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Entrevista a Andreia Almeida

Entrevista a Andreia Almeida

Andreia Almeida

Eng. Biomédica pela UTAD e UP, atual Translational Scientist nos Países Baixos

A ANEEB teve o prazer de entrevistar Andreia Almeida! A Andreia falou-nos sobre a sua experiência internacional no Reino Unido e noutros países, como Israel, quer como estagiária ou integrante em Short Term Scientific Missions!

[Entrevistadora] ‚Äď Ana Mesias (ANEEB)
[Entrevistador] ‚Äď Pedro Carreiro (ANEEB)
 
Lê aqui a Entrevista completa!

[Entrevistadora]: Ol√° a todos, sejam bem vindos a mais um epis√≥dio do ‚ÄúBiom√©dicos pelo Mundo‚ÄĚ! O meu nome √© Ana Mesias, sou colaboradora do Departamento de Forma√ß√£o e Sa√≠das Profissionais da ANEEB e estou acompanhada pelo Pedro Carreiro que pertence ao Departamento de Ensino e A√ß√£o Social. Hoje iremos conversar com a Andreia Almeida. A nossa convidada √© licenciada em Engenharia Biom√©dica pela Universidade de Tr√°s-os-Montes e Alto Douro, mestre em Engenharia Biom√©dica pela Universidade do Porto e Doutorada em Ci√™ncias Biom√©dicas, tamb√©m, pela Universidade do Porto. Antes de ingressar no seu trabalho atual, como Translacional Scientist nos Pa√≠ses Baixos, teve oportunidade de realizar diversas experi√™ncias a n√≠vel internacional, as quais iremos descobrir ao longo deste epis√≥dio. Andreia, muito obrigada por teres aceitado o nosso convite! Come√ßando por abordar uma das tuas primeiras aventuras no estrangeiro, regressamos a 2016, ano em que realizaste um Summer Internship na Universidade de Newcastle, no Reino Unido. Como foi esta experi√™ncia e como √© que tiveste conhecimento da mesma?

 

[Entrevistada]: Em primeiro lugar, obrigada pelo convite e por poder partilhar a minha experi√™ncia com voc√™s e com todos os outros alunos que v√£o ver, no futuro, este epis√≥dio. Sim, em rela√ß√£o ao Summer Internship eu acho que descobri de forma aleat√≥ria, atrav√©s daqueles emails que √†s vezes recebemos, que subscrevemos, e eu acho que j√° tinha o nome do projeto, na altura, e eu achei que o projeto se enquadrava bastante com a minha tese de mestrado e eu pensei ‚ÄúPorque n√£o concorrer?‚ÄĚ. √Äs vezes n√≥s temos aquele sentimento de que nunca vamos conseguir e de que os outros √© que conseguem e que, √†s vezes, nem vale a pena tentar, mas eu l√° concorri e depois passei √† segunda fase e fiquei muito contente, mas sempre com aquela expectativa de que poderia n√£o dar em nada. Mas, depois, quando recebi, realmente, a resposta fiquei, claro, muito contente. Tive, entretanto, que acabar a minha tese de mestrado ou defender a minha tese de mestrado assim mais r√°pido para poder participar no programa. O programa foi cerca de 1 m√™s, na Universidade de Newcastle. Este programa da PARSUK √© atrav√©s de investigadores e estudantes portugueses que est√£o no Reino Unido, ent√£o, eu tamb√©m estive com um portug√™s, o Ricardo, e ele foi o meu orientador, na altura, e o nosso projeto era para encapsular c√©lulas com material que eu estava a trabalhar. Ent√£o foi uma experi√™ncia muito boa, porque consegui aprender t√©cnicas novas, j√° tinha acabado o mestrado e, por isso, j√° tinha algum background no laborat√≥rio, mas foi bom ter uma perspetiva diferente. Em termos pessoais tamb√©m √© muito bom, porque conheces uma cultura nova e diferente. E, na altura, o meu ingl√™s ainda n√£o era assim muito bom, ent√£o ir para o Reino Unido, e eles tamb√©m t√™m um sotaque bastante particular, no in√≠cio foi um bocado complicado, mas acho que faz parte e que √© enriquecedor no final, porque vais praticando e vais aprendendo palavras novas e ganhando mais vocabul√°rio. Ent√£o, ao fim e ao cabo, √© sempre uma coisa boa quer a n√≠vel profissional, porque tamb√©m te d√° experi√™ncia, mas tamb√©m a n√≠vel pessoal porque vais melhorando algumas coisas, soft skills, vais conhecendo pessoas novas, que pode ser importante para a tua rede de contactos no futuro. Portanto, foi uma experi√™ncia boa e aconselho a toda a gente, mesmo que vejam a oportunidade e achem que n√£o v√£o conseguir, para tentar porque o n√£o est√° sempre garantido, por isso, mais vale tentar.

 

[Entrevistador]: √Č isso, completamente. Fazendo aqui, se calhar, a passagem para uma altura mais recente, tamb√©m pudemos observar que no doutoramento tamb√©m pudeste realizar v√°rias Short Term Scientific Missions, em diferentes pa√≠ses. Gostar√≠amos de saber como √© que tiveste esta possibilidade, tamb√©m?


[Entrevistada]
: Sim, eu depois que voltei de Newcastle, voltei para o instituto onde eu trabalhava, no i3S, onde fiz a tese, naquele momento, e comecei a trabalhar l√°. Depois, entretanto, concorri a doutoramento e, quando comecei o meu doutoramento, n√≥s recebemos uma aluna atrav√©s dessas Short Term Scientific Missions no nosso laborat√≥rio e eu estive a trabalhar bem de perto com ela, estava a ajud√°-la, porque trabalh√°vamos em √°reas semelhantes, e foi ela que me falou da COST, que √© a entidade que financia estas Short Term Scientific Missions. Ela era de Israel, inclusiv√©, e esteve a explicar como √© que funcionou, como √© que se candidatou, o processo. E eu disse: ‚ÄúHum, acho que √© uma experi√™ncia interessante, tamb√©m gostava de fazer uma coisa desse g√©nero‚ÄĚ. Ent√£o, ela tamb√©m come√ßou a falar um bocado do que havia na universidade dela, em Israel, e alguns grupos e eu estive a pesquisar e, na altura, encontrei um grupo que fazia spray drying e eu achei que podia ser uma t√©cnica interessante para aprender para o meu projeto de doutoramento. Ent√£o fiz a minha candidatura, a minha carta de motiva√ß√£o, concorri e felizmente fui aceite e passei l√° tamb√©m 1 m√™s. Depois, entretanto, fiz mais 2, uma na Alemanha, mas foi mais num contexto de ind√ļstria. Na altura, tamb√©m estava interessada em saber como √© que funcionava a parte da ind√ļstria, ent√£o o meu projeto foi fazer um scale up do meu projeto de doutoramento. E, tamb√©m, em Sevilha, onde fiz outra miss√£o, mais relacionada com 3D Printing, tamb√©m assim uma √°rea bastante diferente. No doutoramento eu tentava sempre aprender o m√°ximo poss√≠vel, at√© coisas que n√£o fossem diretamente no √Ęmbito do meu projeto, s√≥ para ganhar um pouco mais de bagagem de algumas coisas, porque no futuro acho que quanto mais souberes melhor.

 

[Entrevistadora]: Claro que sim! E que vantagens, assim nestes períodos de mobilidade, achas que pudeste ter, fora ganhar estas competências em diversas áreas? E, por exemplo, no caso de Israel sentiste algum choque cultural ou dificuldade em te adaptares visto que a cultura é bastante diferente e num país completamente novo?

 

[Entrevistada]: Sim. Ao in√≠cio eu estava assim um bocado reticente, devo confessar, porque, claro, Israel est√° envolvido em v√°rios conflitos, como n√≥s sabemos. Mas tudo correu mesmo muito muito bem, nunca me senti insegura, tamb√©m j√° conhecia essa menina que esteve no nosso laborat√≥rio e ela tamb√©m foi muito simp√°tica, apoiou-me e foi-me buscar ao aeroporto, foi simp√°tica e estava sempre dispon√≠vel para ajudar. Mas mesmo as outras pessoas que depois conheci no laborat√≥rio, foi mesmo muito tranquilo. N√≥s aproveitamos, fomos tamb√©m a uma confer√™ncia, aproveitamos os fins-de-semana para passear, fomos √†queles s√≠tios mais tur√≠sticos e foi sempre muito tranquilo. E foram s√≠tios que, eu nunca se calhar iria ou n√£o iria para j√° se n√£o fosse esta oportunidade que eu tive, ent√£o essa √© uma das vantagens desse tipo de projetos ou de miss√Ķes, que al√©m da experi√™ncia profissional que podes ganhar, das t√©cnicas que podes aprender, podes, tamb√©m, a n√≠vel pessoal desfrutar destes momentos, conhecer culturas novas, conhecer s√≠tios novos e, al√©m disso, tamb√©m conhecer pessoas novas n√£o s√≥ no contexto pessoal, mas tamb√©m no contexto profissional √© muito importante conhecermos pessoas da √°rea, para alargar a tua rede de contactos, principalmente se quiseres ficar na academia a trabalhar ou a fazer investiga√ß√£o, √© mesmo muito importante que consigam conhecer pessoas para fazer colabora√ß√Ķes, porque n√≥s n√£o temos tudo no nosso laborat√≥rio, as outras pessoas tamb√©m n√£o t√™m, ent√£o se nos ajudarmos uns aos outros melhor. Por isso, acho que √© uma boa experi√™ncia nesses sentidos e, tamb√©m, outra vez o ingl√™s, aproveitar para o melhorar em contexto profissional, tamb√©m em contexto social, porque n√≥s n√£o praticamos isso a trabalhar ou no laborat√≥rio, ent√£o acho que devemos sempre tentar, porque √© sair da nossa zona de conforto, ent√£o muita gente prefere ‚ÄúAh, n√£o, vou ficar por aqui, tamb√©m √© interessante‚ÄĚ, mas acho que faz bem tamb√©m sair da nossa zona de conforto.

 

[Entrevistador]: Sim, claro, completamente! Acabamos por desenvolver muitas mais skills em meios diferentes do nosso. E, passando agora mais para a experiência mais do trabalho, atualmente trabalhas no estrangeiro, gostaríamos de saber o que te levou a tomar esta decisão e como foi o teu processo de adaptação, nomeadamente o maior obstáculo, por exemplo.

 

[Entrevistada]: Para ser sincera, eu n√£o pensei em emigrar, foi uma ideia que partiu mais do meu namorado, porque ele nunca tinha tido nenhuma experi√™ncia fora, eu j√° tinha tido estas experi√™ncias, eu j√° estava satisfeita entre aspas com a minha experi√™ncia fora, mas ele gostava tamb√©m de ter essa experi√™ncia e, na altura, eu estava a acabar o doutoramento e eu pensei ‚ÄúOk, vou ter que acabar e tamb√©m vou ter que arranjar uma coisa nova, por isso, √© uma boa altura tamb√©m para mudar. E, entretanto, viemos para os Pa√≠ses Baixos, na altura eu vim ainda sem trabalho, mas j√° estava a procurar trabalho em Portugal. Comecei a procurar trabalho, entretanto fui a umas entrevistas c√° e depois acabei por ficar na empresa onde estou neste momento. Mas a adapta√ß√£o foi tranquila, apesar de n√£o falar a l√≠ngua oficial ser o hol√Ęndes, eles falam todos os ingl√™s perfeitamente, mesmo muito muito bem, mesmo em supermercados ou alguma coisa desse g√©nero eles falam sempre em ingl√™s, por isso n√≥s n√£o sentimos aquela barreira lingu√≠stica. Claro que se n√≥s soub√©ssemos o hol√Ęndes era o ideal, mas o ingl√™s funciona perfeitamente. Depois em termos culturais √© bastante diferente, o mindset deles √© bastante diferente do nosso, eu sinto que n√£o h√° tanta press√£o no trabalho para fazer as coisas e sinto que eles aproveitam, se calhar, um bocado mais a vida. Por exemplo, uma das coisas que eu sinto falta e que me custa mais √© o sol, porque n√£o h√° muito sol e chove muito e est√° frio, ent√£o sempre que h√° um raiozinho de sol eles saem logo para aproveitar e tentam aproveitar ao m√°ximo. Mas pronto, isso √© uma das coisas que me custa mais na adapta√ß√£o, no ficar c√°, √© mesmo a meteorologia porque n√£o √© muito parecida √† portuguesa e tamb√©m a comida, porque eles n√£o t√™m muita cultura tamb√©m nesse sentido. Mas tirando isso, sinto que √© tamb√©m um bocado dif√≠cil fazer amizade com holandeses, porque eles s√£o de c√°, t√™m o seu grupo de amigo, √†s vezes n√£o s√£o muito abertos para isso, mas felizmente aqui tamb√©m h√° muita gente de outros pa√≠ses, muita gente de Portugal, ent√£o acabas por fazeres amizades com outras pessoas de outras culturas mais parecidas como os italianos, espanh√≥is, mas tamb√©m os Portugueses que c√° est√£o e tem mesmo muitos Portugueses onde eu estou tamb√©m, por isso, acaba por fazer com que a adapta√ß√£o seja um pouco mais f√°cil. Claro que n√≥s sentimos sempre falta da fam√≠lia, dos nossos amigos, mas tentamos sempre fazer com que a coisa funcione.

[Entrevistadora]: Sim, isso de facto é verdade, também fiz um curso de verão, na Holanda, no verão passado e senti muito isso. Apesar da língua não ser uma barreira, porque eles falam muito bem inglês, mesmo os mais idosos, mas de facto, o tempo e a comida, sim. Falando agora sobre o teu cargo atual, como tivestes conhecimento dessa oportunidade, referiste que foste para a Holanda sem um posto de trabalho, mas começaste a procurar, como tiveste conhecimento da oportunidade? E qual o teu papel na mesma? E consideras que o teu percurso académico, o background em engenharia biomédica te forneceu as ferramentas necessárias para desempenharem a função que tens e se achas que alguma das ferramentas que adquiriste ao longo do teu curso, que foi mais importante ou que se sobressaiu aquando do teu recrutamento, ou processo de seleção?

 

[Entrevistada]: Sim, eu comecei a pesquisar em ind√ļstria e tamb√©m na academia, tamb√©m tinha, na minha cabe√ßa, realizar um pos-doc. Mas comecei a pesquisar mesmo no Google, empresas Biotech, mais na √°rea onde eu iria viver, em princ√≠pio. Eu vivo no sul da Holanda e esta √°rea √© mais tecnol√≥gica, mais virada para IT e engenharia em si, enquanto no norte √© mais sa√ļde e farmac√™utica. Procurei especificamente por empresas Biotech, usei tamb√©m muito o LinkedIn, existem muitas oportunidades de emprego e aqui eles usam-no bastante, n√£o s√≥ aqui mas noutros pa√≠ses tamb√©m. Usam bastante essa ferramenta para encontrar pessoas. E depois foi tentando, enviei muitos curr√≠culos, muitas cartas de motiva√ß√£o, mas por acaso a empresa onde fiquei foi das primeiras que contactei e foi a que me respondeu logo no in√≠cio, tentou logo marcar entrevista. Mas eu vim na altura do Ver√£o, Agosto, ent√£o atrasou um bocadinho o processo, estavam muitas pessoas de f√©rias, mas em dois meses consegui o trabalho. Tamb√©m acho bom fazer esta pausa, especialmente depois do doutoramento que √© uma coisa pesada, antes de come√ßar no mundo do trabalho ou numa empresa que √© um ambiente muito diferente. Acabei por escolher esta empresa tamb√©m pela hist√≥ria da empresa, √© uma empresa muito pequenina, n√£o tem nada a ver com aquelas farmac√™uticas gigantes e foi criada por pacientes, que foram diagnosticados com esclerose lateral amiotr√≥fica, aqui na holanda, s√£o holandeses e n√£o h√° cura para essa doen√ßa, ent√£o tentaram fundar uma empresa que os conseguisse ajudar. Eles s√£o empres√°rios, ricos, tinham dinheiro, mas n√£o tinham ningu√©m que pudesse ajuda-los numa coisa que o dinheiro n√£o paga que √© a sa√ļde. Ent√£o contactaram a minha chefe e criaram esta empresa, j√° h√° dez anos. Mas continua a ser sempre uma empresa muito pequena, foi muito focada neles, nos pacientes e acho que a hist√≥ria da empresa me tocou bastante porque sempre desde o meu doutoramento e do meu mestrado, eu sempre estive muito focada em fazer alguma coisa para algu√©m e ent√£o sinto que √†s vezes a academia √© muito lenta e muito ‚Äúpara os papers‚ÄĚ, e √© pouco focada no paciente. Esta empresa pensa sempre no paciente, claro que tamb√©m vai demorar, mas tamb√©m d√° outra motiva√ß√£o, foi por isso que acabei por ficar na empresa e n√£o continuei na academia. Em rela√ß√£o ao background em Eng. Biom√©dica, foi muito √ļtil porque eu sinto que Eng Biom√©dica √© muito vasta, ou seja, n√≥s sabemos um bocadinho de v√°rias coisas, de parte de engenharia, parte de ciencia, parte de farm√°cia, depois tamb√©m dependendo do que fazemos no mestrado, podemo-nos focar mais numa √°rea ou mais noutra. Depende tamb√©m da tese, mas como esta empresa onde eu trabalho, ela vai desde a fase pr√©-cl√≠nica, ou seja, o desenvolvimento de novos f√°rmacos, at√© √† fase cl√≠nica onde testamos os novos f√°rmacos em humanos. Existem v√°rias √°reas da empresa onde eu poderia trabalhar desde a fase de formula√ß√£o at√© √† fase de desenvolvimento, toxicologia, parte cl√≠nica. Ent√£o acho que o background de j√° ter feito um pouco de tudo, aprendido esta t√©cnica, ajudou com que eu encaixasse bem na equipa, porque, como eu disse, √© uma empresa pequena, o meu papel √© translational scientist porque eu tento desenvolver uma formula√ß√£o para passar para a cl√≠nica. Mas na realidade eu fa√ßo bem mais do que isso, eu escrevo Grands, eu trabalho tamb√©m no ensaio cl√≠nico, trabalho com patentes, eu fa√ßo budgeting, fa√ßo planning. Acaba, assim, por me dar uma polival√™ncia, eu acho, para fazer mais do que uma coisa. Claro que h√° pessoas que gostam mais de fazer isto ou s√≥ este tipo de trabalho, mas como √© o meu primeiro emprego em ind√ļstria, acho que √© bom aprender um bocadinho de tudo e, se realmente eu quero continuar na ind√ļstria, quanto mais eu aprender melhor. Acaba por ir de encontro ao nosso background, sabemos um bocadinho de tudo. Acho que pode ser melhor para o futuro tamb√©m, porque estamos a evoluir, a criar a nossa experi√™ncia e a definir aquilo que realmente nos queremos especializar no futuro.

 

[Entrevistador]: Sim, certo. Falando se calhar um bocadinho mais sobre o doutoramento, geralmente, é visto como algo que acarreta uma certa especialização numa determinada área. Consideras que isso foi, se calhar, um obstáculo ou uma dificuldade ao ingressar no mundo do trabalho? Ou, achas que até foi uma mais valia? E não sei se queres abordar também o tema que referiste à bocadinho, a tua motivação para não teres seguido uma carreira académica, acho que é um tópico bastante interessante também.

 

[Entrevistada]: Eu acho que em Portugal, se calhar, seria um pouco mais dif√≠cil. Depois de acabar o doutoramento n√£o tentei, n√£o concorri a nenhuma vaga em Portugal, mas pelo que sei dos meus colegas de doutoramento, sei que √©s mais dif√≠cil ser reconhecido como doutorado, podes conseguir o emprego que queres mas n√£o ser√°s valorizado, mesmo monetariamente. Enquanto aqui, senti que foi uma mais valia, eles buscam muito pessoas especializadas. Tamb√©m em termos de p√≥s doc, tamb√©m existem muitas ofertas, ou at√© mesmo em termos de ind√ļstria. Eu estou numa zona com pouca ind√ļstria na nossa √°rea, mas de colegas que conhe√ßo mais do norte, sei que tamb√©m s√£o valorizados por isso. O que sinto muito da empresa onde estou, pode ser uma exce√ß√£o, mas pelo que ou√ßo falar √© muito do que acontece aqui, tu √©s valorizado pelo teu trabalho, valorizam a tua opini√£o e aquilo que fazes. Nesse sentido, acho que foi valorizado e foi uma mais valia, mas se calhar, noutros pa√≠ses como Portugal, seria mais dif√≠cil conseguir um emprego que te valorizassem pelo teu grau. Uma vez mais, n√£o tentei, mas pelo que sei dos meus colegas, √© mais dif√≠cil.


Sobre o que estavas a dizer, da minha motiva√ß√£o, se j√° come√ßou desde o mestrado, tive um professor mesmo muito inspirador na altura do mestrado. Fiz o primeiro ano e n√£o sabia bem o que queria fazer e depois das aulas dele eu decidi ‚Äúquero fazer com ele, gosto muito disto‚ÄĚ, porque ele me inspirava bastante. Nas aulas ele falava muito nos pacientes e naquilo que poder√≠amos fazer por eles e eu sempre tive isso na minha cabe√ßa, gostava de fazer algo para ajudar algu√©m. No meu doutoramento, que √© uma fase muito complicada, que exige muito de n√≥s, senti que por muito que te esforces, √© dif√≠cil que as coisas cheguem aos pacientes. H√° falta de dinheiro e depois temos de escrever uns artigos, conseguir umas grants e at√© as coisas chegarem e passarem, demora muito tempo e acho que a maior parte dos trabalhos n√£o passa a academia. Isso deixa-me triste e ao mesmo tempo desmotivada porque eu gosto de fazer ci√™ncia, investiga√ß√£o, mas gosto de saber que o trabalho que eu estou a ter vai ter impacto na vida de algu√©m, mesmo que muito pequeno. E ent√£o depois, com a hist√≥ria desta empresa, eu realmente achei que o m√≠nimo que eu fizesse ia, de alguma forma, ter impacto na vida de algu√©m. √Č uma empresa, somos 5 pessoas, mas eu fui a terceira pessoa a ser contratada, e nestes anos eles evolu√≠ram desde nada para um medicamento que j√° est√° em fase 3 e no final deste ano, se tivermos bons resultados, vai passar para o mercado. Ent√£o, com poucas pessoas, pouco dinheiro, conseguimos fazer alguma coisa. Estamos todos focados em ajudar algu√©m e √© isso que me motiva mais. Eu conhe√ßo os pacientes que fundaram a empresa e eles j√° est√£o num estado avan√ßado da doen√ßa. Apesar de terem perdido a mobilidade continuam conscientes e eles falam atrav√©s de intelig√™ncia artificial, usam os olhos e est√£o muito orgulhosos daquilo que estamos a fazer, e isso √© algo que nos motiva. Estamos a tentar com Alzheimer tamb√©m, por exemplo, tenho dois projetos com essa doen√ßa e sinto que o pouco que fa√ßo e o que tentamos fazer. N√≥s sobrevivemos, √† base de grants, mas at√© h√° entidades norte americanas que v√™m ter connosco por causa do nosso trabalho e isso acaba por nos motivar tamb√©m. Acho que tamb√©m d√° confian√ßa para continuar a trabalhar, n√£o √© so acordar e ir trabalhar, claro que n√£o √© todos os dias, h√° sempre coisas mais chatas de fazer, mas tento pensar sempre nisso quando me sinto mais desmotivada.

[Entrevistadora]: Olhando, agora, para o todo o teu percurso até ao momento,  se soubesses o que sabes hoje, terias feito alguma coisa diferente? E houve algo que não correspondeu exatamente às tuas expectativas num dado momento da carreira?

 

[Entrevistada]: Essa √© uma pergunta dif√≠cil porque acho que n√≥s nunca sabemos como seria se tiv√©ssemos feito de forma diferente. √Č dif√≠cil, eu acho que, se calhar, teria dado mais espa√ßo entre o mestrado e o internship e depois comecei como research assistant e logo a seguir doutoramento, isto sem pausas desde que vim de newcastle. Devia ter descansado mais, mas n√£o queria perder a oportunidade. Mas √†s vezes d√° para negociar e esperar um pouco mais. O doutoramento √© exaustivo. S√≥ aconselho realmente a fazerem se realmente quiserem ou se o cargo depender desse doutoramento, se quiseres ser professor universit√°rio ou algum cargo mais s√©nior numa empresa. Mas se n√£o for isso que tu queres fazer da vida, n√£o vale a pena porque vais te cansar imenso, vai ser cansativo e n√£o vai valer o esfor√ßo para a tua carreira futura. Se calhar, aquilo que teria feito diferente, pensando agora e olhando para tr√°s, seria, depois do mestrado, se calhar tentar, ou‚Ķ Porque acabei o mestrado e comecei como research assistant, mas j√° tinha concorrido a doutoramento, ou seja, j√° estava √† espera de resposta, s√≥ trabalhei durante alguns meses. Acho que teria trabalhado mais tempo, quer seja na academia ou quer fosse tentar numa empresa, s√≥ para perceber bem aquilo que eu queria. Se calhar eu ia encontrar um trabalho que tamb√©m gostava muito e n√£o precisava de estar a fazer doutoramento depois no final.
São 4 anos, veio o covid foram 5, com 5 anos consegues ter muita experiência numa empresa ou muita experiência na academia, num laboratório. E isso depois pode dar mais valias para o futuro. Às vezes eu comparo com outros colegas que não fizeram doutoramento, já estão a trabalhar há mais 5 anos do que eu e vemos algumas diferenças. Por isso, acho que às vezes há pessoas que fazem uma coisa a seguir à outra e se calhar não pensamos muito bem, falo por mim própria também, se é realmente isto que queremos para o nosso futuro ou se precisamos. Acho que teria tentado um trabalho e visto. Eu sempre fui um bocado indecisa naquilo que eu queria por isso, para saber o que realmente eu gostava mais de fazer.

 

[Entrevistador]: Certo, muito bem! Num tom de conclusão, que conselhos, se calhar, darias a quem quer realizar experiências a nível internacional, quer a nível do doutoramento, ou até mesmo no mercado de trabalho?

 

[Entrevistada]: √Č preciso algum estofo, no in√≠cio, principalmente se for sozinho, acaba por haver v√°rios momentos solit√°rios porque nem tudo corre bem. Eu tenho muita experi√™ncia de laborat√≥rio e as experi√™ncias d√£o muitas vezes errado porque a ci√™ncia evolui mas n√£o evolui assim, h√° muita coisa que n√£o funciona e isso acaba por desmotivar. Mas ao mesmo tempo podes ganhar muito com isso, as viagens que fazes, as culturas que conheces, as pessoas, as amizades e mesmo as pessoas para a tua rede de contatos profissional, acho que √© muito importante. √Äs vezes o Know who √© melhor que o Know How ou mais importante que o Know How. Acho que √© mesmo importante conhecer as pessoas da tua √°rea, porque colabora√ß√Ķes, ajudas, ‚ÄúOlha conheces esta pessoa que conhece aquela pessoa‚ÄĚ e assim conseguimos o que precisamos. √Č como costumamos dizer, uma m√£o lava a outra. Mas ao mesmo tempo tamb√©m acaba por te enriquecer muito a n√≠vel profissional, porque aprendes t√©cnicas novas, melhoras as nossas hard skills mas tamb√©m as soft skills, tens de fazer amigos novos, mas ao mesmo tempo acaba por te dar mais oportunidades e acaba por dar uma progress√£o na carreira para o futuro. Por isso, eu acho que √© uma coisa muito boa de se fazer e aconselho toda a gente a fazer, nem que seja s√≥ uma vez, por um curto espa√ßo de tempo, como eu fiz. Eu fiz as missions, de um m√™s, n√£o √© muito tempo uma pessoa aguenta fora esse tempo e consegue perceber se √© aquilo que gosta, que n√£o gosta, e ao mesmo tempo melhora o curr√≠culo e aprende coisas novas.

 

[Entrevistador]: Certo! Bem, chegamos, então, ao fim e resta-me, então, agradecer-te Andreia, a tua amabilidade e disponibilidade em partilhar a tua experiência hoje. Foi um prazer ficar a conhecer mais sobre as tuas vivências e, certamente, acho que inspiraste todas as pessoas que nos estão a ver em casa. Aguardem novidades! Obrigado!

 

A ANEEB agradece por teres aceite esta entrevista e pela partilha da tua experiência fora de Portugal, esperando com isto ajudar outros estudantes que estejam prestes a tomar esta decisão. Votos de sucesso!