressivo.

 

[Entrevistadora] E o que é que te levou, então, a realizar o doutoramento fora, neste caso, na Polónia?

 

[Entrevistado] Eu costumo dizer que eu n√£o encontrei o doutoramento, o doutoramento encontrou-me de certa forma. Eu estava na Finl√Ęndia, estava a fazer trabalho de investiga√ß√£o, estava a trabalhar com uma t√©cnica que √© optical projection tomography na √°rea da √≥ptica e de reconstru√ß√£o de imagem. E na altura, n√£o sei como, mas atrav√©s das mailing lists existentes houve este projeto que passou que eu tive a oportunidade de ler, era um novo projeto focado na parte interior do olho que despertou o meu interesse porque a minha tese de mestrado e a investiga√ß√£o que fiz depois da tese de mestrado tinha sido focada na caracteriza√ß√£o¬† da catarata do cristalino do olho com ultra-som. E este projeto que tive a oportunidade de ver era focado tamb√©m na parte interior do olho, era focado na c√≥rnea e ent√£o despertou-me o meu interesse natural e na altura at√© perguntei √† pessoa em quest√£o respons√°vel pelo projeto se era poss√≠vel saber mais sobre o projeto, em que √© que consistia o projeto e obtive uma resposta e at√© disseram que se eu me queria candidatar podia. Mas eu acabei por n√£o o fazer porque nem tinha os documentos todos, lembro-me que pediam tr√™s cartas de recomenda√ß√£o, algo do tipo, e eu n√£o tinha os documentos, e¬† acabei por passar ao lado, n√£o concorri e continuei com a minha vida l√° na Finl√Ęndia. Mas, passado umas semanas, j√° depois da deadline da candidatura, recebi um e-mail desta pessoa que tinha contactado anteriormente a dizer ‚ÄúEstou a ver as candidaturas e n√£o estou a ver a tua, certamente perdeu-se. Ser√° que n√£o queres reenviar os documentos?‚ÄĚ. Ent√£o, pensei ‚ÄúPorque n√£o?‚ÄĚ e enviei o meu CV, enviei alguns documentos que era necess√°rio, alguns documentos at√© ficaram em falta, mas passado dois dias ou tr√™s dias depois recebi outro e-mail a dizer que tinha sido aceite para entrevista e ent√£o fui apanhado de surpresa mas disse ‚ÄúSim, fa√ßo a entrevista sem qualquer problema‚ÄĚ. Acabei por fazer a entrevista com tr√™s pessoas espetaculares e passado uma semana disseram que tinha sido aceite. E passou-se tudo isto, nunca pensei em ir, eu estava neste processo mas sem pensar ‚ÄúEu vou entrar, eu vou fazer um doutoramento‚ÄĚ, nunca tinha pensado nisso sequer. Ent√£o, do nada, tinha ali aquela oferta num projeto Marie Curie, na altura sabia muito pouco o que era o Marie Curie, tive de pesquisar, mas depois de me informar sobre o que faria, a possibilidade de ter bastante treino dentro do meu pr√≥prio doutoramento e o facto de ser numa √°rea que eu gostava que era a √°rea da vis√£o, da oftalmologia fez com que dissesse √† minha colega da Finl√Ęndia ‚ÄúOlha, vou-me embora. Tenho esta proposta, vou-me embora‚ÄĚ. Ali√°s, ela disse que era uma boa proposta e recomendou-me que se realmente estivesse no¬† meu lugar tamb√©m ia e tamb√©m foi bom ter esse feedback de um s√©nior, neste caso um colega mais velho, sobre os melhores passos ou percurso a fazer. E l√° fui eu, neste caso, para a Pol√≥nia sem saber nada sobre a Pol√≥nia e foi uma das melhores experi√™ncias que eu j√° tive at√© agora.

 

[Entrevistadora] Muito bem! E, ou seja, tanto na Finl√Ęndia como na Pol√≥nia, como √© que foram as burocracias, tanto em Portugal como l√°? E a l√≠ngua, porque foste para pa√≠ses diferentes, aprendeste diferentes l√≠nguas ou foste-te ambientando, como √© que isso funcionou?

 

[Entrevistado] Eu acho que burocracias existem em todo o lado, de uma forma ou de outra. A diferen√ßa √©‚Ķtu consegues perceber o n√≠vel de burocracia que h√° se os documentos est√£o numa l√≠ngua que tu percebes ou n√£o. Em alguns casos, por exemplo na Finl√Ęndia, a maior parte dos documentos estava em finland√™s e em ingl√™s o que torna a tua vida muito mais f√°cil. Na Pol√≥nia j√° n√£o era bem assim, nem todos os documentos estavam em ingl√™s o que se tornava um pouco mais complicado. Mas,¬† por outro lado, na Pol√≥nia nunca tive nenhum problema com burocracia porque o meu supervisor dizia-me ‚ÄúDanilo, tu trabalhas aqui a fazer investiga√ß√£o. O teu trabalho aqui √© fazer investiga√ß√£o. Foca-te nisso e tudo o resto manda para mim que eu trato disso‚ÄĚ. Portanto √© bastante importante quando vais para um s√≠tio ter algu√©m l√° que te ajude nesse sentido, que, de certa forma, te guie nessa burocracia porque por vezes pode ser muito complicado. E eu acho que de certa forma j√° respondi √† quest√£o da l√≠ngua, em alguns pa√≠ses, como por exemplo na Finl√Ęndia, fala-se muito ingl√™s; aqui em Roterd√£o toda a gente fala ingl√™s fluentemente, nunca encontrei ningu√©m que n√£o falasse ingl√™s; na B√©lgica as pessoas tamb√©m falam ingl√™s apesar de, quando come√ßas a ir para a parte francesa, fala-se menos ingl√™s; na Pol√≥nia fala-se ingl√™s dentro do meio acad√©mico, fora do meio acad√©mico fala-se menos ingl√™s. √Č importante tamb√©m aprender um pouco da l√≠ngua local, eu acho isso bastante interessante porque ao aprender a l√≠ngua local tu envolveste na pr√≥pria cultura e isso √© bonito porque as pessoas tamb√©m reconhecem isso, que est√°s a fazer um esfor√ßo e brincam contigo de certa forma tamb√©m, mas ao aprender a l√≠ngua aprendes de onde √© que aquelas pessoas v√™m e integras-te muito mais. Portanto eu recomendo aprender sempre a l√≠ngua independentemente do pa√≠s para onde v√°s, n√£o √© algo que eu tenha sempre feito mas baseado na minha experi√™ncia √© algo que eu vivamente recomendo. Mas o ingl√™s √© o mais importante e a melhor forma de aprender ingl√™s √© sair de Portugal.

 

[Entrevistadora] A próxima pergunta que eu te queria fazer prende-se com os diferentes sistemas de ensino. Queria perguntar-te o que é que notaste de diferente nos sistemas de ensino dos países em que estiveste e as principais diferenças que notaste em relação aqui ao nosso país.

 

[Entrevistado] √Č uma boa quest√£o. Eu j√° n√£o tenho aulas h√° algum tempo, mas h√° determinadas coisas que s√£o muito diferentes. Por exemplo, agora mais recentemente, tenho a oportunidade de fazer supervis√£o de alunos de mestrado e de licenciatura o que me faz lembrar das burocracias que n√≥s t√≠nhamos no nosso sistema de ensino, as limita√ß√Ķes que t√≠nhamos em Portugal, inclusiv√© tenho aqui alguns alunos de Portugal at√©. Mas, vamos por partes, deixem-me dar um exemplo de como as coisas podem ser diferentes do ponto de vista do aluno. Eu lembro-me de quando estudei em Coimbra, eu ia muito informal para a universidade, ia de T-shirt e cal√ß√Ķes, no ver√£o de chinelos e ia fazer os meus exames assim, sem qualquer problema, n√£o era por isso que ia ter melhor ou pior nota. Mas eu lembro-me de quando cheguei √† Pol√≥nia, logo nos primeiros meses calhou na altura dos exames e eu lembro-me de ver muitos colegas a irem para as aulas vestidos muito formalmente ent√£o eu no in√≠cio at√© pensei que fossem alguns itens especiais. Mas eu vi de tal forma, t√£o frequente que perguntei aos meus colegas de doutoramento ‚ÄúPorque √© que v√™m vestidos de fato, t√£o formalmente?‚ÄĚ, eram mi√ļdos novos e vias que o fato n√£o era deles, era dos pais ou dos av√≥s de t√£o¬† largo que ficava e ent√£o ele disse-me que alguns professores l√°, conservadores, exigiam que os alunos fossem vestidos de forma formal para os exames. E para mim, aquilo fazia um pouco de confus√£o porque se eu fosse fazer exames l√° eu n√£o fazia nenhum porque ia sempre vestido de forma informal para a universidade. E portanto essa era uma das formas que mostrava essa diferen√ßa entre professor e aluno, essa foi uma das diferen√ßas que notei. Mas uma coisa que noto agora que fa√ßo a supervis√£o de alunos s√£o as teses de mestrados, eu tenho alunos aqui que fazem a tese de mestrado e a tese √© um paper, seis p√°ginas e a tese est√° feita. E para mim, como investigador, √© isso que me interessa, √© aquele paper, aquelas p√°ginas. Entretanto tenho alunos de Portugal em que a tese de mestrado s√£o cem p√°ginas e eu sei o que √©, tamb√©m fiz essa tese de cem p√°ginas h√° uns anos atr√°s. Mas aquilo tem alguma utilidade? N√£o, n√£o tem. Qual √© a utilidade de eu escrever o que √© o olho em quinhentas teses? N√£o tem, toda a gente sabe o que √© o olho. Portanto, √© uma das coisas que eu noto, aqui s√£o muito mais objetivos enquanto que em Portugal ainda existe um pouco este sistema de escrever documentos que ficam ali guardados para sempre e que ningu√©m vai ler, enquanto que se for uma coisa concisa em forma de paper poderia ter muito mais utilidade para a comunidade e isso √© uma das coisas que eu noto na diferen√ßa dos sistemas de ensino. Uma das coisas tamb√©m bastante interessantes que eu vejo aqui com os alunos de technical medicine √© que h√° muitos maus est√°gios, h√° muito mais contacto com os grupos de investiga√ß√£o e com o mercado de trabalho, o que te d√° uma maior no√ß√£o do ambiente fora da universidade. O facto de poderes fazer diferentes est√°gios, de poderes estar em diferentes lugares permite-te, durante o curso, perceber aquilo que queres fazer ap√≥s terminar o curso. E o que eu sinto, atrav√©s da experi√™ncia que eu tenho e atrav√©s daquilo que eu vejo dos alunos √© que n√£o sabem aquilo que querem fazer quando acabam o curso, a primeira prioridade √© arranjarem emprego e alguns deles at√© antes de acabar o curso, o que √© mau porque assim n√£o acabam a tese. Mas nota-se isso, enquanto que aqui fazem diferentes est√°gios e quando acabam, ou j√° t√™m contactos de onde fizeram est√°gios e v√£o para l√°, ou ent√£o sabem aquilo que realmente querem, se querem mais programa√ß√£o, se querem mais a parte da gest√£o, se querem mais intera√ß√£o com o cliente, etc.

 

[Entrevistadora] Já são algumas diferenças, um bocadinho grandes.

 

[Entrevistado] Sim, o ensino em Portugal, nomeadamente na parte da biomédica, precisa de uma determinada reforma porque o que eu vejo hoje em dia é que pouco ou nada mudou desde quando eu entrei no curso. Já não há mestrados integrados, meteram uma pequena tese no final da licenciatura que se aproxima mais daquilo que se tem aqui, mas ainda assim ainda existe um grande gap entre aquilo que se aprende em Portugal e aquilo que se aprende fora de Portugal, pelo menos dando o exemplo daqui dos Países Baixos.

 

[Entrevistadora] Acerca do programa Marie Curie que já falaste um bocadinho acima, podes explicar em que é que consiste, o que é que se faz efetivamente?

 

[Entrevistado] Sim, deixa-me s√≥ corrigir uma pequena coisa que disseste no in√≠cio. Eu fiz a Marie Curie como aluno de doutoramento, foi um programa doutoral, mas eu estou Holanda j√° n√£o tem rela√ß√£o com Marie Curie, foi s√≥ uma pequena corre√ß√£o. Mas falando agora do programa, h√° diferentes sec√ß√Ķes ou programas: h√° Marie Curie para alunos de doutoramento, mas tamb√©m h√° para postdoc. Mas falando daquilo que mais interessa para voc√™s que √© doutoramento, Marie Curie √© um programa que te permite fazer doutoramento dentro de uma network, ou seja, existem v√°rios alunos a fazer o doutoramento em diferentes institui√ß√Ķes sobre um tema espec√≠fico. Ou seja, existe partilha de informa√ß√£o entre os diferentes doutoramentos, o que √© bom porque durante o programa de doutoramento, tu tens de ir a outras universidades, n√£o s√≥ √† universidade que te acolhe, o que te permite estar em outros grupos de investiga√ß√£o e fazer trabalho em outros grupos que se relaciona tamb√©m com o teu doutoramento. Portanto √© uma network em que os projetos est√£o todos ligados, e promove a mobilidade de pessoas dentro da Uni√£o Europeia e portanto se tu tiveres vivido determinados anos naquele pa√≠s,¬† n√£o podes concorrer para aquele pa√≠s, tens de concorrer para um projeto noutro pa√≠s. √Č uma das vantagens, outra das vantagens √© que normalmente nos projetos Marie Curie, o valor que √© utilizado para a bolsa √© muito superior √†s bolsas normais que s√£o oferecidas para fazer doutoramento, o que d√° uma estabilidade tamb√©m durante o per√≠odo de doutoramento porque podem focar-se apenas na vossa investiga√ß√£o e n√£o precisam de estar preocupados com o vosso sal√°rio e com as vossas condi√ß√Ķes no final do m√™s.

 

[Entrevistadora] Penso que já podes ter respondido a esta pergunta, mas o que é que te ensinou esta experiência e ainda também perguntar-te se te arrependes de algo até agora.

 

[Entrevistado] A experiência geral ou experiência do doutoramento?

 

[Entrevistadora] Do doutoramento, sim.

 

[Entrevistado]  Eu acho que a Marie Curie, os projetos Marie Curie são uma grande vantagem, eu acho que te dá uma determinada bagagem ou seja força-te não só estás a fazer o teu projeto mas força-te a colaborar com outros grupos. Há a oportunidade de participar em muitos  Training Summer School Winter Schools, a oportunidade de viajar e de ir a diferentes conferências. Basicamente, a Marie Curie constrói de certa forma dá-te bagagem para tu construíres uma determinada carreira naquela área específica e é uma grande vantagem, aprendes muito, aprendes muito. Portanto é algo, hoje em dia, quando alguém me diz que gostava de fazer um Doutoramento eu digo, olha primeira coisa tens que fazer vai ao site EURAXESS e lá tens todas as ofertas a nível europeu. Se encontrares algo Marie Curie na área que tu gostes concorre a porque é uma grande oportunidade. Se eu me arrependo de alguma coisa? Não, não me arrependo, acho que é difícil de arrepender-se porque não sabes se tomasses uma decisão diferente se realmente estarias melhor do que aquilo que estás ou não. Acho que o importante é sempre quando tomas qualquer decisão, o quer que seja, é que não tenhas medo de sair da zona de conforto, e se realmente estás a pensar em fazer algo quer dizer que queres, não é? Portanto vai e experimenta e se não gostares voltas sempre à base. Foi sempre o que eu pensei, vou sair de  Portugal se não gostar, apanho um avião e venho embora. Portanto, não, não há problema, aliás eu digo isto porque eu sou da Madeira e então eu saí em 2007 e então tinha sempre também que apanhar um avião para ir para Coimbra, não é? E então vinha a casa, tinha que apanhar um avião para casa, da mesma forma que estou aqui apanho um avião para casa, é igual. Portanto, acho que é muito bom sair da zona de conforto, sair da zona de conforto significa que estás a aprender alguma coisa.

 

[Entrevistadora] Obrigada e tendo agora uma pergunta um pouco mais geral que tem a ver com o n√≠vel de vida nos diferentes pa√≠ses em que tiveste a trabalhar. Podias esclarecer e dar algumas informa√ß√Ķes de como s√£o quando comparados aqui com com Portugal e depois quais foram as maiores diferen√ßas que sentiste em rela√ß√£o ao nosso pa√≠s?

 

[Entrevistado] Uma boa quest√£o, eu s√≥ trabalhei 6 meses em Portugal, portanto eu acho que trabalhei mais em todos os outros pa√≠ses do que em Portugal. Eu trabalhei com uma bolsa de investiga√ß√£o seguran√ßa social volunt√°ria, ou l√° como se chama, portanto n√£o tenho assim uma grande experi√™ncia de Portugal. O que eu posso dizer √© que entre os diferentes pa√≠ses que eu que tive, sim, h√° uns pa√≠ses melhores do que outros. Por exemplo, na Pol√≥nia n√£o tenho grande refer√™ncia porque tal como eu disse a minha bolsa √© uma bolsa Marie Curie, √© um valor espec√≠fico por Bruxelas e a seguir √© corrigido pelo pa√≠s em que tu est√°s. Portanto, eu n√£o sei o que √© que √© fazer um doutoramento, por exemplo com um sal√°rio de l√°. Eu sei que quando eu comecei os sal√°rios n√£o eram assim muito famosos l√°, mas hoje em dia os sal√°rios, por exemplo na Pol√≥nia s√£o equipar√°veis aos sal√°rios de Portugal se n√£o melhores. Mas relativamente aos outros pa√≠ses, mais agora recentemente para a Holanda, eu acho que as condi√ß√Ķes s√£o muito boas, por exemplo tu quando vens para Holanda e se vieres j√° com¬† Phd¬† durante 5 anos pagas menos 30% de impostos, o que d√°-te um sal√°rio mais¬† confort√°vel tamb√©m. Isto aplica-se n√£o s√≥ academia mas tamb√©m fora da academia. O facto, por exemplo, uma das coisas que eu gosto aqui √© que toda a informa√ß√£o est√° digitalizada e por exemplo¬† com uns simples cliques vou ao site consegues ver qual √© que vai ser o valor da reforma j√°. Essas coisas, est√°s a ver. E ent√£o a√≠ e tudo o que tu descontas tudo, tudo direitinho. Enquanto que √†s vezes, em Portugal acho que n√£o sei, se calhar √© porque eu n√£o tenho muita experi√™ncia em Portugal, mas acho que pelo menos experi√™ncia que eu vejo dos meus colegas j√° √© muito mais complicado em termos de burocracia. E perspectivas tamb√©m para o futuro. Portanto, sim acabas por ter sal√°rios muito melhores fora Portugal, apesar das coisas hoje em dia estarem um pouco mudar para o trabalho remoto tamb√©m. Mas √© complicado dizer, porque n√£o sei, eu acho que as coisas mudaram tanto nos √ļltimos 5 anos mesmo, tu olhas para o pre√ßo da habita√ß√£o e o pre√ßo das rendas em cidades como como Lisboa, que as rendas agora s√£o absurdas a eu acho que as coisas est√£o a mudar t√£o r√°pido que por exemplo arrendar, se calhar casa em Lisboa come√ßa a ser parecido a arrendar casa aqui em Roterd√£o, quando os sal√°rios n√£o tem nada a ver. Mas √© complicado dizer n√£o √©, e se calhar eu acho que h√° meia d√ļzia de pa√≠ses em que realmente a qualidade de vida mais superior, por exemplo a Su√≠√ßa, mas relativamente √† Holanda, aos Pa√≠ses Baixos, o que eu posso dizer √© que as condi√ß√Ķes s√£o muito boas.

 

[Entrevistadora] Agora assim uma pergunta mais pessoal, o que é que te vês a fazer profissionalmente daqui a 5 anos? E considerarias voltar para Portugal?

 

[Entrevistado] Pois, eu acho que daqui a 5 anos, espero continuar aqui na Erasmus MC. Ali√°s tudo indica que sim. Mas espero j√° estar como associate professor e basicamente espero estar numa posi√ß√£o em que nunca me imaginei quando estava a fazer o curso. E voltando um pouco atr√°s no tempo, eu quando estava a fazer o curso, quando estava na vossa posi√ß√£o, nunca pensei em fazer investiga√ß√£o de todo. N√£o, n√£o me interessava de todo nenhum fazer investiga√ß√£o, antes de entrar no curso, durante o curso. S√≥ comecei a pensar em investiga√ß√£o quando comecei a fazer a tese de mestrado, foi a√≠ a parte em que fiz o clique. Hoje em dia, gosto muito daquilo que fa√ßo, acho que a investiga√ß√£o √© muito interessante. Aquilo que tu fazes, aquela ideia que n√≥s temos de investiga√ß√£o quando estamos a fazer o curso, n√£o corresponde muito √† realidade. Por exemplo, no meu caso concreto, n√≥s trabalhamos em diferentes projetos, trabalhamos em projetos europeus, fazemos tamb√©m desenvolvimento de software que vai ser integrado em instrumentos. Portanto √© todo um trabalho de desenvolvimento, tamb√©m √© um trabalho de investiga√ß√£o, mas √© um trabalho de desenvolvimento. E eu espero estar a continuar a fazer isso daqui a 5 anos. Recentemente, comecei com o meu grupo de investiga√ß√£o juntamente com a minha colega Lu√≠sa. Basicamente o nosso grupo de investiga√ß√£o re√ļne toda a parte de image analysis, em oftalmologia na √°rea de Roterd√£o, ou seja tem a nossa institui√ß√£o Erasmus MC, departamento de oftalmologia e radiologia, mas tamb√©m envolve outra institui√ß√£o que √© o Rotterdam hospital. E o facto de poderes trabalhar com diferentes centros e fazer a simbiose dos diferentes conhecimentos que n√≥s temos, em termos de imagiologia, em termos de artificial intelligence, com os conhecimentos cl√≠nicos, √© espetacular. Eu espero continuar a fazer isso, na altura se calhar at√© √† frente de uma de uma grande Marie Curie com um determinado conjunto de n√ļmero de alunos tamb√©m, que foi da√≠ que o que eu vim tamb√©m.

 

[Entrevistadora] Muito bem! Agora a √ļltima pergunta. Que conselhos √© que davas a algu√©m que quisesse estudar no estrangeiro em qualquer grau, s√≥ ir para fora?

 

[Entrevistado] Uma boa quest√£o. Eu acho que √© importante experimentar, √© importante sair. Eu acho que o programa Erasmus √© uma primeira porta. Eu n√£o fiz Erasmus quando estava na UC, eu sempre tive aquela ideia de eu sou da Madeira, j√° estou em Erasmus, n√£o preciso de fazer Erasmus, o que n√£o √© verdade.Acho que quando sais fora de¬† Portugal √© completamente diferente e acho que √© bom conhecer as pessoas de outras culturas, de outras nacionalidades, isso √© bastante bom tu sais da tua zona de conforto, melhoras o teu ingl√™s, tu v√™s outras formas de estudo¬† e come√ßas a perceber que realmente √© f√°cil sair de Portugal, s√≥ precisas do teu cart√£o √ļnico. Portanto, o meu conselho √© sa√≠rem.¬† Come√ßarem, por exemplo, com um programa Erasmus que √© um pequeno passo, √© um passo assim mais soft e se realmente gostarem daquilo, por exemplo tentarem fazer uma tese fora de Portugal. Isso √© uma das coisas que n√≥s agora estamos a tentar proporcionar, j√° conseguimos atrav√©s dos √ļltimos 2 anos, em colabora√ß√£o com o colega¬† Pedro Vaz da Universidade de Coimbra em que, por exemplo a primeira metade da tese √© feita em Coimbra e metade da tese √© feita aqui, e tem corrido bem. Porque a seguir d√°-te a¬† possibilidade, por exemplo, do programa Erasmus + , poder fazer a seguir e poder estar num grupo de investiga√ß√£o e depois, n√£o s√≥ fazer a tua tese mas ver o que os outros colegas est√£o a fazer no grupo. Mas, se calhar, √†s vezes acho que o mais f√°cil √© mesmo contactar algu√©m, contactar um colega quer seja portugu√™s ou quer seja de biom√©dica ou ent√£o mesmo um determinado investigador e dizer que ‚Äútenho interesse no vosso trabalho, eu gostava de fazer uma tese de mestrado na vossa √°rea, ser√° que h√° possibilidade de fazer isso?‚ÄĚ Existem os programas Erasmus+ ou ser√° que existem possibilidade de financiamento e contactar as pessoas. Hoje h√° muita retic√™ncia, muitas vezes n√≥s quando somos alunos pensamos que n√£o, n√£o vou enviar um e-mail para qu√™? N√£o v√£o responder ou nem sequer v√£o ver. O que n√£o √© verdade, eu vejo sempre, por exemplo eu vejo sempre se me enviarem qualquer coisa, eu vejo sempre e respondo sempre, mesmo se for no LinkedIn. Olha, mesmo a semana passada teve um mi√ļdo de f√≠sica m√©dica de It√°lia e ele estava a perguntar sobre a minha carreira, n√£o sei como √© que ele viu o meu LinkedIn, mas estava perguntar o que √© que eu tinha feito e o que √© que tinha concorrido e olha mandei lhe um testamento basicamente com v√°rios conselhos e ele acho que n√£o estava √† espera mas ficou todo contente. Portanto, isto para dizer que voc√™s n√£o tenham problemas de contactar investigadores mais seniores porque as pessoas j√° tiveram na vossa posi√ß√£o, portanto sabem sabem como √© que √©, n√£o √©. Mas, √© isso. O meu conselho, se calhar resume-se no seguinte: n√£o tenham problema em sair da¬† zona de conforto, √© bom para voc√™s, estiverem muito confort√°veis quer dizer que voc√™s n√£o est√£o a aprender nada.

 

[Entrevistadora] Por fim, gostaria de agradecer pelo teu tempo e disponibilidade, Danilo. Foi um prazer e, com certeza, conseguiste inspirar alguns daqueles que nos ouvem a experimentar um percurso diferente, por isso muito obrigada. Desejamos-te tudo de bom no teu percurso profissional.

 

[Entrevistado]: Obrigada!

 

A ANEEB agradece por teres aceite esta entrevista e pela partilha da tua experiência fora de Portugal, esperando com isto ajudar outros estudantes que estejam prestes a tomar esta decisão. Votos de sucesso!