Sérgio Pereira

A ANEEB teve o prazer de entrevistar Sérgio Pereira, mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade do Minho, Doutorado em Engenharia Informática pelas Universidades do Minho, Aveiro e Porto e atual trabalhador na start-up coreana Lunit. O Sérgio falou-nos acerca das suas experiências internacionais na Suíça e na Coreia do Sul.

[Entrevistadora] – Beatriz Lemos (ANEEB) 

[Entrevistado]Sérgio Pereira

[Entrevistadora] – Antes de falarmos sobre as tuas experiências internacionais, para te conhecermos melhor gostaria que falasses um bocado sobre ti, como foi o teu percurso académico e a razão pela qual escolheste Engenharia Biomédica.

[Entrevistado] – No final do secundário para mim ficou bastante claro que queria ir para uma engenharia, mas na verdade não tinha grandes, ou melhor, tinha interesse em várias engenharias, mas nada de muito particular. Gostava de física, de matemática e de biologia, e Engenharia Biomédica pareceu que combinava tudo o que eu gostava. Também gostava da ideia de trabalhar com pessoas e ter as pessoas através da engenharia e, portanto, fui para a Universidade do Minho, maioritariamente por uma questão de proximidade. 

[Entrevistadora] – Sei que fizeste um estágio na Suíça, o que é que te motivou para teres uma primeira experiência internacional e porquê a Suíça como o primeiro destino?

[Entrevistado] – Fiz esse estágio de investigação durante o Doutoramento e uma das principais razões foi realmente querer ter uma experiência no estrangeiro, uma vez não ter conseguido realizá-la durante o mestrado. Durante o doutoramento quis ter essa experiência até porque é uma safety net, digamos assim, poder ir por um determinado período de tempo, ou seja, vou 6 meses, mas sei que volto. É uma experiência interessante e controlada de certa forma, que também enriquece o próprio currículo. Um dos principais critérios que me levou a estagiar fora de Portugal foi o reconhecimento do grupo de investigação. Na altura o meu Doutoramento era na área de segmentação automática em tumores cerebrais e estava a utilizar um dataset público, o BraTS, que tinha um concurso associado com isso, onde as pessoas todos os anos concorrem para ver quem tem o melhor algoritmo e na altura os organizadores eram as pessoas da universidade de Bern reconhecidas na área de tumores cerebrais e métodos de machine learning para segmentação. Eu e o meu orientador decidimos contactá-los para a realização de um estágio e felizmente eles aceitaram. 

[Entrevistadora] – Por vezes existe algum receio em relação aos processos burocráticos que estão por trás de um estágio no estrangeiro. Sentiste essa dificuldade?

[Entrevistado] – Felizmente correu tudo bem, contudo existem algumas preocupações a ter em conta, por exemplo, no caso da Suíça eles exigiram que a pessoa tivesse a receber um contrato lá, o que torna automaticamente as coisas mais difíceis porque, como aluno de Doutoramento, eu queria ir para lá com o meu próprio financiamento. Se eles tiverem que financiar o estágio, a negociação torna-se mais difícil.  Além disso, para estar lá 6 meses precisava de um visto e de provar às autoridades suiças que, ou recebia x salário por mês, ou então que tinha poupanças suficientes que me garantisse uma média de um determinado valor por cada mês que pretendesse estar lá. Fui então pela segunda via e felizmente correu bem e consegui obter o visto. Se forem estágios dentro da União Europeia, penso que não haverá grandes problemas nesse aspeto.

[Entrevistadora] – Passando à segunda aventura, como e quando é que surgiu a oportunidade de ires para a Coreia do Sul trabalhar na Lunit?

[Entrevistado] – Vim para cá em janeiro de 2020 e comecei o processo em agosto do ano anterior. Basicamente eu candidatei-me, mas já conhecia a empresa há 4 anos dado que é uma empresa de imagem médica que também utiliza técnicas de deep learning e machine learning. Sempre achei interessante por ser uma start-up e mesmo assim fazerem investigação de elevada qualidade. A área de imagem médica nunca teve muitas empresas, mas agora com a introdução do deep learning começaram a surgir várias start-ups e a Lunit foi uma das pioneiras em comercializar produtos baseados em Inteligência Artificial. A experiência na Suíça teve um impacto bastante grande em mim porque o facto de ir para fora permitiu-me ver que posso fazer qualquer coisa e ir para qualquer país. Inicialmente parece um bicho de 7 cabeças, mas a pessoa vai, safa-se e corre tudo bem. Depois dessa experiência tive sempre a ideia de ir para fora, mas nunca pensei que fosse para a Coreia. Se não fosse a minha atual esposa não teria ido para a Coreia, teria ido para outro país da Europa ou para os Estados Unidos. O país em si foi um salto bastante grande. Mas por uma combinação de interesses, a própria empresa era da minha área do doutoramento e era uma start-up em crescimento, queria ter uma experiência no estrangeiro, e também por motivos pessoais, a ligação à Coreia era forte. 

[Entrevistadora] – No que é que consiste o teu trabalho na Lunit?

[Entrevistado] – Neste momento o meu trabalho é mais de gestão, mas quando vim para cá vim como investigador na área de Inteligência Artificial, ou seja, trabalhava no desenvolvimento de algoritmos de deep learning para a área médica, no meu caso no departamento de Oncologia. Na empresa há dois departamentos, o de Oncologia e de Radiologia. O departamento de Radiologia ocupa-se em detetar o cancro precocemente. O grupo de Oncologia utiliza imagem de microscopia com o prévio conhecimento de que a pessoa tem cancro, mas o tipo de tratamento para cancro pode depender muito da pessoa. Pode ir desde a quimioterapia à radioterapia e na última década desenvolveu-se bastante a imunoterapia, que melhora bastante a probabilidade de sobrevivência e a pessoa tem menos efeitos secundários. O único problema é que nem toda a gente é candidata a essa terapia e em alguns casos pode acelerar o desenvolvimento do cancro. E era nisso que trabalhava, analisar as imagens com recurso a deep learning para ver se a pessoa é candidata ou não a imunoterapia. Desde o início deste ano tive a oportunidade de assumir o cargo de vice-presidente de investigação deste grupo, agora estou mais na parte da gestão dos outros investigadores. Continuo a gostar de programar mas o meu dia-a-dia agora é mais coordenar outros grupos, falar nas linhas de investigação que vão solucionar os problemas que temos, perceber que problemas podem surgir com novos produtos, basicamente coordenar os esforços dentro da equipa de investigação. 

[Entrevistadora] – Como foram os processos burocráticos na ida para a Coreia?

[Entrevistado] – O processo do visto mudou bastante porque enquanto na Suíça fui como estudante, para a Coreia vim como trabalhador. Felizmente foi bastante suave, a própria empresa contratou outra empresa que ajudou a tratar do visto, tive muito pouco trabalho da minha parte. Para ter um visto na Coreia temos de ter uma empresa que patrocine a ida e que dê um contrato de trabalho. Se for o caso de um trabalho fixo, a empresa tem de justificar o porquê de contratar uma pessoa de fora se houver alguém do país a conseguir desempenhar essa função. Neste caso, possuir o grau de Doutoramento ajudou bastante, o Mestrado com experiência de trabalho também ajuda, pelo menos para ir para a área de investigação. Outro problema é o facto de existir vários tipos de vistos. Eu recebi um visto de investigador e apenas posso trabalhar nessa área, é bastante limitado. O próprio visto está associado à empresa, ou seja, se eu quiser mudar de empresa, a mesma tem de concordar com essa mudança. Daquilo que ouço de outros estrangeiros, essa questão não é normalmente um problema, mas a empresa pode recusar. Passado alguns anos na Coreia pode-se pedir um visto de residência e assim não se fica a depender da empresa.

[Entrevistadora] – Como lidaste com o choque cultural?

[Entrevistado] – Na Coreia o choque cultural foi muito maior. Como a Suíça é um país europeu os valores são mais próximos dos nossos, na Coreia é outro caso. Para começar, Seul é uma dimensão que não se compara com Portugal, tem 25 milhões de habitantes na área metropolitana, é um choque. Também senti o choque com a comida, para quem não gosta de comida picante pode ser um problema. Felizmente a minha empresa tem um ambiente bastante livre, o que é bastante próximo de um ambiente europeu. O que eu ouço de outras empresas é que o choque pode ser muito maior, trabalham muitas horas e o sistema hierárquico é muito estabelecido, onde as pessoas fazem aquilo que o chefe diz apesar de não concordarem. Mesmo dentro das famílias existe um sistema de hierarquia, onde tratam as pessoas mais velhas com um nome bastante específico. A idade tem um peso bastante elevado na interação entre as pessoas, onde as pessoas mais velhas são tratadas com mais respeito, mesmo que a diferença seja de um ano. Para concluir, os coreanos são pessoas divertidas, mas demoram o seu tempo a criar laços, eu senti isso pelo menos. Têm uma visão muito perfecionista e competitiva, ou seja, se não conseguirem falar inglês da maneira como acham que é da forma apropriada, simplesmente não falam.

[Entrevistadora] – Ia tocar mesmo nesse aspeto, como é que lidaste com a barreira linguística?

[Entrevistado] – Foi muito complicado. Consegue-se sobreviver com o inglês. Ao contrário das gerações mais velhas, as gerações novas falam inglês razoavelmente. Tenho mais dificuldades no acesso à informação, ainda usam bastante o coreano e nesse aspeto é uma barreira. Eles usam muito próprias aplicações feitas na Coreia, por exemplo, o Google Maps não funciona aqui, eles têm uma aplicação coreana e para me orientar tenho de escrever com os caracteres coreanos. A comunidade estrangeira ainda é pequena e por isso o coreano ainda domina. Às vezes temos reuniões e quando as pessoas sentem que não conseguem exprimir-se bem em inglês perguntam se podem falar coreano e torna-se complicado nesse sentido. Mas até agora tenho conseguido safar-me com o inglês, podia ser pior.

[Entrevistadora] – A nível de alojamento, tiveste dificuldade em conseguir?

[Entrevistado] – Na Suíça foi tranquilo porque fui para uma residência de estudantes e o sistema foi muito semelhante ao que temos em Portugal. Na altura paguei à volta de 600€ por um quarto, pode ser um problema porque o nível de vida na Suiça é bastante elevado. Foi um choque pagar 6€ por um café. Na Coreia eles têm um sistema único de arrendamento onde as pessoas pagam 80 ou 90% do valor comercial da casa e depois não pagam renda. Há outros sistemas em que pagas um depósito, mas depois pagas uma renda, sendo que o depósito é bastante alto, cerca de 15 mil €, o que em Portugal é impensável, costuma-se pagar 1 ou 2 meses de renda como depósito. É muito complicado principalmente para a juventude na Coreia porque quando se acaba o curso, quem é que tem 15 mil € ou mais para alugar uma casa? Raramente há sem deposito, mas a renda por mês é bastante elevada. Na zona onde estou resido, pago mais ou menos o que pagaria em Lisboa, sendo que na periferia da cidade os depósitos são mais baixos. O arrendamento na Coreia não é um processo fácil e quem tiver a considerar vir tem de ter em conta este aspeto.

[Entrevistadora] – Que conselhos darias às pessoas que estão a pensar ter a mesma experiência que tu?

[Entrevistado] – O melhor conselho é mesmo ir e não pensar muito no assunto. Vai ser difícil, partiu-me o coração despedir-me dos meus pais e dos amigos, as saudades são grandes. Mas depois uma pessoa adapta-se, conhece as pessoas e a cultura e as coisas vão-se fazendo. É importante ir a pensar “espero que corra bem, mas se não correr, posso voltar”. É importante ir com uma mentalidade aberta. Também é preciso ter cuidado com a questão dos vistos e do alojamento. Durante os processos de entrevista, também é importante ver se a empresa por onde se vai tem uma cultura que se alinha com os nossos valores. Na realidade vamos passar muito tempo a trabalhar e é importante ir para um sítio onde gostamos do trabalho, mas também do próprio ambiente. 

[Entrevistadora] – Só me resta agradecer-te por teres partilhado as tuas experiências e, em nome da ANEEB, desejo-te muito sucesso no teu futuro na Coreia do Sul!

[Entrevistado] – Muito obrigado!

A ANEEB agradece por teres aceite esta entrevista e pela partilha da tua experiência fora de Portugal, esperando com isto ajudar outros estudantes que estejam prestes a tomar esta decisão. Votos de sucesso