Nos dias 17 e 18 de setembro decorreu a Conferência Nacional de Engenharia Biomédica organizada pela ANEEB. Este evento realizou-se presencialmente na sede da Ordem dos Engenheiros no Porto e ofereceu aos seus participantes uma série de roundtables, entrevistas e debates que se debruçaram sobre a Engenharia Biomédica e o seu ensino.

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Ensino de Engenharia Biomédica: Nacional vs Internacional

Durante este painel tivemos como oradores Miguel Morgado, licenciado em Engenharia Física (ramo de Instrumentação) e doutorado em Física (especialidade Física Tecnológica). Atualmente, é Professor Associado do Departamento de Física da Universidade de Coimbra e o Coordenador do Doutoramento em Engenharia Biomédica da Universidade de Coimbra. É investigador sénior e membro da comissão executiva do CIBIT – Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional e ainda co-fundador de várias empresas de base tecnológica; Frederik Maes, mestre em Engenharia Eléctrica pela KU Leuven, mestre em Engenharia Eléctrica pela Universidade de Stanford, e doutor em Engenharia Eléctrica pela KU Leuven. É o chefe da divisão ESAT/PSI e investigador no Centro de Investigação de Imagens Médicas do hospital universitário UZ Leuven. Leciona cursos sobre imagem médica e análise de imagem médica no programa de Mestrado em Engenharia Biomédica da KU Leuven do qual é diretor desde 2020; Puja Varsani, Professora associada no departamento de Engenharia de Design e Matemática na Universidade de Middlesex, Londres. Líder do módulo de prática de design do programa BEng/MEng Engenharia Biomédica. Como moderador tivemos Pedro Ribeiro, titular do BEng Engenharia Biomédica na Universidade de Middlesex, Londres. Encontra-se a concluir o mestrado em Engenharia Biomédica na Escola Superior de Biotecnologia (UCP).

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Este debate permitiu distinguir as diferenças e semelhanças, bem como, o futuro da Engenharia Biomédica (EB) entre as várias instituições e países. Começando por perceber, por exemplo, as maiores dificuldades em educar os estudantes dada a grande abrangência da Engenharia Biomédica. Realçou-se e explorou-se o facto de que isso permitia mais colaboração entre especialistas e notou-se que, no geral, as instituições tentavam favorecer um estilo de ensino mais prático, apesar de ainda não ser suficiente. 

Tanto a Professora Puja como o Professor Frederik defendem que as instituições deveriam incentivar a integração dos estudantes em projetos alargados durante a licenciatura, substituindo a quantidade de exames que ainda se verifica. 

A grande abrangência que EB tem, aliás, segundo os professores convidados, é que permite criar mais oportunidades para os alunos de explorarem áreas que possam vir a gostar, bem como de participarem em projetos com colaboração de especialistas diversificados, contudo, o professor Miguel Morgado fez notar que poderiam surgir dificuldades em certas áreas de investigação, dado que as universidades podem-se focar mais numas do que noutras e ainda que, em trabalhos com colaboração com os hospitais existem grandes limitações. Já a Professora Puja também aponta um problema nesse sentido, que é a dificuldade de as universidades darem as capacidades necessárias.

O Professor Miguel Morgado fez notar também a importância do envolvimento dos estudantes em atividades extracurriculares e que era uma enorme lacuna das universidade tal ainda não ser totalmente incentivado. Todos os professores concordaram que ainda está muito à responsabilidade dos alunos de tentarem colmatar essa falha e a importância do envolvimento extracurricular para fortalecer o CV. O Professor Frederik fez menção ao ensino na Bélgica que já reserva um número de ECTs precisamente para projetos extra-curso.

Nesse sentido e, abrindo o debate sobre aquela que é ainda a visão de um Engenheiro Biomédico nas empresas, a professora Puja lamentou que as empresas não tenham noção do que faz uma pessoa formada em Engenharia Biomédica e quais são as capacidades que adquiriu durante a sua formação. Acrescentou ainda que cabe aos estudantes formados em EB forçar o seu lugar no mundo da saúde, dado que a área ainda está sub representada. Só assim se poderia promover as suas capacidades enquanto membros da comunidade médica. Tanto a Professora como o Professor Frederik reforçaram que, para isto, programas de intercâmbio são extremamente importantes.

Para terminar, os três professores concordaram que os estudantes formados em EB são portadores de diversas capacidades, pensamento analítico e grande versatilidade a situações complexas e diversas. Contudo, as universidades têm de se esforçar mais para permitir aos estudantes serem integrados desde cedo em projetos que os permita colocar em prática o conhecimento adquirido logo no início da sua formação.

Engenheiros Biomédicos e Sucesso: Deixa-te Inspirar!

Esta sessão foi moderada por Filipe Mealha e contou com a participação de Luís Valente, Carlos Honrado e Luís Rita.

O início desta sessão demarcou-se por cada interveniente elaborar o trabalho que desenvolveu ao longo do seu percurso. Luís Valente fala da sua experiência em várias áreas e culminar na fundação da ILoF, uma empresa dedicada à redução de custos no desenvolvimento de medicamentos personalizados; Luís Rita é cofundador da Cycle AI e atualmente realiza o seu doutoramento em medicina computacional no Imperial College London; Carlos Honrado trabalha no INL em investigação no cancro do colo retal.

Um tema de reflexão proposto nesta sessão foi a escolha de um doutoramento enquanto percurso profissional. Os intervenientes mencionaram que a realização de um doutoramento permite financiamento dos seus projetos, o refinamento contínuo dos mesmos, e também a pareceria existente entre a academia e a indústria e qual a escolha a realizar entre ambas de modo a potenciar a resolução dos problemas que motivaram a criação dos seus projetos.

Durante esta sessão, elaborou-se no modo como o ambiente de investigação foi desenvolvido ao longo do tempo. Cada vez menos o trabalho de investigação é feito isoladamente, sendo necessário estabelecer parceiros paralelos com empresas, start-ups, entidades académicas, entre muitas outras. A formação individual serve de base para que esse trabalho possa ser desenvolvido, mas o trabalho é cada vez menos independente.

A experiência dos participantes no estrangeiro também foi alvo de discussão. Neste aspeto, foi acordado que a experiência noutros países potencia novas formas de encarar problemas e oferece novas perspetivas. No entanto, foi apontado que esta experiência não constitui uma chave imprescindível para o sucesso, ou seja, ter uma experiência num país diferente sem uma razão particular ou sem um projeto específico em mente é algo vago.

Acerca do futuro da Engenharia Biomédica, os intervenientes expuseram que cada vez mais se caminha para novos métodos de análise e de diagnóstico dentro da saúde. A multidisciplinaridade da Engenharia Biomédica permite identificar padrões ao nível da doença e a criação de algoritmos que auxiliam a decisão humana impacta a eficácia e a rapidez com a qual estas decisões são efetuadas. Gradualmente, caminhar-se-á para que estes algoritmos e métodos tecnológicos sejam cada vez mais personalizados, ao invés de apresentarem uma abordagem geral à saúde, permitindo a simbiose entre o ser humano e a tecnologia. Como exemplo, foi destacada a utilização do SNS 24, principalmente durante o período de pandemia.

O papel da Engenharia Biomédica na Inovação Hospitalar

Esta roundtable foi constituída por João Miguel Silva, Delfim Rodrigues, Ana Sofia Silva e como moderador Paulo Abreu.

Esta roundtable começou com uma questão relativa ao significado do valor em saúde, ao que Ana Sofia Silva explicou e deu vários exemplos da sua experiência no IPO. Esta explicação foi reforçada por João Miguel Silva que explanou o que a engenharia biomédica pode ajudar e contribuir para o valor em saúde.

De seguida, o orador Paulo direcionou a round table para o tema principal, que é a inovação hospitalar e a sua relação com engenharia biomédica. O professor Delfim começou por explicar a origem de ambos os termos e como estes se relacionam.

Posteriormente, Ana Sofia Silva explicou o que os engenheiros biomédicos podem vir a mudar o ambiente hospitalar pelas melhorias e inovações que podem trazer. Esta ideia foi reforçada e completada por João Miguel Silva que referiu que os engenheiros biomédicos não só podem mudar e adicionar novos instrumentos, mas também restruturar os processos já existentes de modo a otimizá-los.

Por fim, o professor Delfim Rodrigues explanou que muitos termos e definições são alterados ao longo do tempo, e que os engenheiros podem e devem procurar responder de forma diferente a perguntas já resolvidas, e que desta forma é possível trazer a inovação.

Como ter um ensino superior diferenciado?

A roundtable “Como ter um ensino superior diferenciado?” iniciou-se com uma breve introdução e apresentação de quatro engenheiros biomédicos, Beatriz Barros, Carolina Martins, Catarina Camarate e Henrique Pinto, todos eles com percursos únicos e experiências formativas e transversais distintas.

Numa primeira instância, Beatriz Barros elucida em que é que consiste o programa Almeida Garrett, criado há 13 anos pelo conselho de reitores das Universidades Portuguesas, do qual fez parte e que a possibilitou frequentar um semestre noutra faculdade.  Ao longo das suas intervenções, o maior conselho que deu foi o de gerir todas as oportunidades e investir numa variedade de experiências sem nunca perder a ambição.

No decorrer da roundtable, Henrique Pinto explica as particularidades do programa Erasmus em que participou: Erasmus Placement cuja mais-valia foi de realizar um estágio durante (inicialmente definido) meio ano e de ter a possibilidade de escolher o laboratório e o país de forma flexível. Confessa também que realmente a realidade no estrangeiro é bastante diferente da realidade nacional em termos de financiamento, cultura e enriquecimento formativo.

Ainda no mesmo tópico, Carolina Martins acrescenta que realmente no estrangeiro tornamo-nos pessoas mais resilientes, onde nos temos de desenrascar sozinhos, ganhamos bastantes skills e criamos uma maior rede de contactos que no futuro servirão para progredir na carreira. Admite também que, na experiência dela, no estrangeiro os docentes foram mais rigorosos e exigentes e os métodos de avaliação foram bastante eficientes.

De seguida, Catarina Camarate reforça que faz toda a diferença termos proatividade e perguntarmos e expormos os nossos receios e questões a quem nos consegue ajudar e elucidar. Acrescenta também que há o caminho principal de Engenharia Biomédica, mas há muitos subcaminhos e o essencial é aproveitarmos as experiências para percebermos o que realmente faz sentido para nós.

Por fim e respondendo às perguntas da audiência, os ex-alunos destacam a importância de realizar estágios profissionais, de sermos proativos, resilientes e de não termos medo de ir em busca das oportunidades.

Finalizado o evento, a ANEEB gostaria de agradecer a todos os participantes e oradores que tomaram parte neste evento, sempre na esperança de ter criado momentos de relevância para os estudantes de Engenharia Biomédica que ingressaram neste evento e puderam partilhar connosco estes momentos de discussão e de partilha de experiências.