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Biomédicos

Entrevista a Isabel Marinho

Isabel Marinho

Douturada em Ciência e Engenharia de Materiais pela Universidade de Aveiro

A ANEEB teve o prazer de entrevistar Isabel Marinho! A Dra. Isabel Marinho é uma profissional com um percurso muito rico, tendo iniciado os seus estudos universitários com um Mestrado Integrado em Engenharia Biomédica na Universidade do Minho. Durante o mesmo, estagiou na Noruega assim como na Universidade de Sydney. Prosseguiu os seus estudos e tirou um Doutoramento em Ciência e Engenharia de Materiais, tendo também frequentado a Universidade de Boston

[Entrevistadora] – Patrícia Gomes (ANEEB)
[Entrevistador] – Adriana Santos (ANEEB)

 

 
Vê aqui a Entrevista completa!

[Patrícia Gomes]: Olá a todos e sejam bem-vindos a mais um episódio de “Biomédicos pelo Mundo”. O meu nome é Patrícia Gomes e sou colaboradora do Departamento de Formação e Saídas Profissionais da ANEEB e estou acompanhada pela Adriana Santos que pertence ao Departamento de Ensino e Ação Social da ANEEB. 

No episódio de hoje, temos a honra de receber a Dra. Isabel Marinho. A Dra. Isabel é uma profissional com um percurso muito rico, tendo iniciado os seus estudos universitários com um Mestrado Integrado em Engenharia Biomédica na Universidade do Minho. Durante o mesmo, estagiou na Universidade de Ciências e Tecnologia da Noruega assim como na Universidade de Sydney, experiências que certamente moldaram a sua visão e paixão pela área. Prosseguiu os seus estudos e tirou um Doutoramento na Universidade de Aveiro, em Ciência e Engenharia de Materiais, tendo também frequentado a Universidade de Boston. Atualmente, tem conhecimentos avançados em Biomateriais e Engenharia de Tecidos.

Antes de mais, gostaria de agradecer por ter aceite este convite para estar aqui connosco. Diante deste percurso notável na Engenharia Biomédica, gostaria de começar por  perguntar de que modo surgiu a paixão por este curso. Por exemplo, se foi alguma disciplina em concreto ou uma experiência marcante que alavancou esta escolha.

[Isabel  Bjørge]: Antes de mais, olá a todos os que estão a ouvir, e obrigada pelo convite. Na altura em que acabei o secundário, estava um pouco perdida. Tinha boas notas, mas sabia que não queria medicina. A minha tia é médica e, na altura, quase fui para biotecnologia. Ela falou-me mais sobre essa área e, como gostava de ciências e matemática, incentivou-me a ir para biomédica. Estou muito contente com a escolha e com o facto de ter ido para Braga, por estar a ser mais independente do que se tivesse entrado na FEUP, como queria inicialmente. Adorei toda a experiência.

[Adriana Santos]: Passando para outro aspeto que certamente será interessante, gostaríamos de saber o que a incentivou a fazer estágios fora de Portugal, mais concretamente na Universidade de Sydney e na Noruega. 

[Isabel  Bjørge]: A minha mãe sempre me incentivou a ter uma carreira internacional. Ela fez o seu mestrado nos Estados Unidos, era pianista e viveu também alguns tempos na Noruega, então sempre me encorajou a ir para fora, a sair da zona de conforto. Antes mesmo de decidir o curso já sabia que eventualmente iria para fora. No caso da Noruega, como sou meia norueguesa e nunca lá vivi, achei que seria uma boa oportunidade para o fazer. Como não havia parcerias entre as universidades, falei com o professor, que veio a ser mais tarde o meu orientador, sobre o meu gosto de ir para a Noruega. Começamos a triar uma possível parceria, que acabou por acontecer. Quando já tinha as coisas todas alinhavadas com a minha ida no primeiro semestre, apareceu também a oportunidade de ir para a Universidade de Sydney. O timing foi perfeito porque no primeiro semestre estaria na Noruega, mas no segundo semestre já estaria de volta a Portugal. Este intercâmbio resultou da parceria da Universidade do Minho, juntamente com outras duas universidades europeias, a Universidade de Sydney e a Universidade Brisbane. Era especificamente para a minha área, o ramo de materiais. Adorei ter estas experiências no meu quinto ano, apesar que a minha tese acabou por não ser tradicional, porque trabalhei para uma tese de meio ano na Noruega, depois trabalhei em algumas coisas no Minho que a acabaram por ser publicadas, e por fim na Austrália participei num artigo de revisão e noutros projetos completamente diferentes. Se calhar, várias pessoas vêem como desvantagem não ter tido uma linha de trabalho continua, sempre na mesma coisa, mas eu vejo como uma vantagem.

[Patrícia Gomes]: De facto acredito que tenha sido uma experiência muito boa. E achas que foi fácil fazer estas parcerias ou deu algum trabalho? 

[Isabel  Bjørge]: Para a Universidade de Sydney, só tive de me candidatar e depois houve a fase de entrevistas, carta de apresentação, ir lá por causa do visto, parte burocrática e de reflexão. Para a Noruega, foi com o programa Erasmus e, na altura, não havia muitas pessoas que queriam ir de Erasmus, então conseguimos todos ir. Tive de ser proativa, escolher um orientador e dizer que gostava de ir para a Noruega, e lá foi possível. E o orientador acomodou os meus pedidos.

[Adriana Santos]: Diria que a sua experiência esteve à altura das suas expectativas, ou houve alguma coisa que a tenha desiludido em algum aspeto?

Isabel: Não, de todo! As duas experiências foram fantásticas, claro que é difícil sair da zona de conforto. Na Noruega estava na residência dos estudantes, por isso, foi muito fácil arranjar amigos. Vivia com mais 3 amigas também vindas do projeto de Erasmus, o que ajudou imenso. No caso da Austrália, como havia 3 vagas, fui com mais 2 colegas que também ajudaram bastante para a ambientação inicial. 

[Patrícia Gomes]: Passando agora a um outro ponto, mais especificamente sobre o teu atual trabalho, poderias falar um pouco mais sobre o que está a fazer neste momento e sobre a empresa em que se encontra? Em que projetos e desafios atuais estás envolvida?

[Isabel  Bjørge]: Sim, claro. A empresa onde trabalho agora é a Meatable, que em português significa carne de laboratório ou ‘cultivated meat’ em inglês. Na altura em que acabei o doutoramento, não sabia bem o que queria fazer, mas gostava muito de engenharia de tecidos e materiais, especificamente da interface entre os materiais e as células. Comecei a ouvir falar sobre esta área e decidi que gostaria de experimentar, porque é engenharia de tecidos e a aplicação acaba por estar mais próxima do que, por exemplo, um dispositivo médico, que faz com que acabemos por esperar 10 a 15 anos para chegar ao mercado. No entanto, até chegarmos ao mercado vai demorar, mas parecia algo mais imediato.

Na empresa, sou cientista e estou lá há dois anos e já passei por muitos projetos diferentes. É uma startup, apesar de ter 90 pessoas, e acabamos por fazer um pouco de tudo. Trabalho sempre com células, mas já estive mais na parte de materiais e envolvida com biorreatores de diferentes escalas. Quando estava a estudar, um ‘spinner flask’ de 50 ml era um biorreator, e aqui temos de 40 L. Já estive no desenvolvimento de meio, pois um grande problema desta área são os custos. No lado da medicina personalizada, não é um problema, mas aqui é preciso baixar o custo. Gosto de experimentar coisas diferentes e sinto que estou sempre a aprender, como sempre quis. Foi também por isso que fui para o doutoramento. Estou a gostar muito da experiência, adoro o país, e as pessoas também são curiosas como os portugueses. Além disso, é pertinho de casa.

[Adriana Santos]: Sente que a Engenharia Biomédica é mais valorizada na Holanda e nos restantes países por onde passou do que em Portugal?

[Isabel  Bjørge]: Em Portugal só tive experiência na academia, e a verdade é que em termos académicos temos grupos fantásticos. Se eu quisesse ter continuado na academia poderia tê-lo feito perfeitamente, mesmo no grupo em que estive a trabalhar, com o professor João Mano na universidade de Aveiro, porque tínhamos condições e financiamentos ótimos. Mas a nível de indústria sinto que há pouca coisa. E depois meti na cabeça esta área de cultivated meat, e ainda por cima, em Portugal não havia nada nessa época, então acabei por ir para fora. Sempre quis trabalhar na indústria, como me ofereceram-me um contrato de 1 ano, decidi experimentar para ver se gostava. 

[Patrícia Gomes]: Muito obrigada, e passando a outra pergunta como comparas o estilo de vida que já viveste ao de Portugal? Sentes que foi difícil adaptar-se às línguas e culturas novas?

[Isabel  Bjørge]:  Só quando vim para a Holanda é que tive problemas com a barreira linguística, porque falo fluentemente norueguês e em Boston e em Sydney era inglês. Mas, na verdade, aqui na Holanda todos falam inglês. Estou aqui há dois anos e é fácil comunicar sem saber holandês. Culturalmente, não sabia bem o que esperar, mas fiquei surpreendida, pois as pessoas são bastante abertas e mais diretas do que os portugueses. É um pouco mais difícil criar amizades mais profundas, mas com o tempo consegue-se. Como há muitas pessoas internacionais, é sempre mais fácil encontrar pontos de interesse comuns. Na Austrália, como estava com mais estudantes, não percebi bem como é a vida de um australiano, e nos EUA estive lá durante a COVID, então foi difícil. O que ajudou foi a comunidade portuguesa, que é muito grande em Boston.

[Adriana Santos]: Sendo assim, o que aconselha a todos os alunos que pretendam ter experiências académicas ou profissionais fora de Portugal?

[Isabel  Bjørge]: Eu acho que é ser proativo. Se vocês querem e têm o bichinho mandem-se, mas não vai ser fácil. A minha ida para os Estados Unidos foi a mais complicada, porque era a época do covid, e não podia vir a Portugal nem receber visitas. É normal terem medo, mas quem não arrisca não petisca. É uma experiência muito valiosa. Não precisa de ser por temporadas grandes. No processo acabas por descobrir imenso sobre ti mesmo e pode até ser um pouco solitário, mas aprendes a gostar de passar tempo contigo mesmo.

Sejam proativos, falem com orientadores, ou por exemplo se quiserem ir para Boston falem comigo que eu posso dar as minhas dicas e contactos.

[Patrícia Gomes]: Fica aqui a dica para os nossos espectadores. Já estamos quase a chegar ao fim da nossa entrevista, mas antes de terminarmos gostaríamos de perguntar se considerarias voltar para Portugal no futuro.

[Isabel  Bjørge]: Definitivamente quando me reformar, mas antes disso não sei porque não tenho um plano assim tão definido. As oportunidades vão surgindo, por enquanto estou bem aqui, claro que a parte difícil é ter a família e amigos longe, mas por enquanto ainda me compensa estar aqui, mas talvez daqui a 5 anos volte a Portugal, mas honestamente não sei, vamos descobrir.

[Adriana Santos]: Chegamos ao fim da nossa entrevista, mas não poderia deixar de agradecer novamente pelo seu tempo e disponibilidade. Foi um prazer ouvir as suas palavras e, com certeza, conseguiu inspirar alguns dos que nos ouvem a experimentar um percurso diferente.

[Patrícia Gomes]: Agradeço também a tua disponibilidade e acredito que as tuas palavras foram muito inspiradoras, potencialmente incentivando os ouvintes a considerar novos percursos. Muito obrigada.