David Belo

A ANEEB teve o prazer de entrevistar David Belo, Mestre em Engenharia Biomédica, formado pela Universidade do Minho em 2007. O David falou-nos acerca da experiência que viveu nos Estados Unidos, enquanto realizava um estágio de alta performance no Frontier Development Lab da NASA. Atualmente é investigador e aluno de doutoramento na área de Inteligência Artificial aplicada a biosinais, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

[Entrevistadora] – Margarida Antunes (ANEEB)

[Entrevistado]David Belo

[Entrevistadora] – Antes de falarmos sobre o estágio, queria saber um bocadinho sobre si e como é que surgiu o interesse pela Engenharia Biomédica.

[Entrevistado] – Faço parte de uma das primeira colheitas da Engenharia Biomédica, fui um dos pioneiros. Terminei o curso em 2007 na Universidade do Minho. Escolhi Engenharia  Biomédica porque sempre tive 2 lados da minha vida. Por um lado, sempre gostei imenso de tecnologia, como trabalho em computadores, robótica, mecanismos eletrónicos, e tinha curiosidade em saber como é que as coisas funcionavam. Por outro lado, sempre tive vontade de ajudar os outros, e um gosto especial pela área da saúde. Quando apareceu o nome “Engenharia Biomédica” aliciou-me bastante, porque era a única coisa que fazia sentido para mim, e até hoje continua a ser. Quando terminei o curso, ninguém sabia o que é que era a Engenharia Biomédica. Acabei por entrar em consultoria durante um ano. Mas a minha veia de biomédica continuou a gritar, e então comecei um doutoramento no Instituto Superior Técnico, na área de Brain-Computer Interfaces. No entanto, como não tinha bolsa, foi um bocadinho custoso e acabei por sair passados 5 anos sem concluir o doutoramento. Após isto, comecei na Universidade Nova de Lisboa como investigador durante 1 ano, e depois passei a aluno de doutoramento. Neste momento, estou na fase de finalização do doutoramento.

[Entrevistadora] – Quando e como é que surgiu a oportunidade de estagiar na NASA?

[Entrevistado] – Foi muito interessante. A minha área de pesquisa atual é Deep Learning aplicado a sinais biológicos. Quando entrei na Nova, o meu orientador propôs-me um desafio: fazer uma rede neuronal que gerasse sinais biológicos. Na altura eu não sabia inteiramente a sua utilidade, até que mais tarde uma pessoa da NASA enviou-me um email a dizer que tinha lido o meu artigo sobre este projeto e estavam a pensar fazer algo do género para astronautas. Quando li esse email, até achei que era scam. Mas depois fui confirmar e a pessoa que me contactou e o seu endereço eletrónico eram legítimos. A proposta que eles me fizeram envolvia sintetizar sinais biológicos de astronautas para treinar outras redes neuronais, porque estas redes precisam de muitos dados e não há assim tantos astronautas. Eles falaram-me então do Frontier Development Lab, uma parceria entre a NASA e outras empresas, como a NVIDIA e a IBM. A ideia era juntar 4 investigadores em equipas de alta performance, com o objetivo de desenvolverem algo que à partida seria impossível num curto espaço de tempo, neste caso 2 meses. Tipo um hackathon mas muito mais difícil. Eram grandes empresas e o investimento era muito grande também, então nós sentíamos a responsabilidade de desenvolver algo que fosse utilizável. Foi um desafio muito grande, até porque quando nos apresentaram a proposta deram-nos só a visão geral, que era sintetizar dados de astronautas para sistemas de inteligência artificial. Mas que tipo de sinais? Sinais de astronautas diferentes? Sinais com patologias? Sinais de EEG? De ECG? Na altura não sabíamos, e fomos “afunilando” até chegarmos a algo que eles realmente procuravam.

Todos os nossos sistemas biológicos, quando vamos para o espaço, ficam confusos. Não tem só a ver com a radiação mas também com a falta de gravidade. O que se sabe é que há perda de massa muscular, a forma do coração passa de uma forma oval para uma forma esférica, a circulação do sangue altera-se, e há descalcificação dos ossos que causa pedras nos rins. Um dos grandes problemas que eles prevêem ter, nomeadamente em viagens de longo curso como a viagem a Marte, é mesmo a alteração da estrutura muscular do coração, que pode levar a alterações na propagação dos sinais elétricos cardíacos. Ainda não se sabe ao certo que alterações serão estas, mas alguns estudos indicam várias formas de arritmia. Sabe-se que os astronautas são os melhores dos melhores, as pessoas mais saudáveis possível, logo não têm arritmias. Então a nossa ideia foi colocar episódios de arritmia em dados de ECG de um astronauta normal para treinar outros modelos que incluíssem estas alterações. Propusemos então criar estes dados sintéticos. Nós não fazíamos ideia de como fazer isto, e batalhámos imenso durante as primeiras semanas, até porque existia uma parte política, havia muita gente que queria falar connosco das empresas porque nós éramos uma porta de ligação com a NASA, e então “desperdiçámos” muito tempo a estabelecer essas ligações.

No entanto, foi algo extremamente aliciante. Nós estávamos na NASA Ames, que fica na Califórnia, e desenvolvemos o trabalho no SETI. Estivemos uma semana na NVIDIA, no edifício NVIDIA Endeavour que é um sítio brutal. Falámos com pessoas multimilionárias e reconhecidas internacionalmente como se fossem colegas de escola. Foi uma experiência astronómica. Nessas semanas aprendi imenso e contactei com imensas pessoas,  e foi uma experiência muito rica porque deu para perceber que nós em Portugal, nomeadamente na Nova, somos muito humildes, porque lá eles afirmam-se como sabendo muito, e sabem, mas lá por eu ser da Nova não quer dizer que não saiba tanto quanto eles. Aliás, de eletrofisiologia era de longe o que sabia mais. 

No nosso core éramos 6, 4 investigadores e 2 mentores. Um dos mentores era do Imperial College, e o outro era da Nova Zelândia. Depois tínhamos outros mentores que já eram da NASA. Como era uma equipa de alta performance, nós vivemos naqueles meses uma experiência de dois anos. Mas demo-nos logo muito bem o que ajudou bastante. As pessoas pensam que em alta performance, as pessoas são muito focadas, que só estudam e não é isso. É verdade que são pessoas focadas, mas não são pessoas focadas separadas dos outros, são pessoas que trabalham em equipa. O que é importante nessa equipa é criar ligações verdadeiras, de confiança, entre as pessoas que estão envolvidas. No Frontier Development Lab existiam várias equipas e a nossa era das melhores porque criámos um bonding muito cedo e muito dinâmico, estávamos sempre na brincadeira. E o nosso ambiente de boa-disposição, amizade, e conexão com os outros, essa é que é a verdadeira alta performance. Em dias que estávamos muito stressados, íamos beber um copo a qualquer lado e brincávamos, gozávamos, e era isso que nos dava alento e energia para no dia a seguir ter a mesma performance do dia anterior.

[Entrevistadora] – Foi a primeira vez que teve uma experiência de alta performance?

[Entrevistado] – Já tinha tido. Quando acabei o curso e comecei a trabalhar na tal empresa de consultoria, logo o primeiro projeto em que estive era também de alta performance, no qual tínhamos 3 meses para desenvolver um software. Era um projeto bastante ambicioso que conseguimos acabar, mais uma vez porque na minha equipa criámos uma relação muito boa. Mas na NASA foi mais intenso e mais exigente. Porque uma coisa é estar num projeto que consegues ver o fim, que é um software, e já viste outros exemplos. Outra coisa é estar numa escuridão total, onde nos dizem “Faz isto”, e tu pensas “Mas isto é impossível de fazer”. 

[Entrevistadora] – Sentiu-se bem recebido e que tinha apoio na empresa, com as pessoas externas à sua equipa?

[Entrevistado] – Sim. Existiam algumas ovelhas negras. Mas a grande maioria fez-me sentir extremamente apoiado. Posso até contar um episódio muito interessante logo do primeiro dia. Era a sessão de apresentação, e estavam lá muitas pessoas, incluindo pessoas do NASA Ames, que já era de renome. Nessa sessão, só havia sumos e uma senhora indiana disse, em tom de brincadeira, “Mas isto é só sumos? Então e o vinho?”, e até lhe responderam “Desculpe, não há vinho”. Todos nos rimos, e ela também. Até que apareceu uma senhora que me deu um copo de vinho. Quando olho para o lado, a senhora indiana está a levantar o copo, em tom de brinde. Mais tarde vim a descobrir que  era uma das cabeças sénior de heliofísica da NASA (Madhulika Guhathakurta). Por isso sim, senti-me mesmo bem recebido, para além de que todas as sextas à noite saíamos à noite com toda a gente do programa.

[Entrevistadora] – Para aqueles que se encontram no início do seu percurso profissional, principalmente para os estudantes, ainda existe algum receio em relação a todos os processos burocráticos que estão por trás de uma passagem no estrageiro. Em relação a isso teve alguma dificuldade?

[Entrevistado] – Para mim foi muito tranquilo. Nomeadamente nos Estados Unidos, onde é um filme tremendo para entrar no país, eles contratam empresas que ajudam no processo, o que torna tudo muito mais fluído. Esta empresa enviou-me um e-mail a pedir os meus dados e depois criaram-me um perfil na plataforma deles. A partir daí, era feito por etapas. A única coisa mais chata foi a alta segurança da embaixada, onde não permitem a entrada de qualquer material eletrónico. Até tinha levado um Kindle para ler, porque fiquei à espera umas 3 ou 4 horas, mas ficou à porta! [risos].

[Entrevistadora] – Falando agora do local do estágio, os Estados Unidos, mais especificamente a Califórnia, já tinha intenção de estagiar lá ou foi porque por acaso surgiu a oportunidade?

[Entrevistado] – Eu já tinha a ideia que gostava de estagiar nos Estados Unidos um dia.  Não é porque tenha particular gosto pelo país ou pela sua sociedade, era mais por curiosidade. Ir para a Califórnia em si nunca esteve nos meus planos. As minhas expectativas eram muito baixas e fui surpreendido em muitos aspetos. A minha experiência foi muito positiva, à exceção da comida, e não tem a ver com os hambúrgueres, mas as coisas lá não têm sabor!

De resto, as pessoas eram extremamente simpáticas, muita gente já tinha vindo a Portugal e tudo. A parte da costa da Califórnia onde eu estive é muito parecida com a costa Algarvia em termos de praias. A nível natural, é lindíssimo. Destaco o Lake Tahoe e o Parque Nacional de Yosemite. Não é só o facto de ser lindo, é mesmo por ser monstruoso, mesmo muito grande. A perceção humana não era capaz de perceber as distâncias, então eu olhava e parecia-me um quadro.

[Entrevistadora] – A nível de alojamento, foi difícil de encontrar ou foi proporcionado pela NASA?

[Entrevistado] – Foi proporcionado por eles. Ficámos mesmo em apartamentos nas instalações da NASA Ames.

[Entrevistadora] – E o custo de vida é muito diferente?

[Entrevistado] – É no mínimo o dobro, mas também recebia bem mais.

[Entrevistadora] – A sua expectativa do estágio foi aquilo que realmente foi?

[Entrevistado] – Foi diferente. Pensava que era mais custoso e que eu não sabia nada, e percebi que eu era capaz e estava a par das universidades de renome mundial. Nós sabemos mais do que aquilo que pensamos que sabemos, e isso é bom sinal, pois temos noção de que há sempre muito para aprender

[Entrevistadora] – Apesar de achar pouco provável que alguém vá para a NASA assim tão facilmente, o que aconselharia a alguém que planeasse ir?

[Entrevistado] – Em primeiro lugar, existem muitas oportunidades e estas oportunidades não caem do céu. Procurem estes programas e as summer schools. A mim caiu-me do céu, mas depois enquanto lá estava apercebi-me da quantidade enorme de oportunidades que existem. E o meu principal conselho é: liguem-se às pessoas que trabalham convosco, não se isolem. Isso faz toda a diferença.

[Entrevistadora] – Só me resta agradecer-lhe David por ter gasto um bocadinho do seu tempo connosco, e pelas palavras inspiradoras. Espero que ajude muitos estudantes que ambicionam ter uma experiência como a sua.

[Entrevistado] – De nada!

A ANEEB agradece por teres aceite esta entrevista e pela partilha da tua experiência fora de Portugal, esperando com isto ajudar outros estudantes que estejam prestes a tomar esta decisão. Votos de sucesso