A ANEEB teve oportunidade de entrevistar, no passado dia 24 de setembro, dois dos membros do NEEF/AAUAv, da Universidade de Aveiro, Glória Figueiredo e Lara Pereira, que recentemente participaram num projeto de voluntariado.

[Entrevistador] – Tiago Rodrigues (ANEEB)

[Entrevistado 1] – Glória Figueiredo

[Entrevistado 2] – Lara Pereira

[Entrevistador] Bom dia a ambas, obrigado por aceitarem o convite e desde já muitos parabéns pela vossa iniciativa! Vou começar pela Glória, quando e onde foi a vossa aventura de voluntariado?

[Entrevistado 1] – A nossa aventura do voluntariado começou dia 4 de julho, quando embarcamos para o Brasil. No entanto, nós fomos um bocadinho mais cedo, antes da experiência começar. Ela só teve início dia 9, na terça feira seguinte, e teve a duração de 7 semanas, tendo nós regressado dia 21 de agosto ao nosso país. Foi em Florianópolis, que fica no penúltimo estado do Brasil, a sul, no estado de Santa Catarina, e nós trabalhávamos numa instituição chamada CEDEP – Centro de Educação e Evangelização Popular – que recebia crianças em contraturno da escola e impedia que elas ficassem à mercê do tráfico na favela. Esta favela era a de Monte Cristo, que é uma das mais conhecidas do Brasil pelo tráfico de cocaína, daí ser um pouco mais problemática. Esta instituição visava então proteger as crianças daquele ambiente.

[Entrevistador] Lara, como tiveram conhecimento da oportunidade e como foi o desenrolar do processo?

[Entrevistado 2] – Nós tivemos conhecimento pela AIESEC, que foi a associação com a qual nos fizemos este projeto de voluntariado, através de uma das palestras que eles fazem no início de cada ano letivo. Nessa palestra nós tivemos a oportunidade de ouvir o testemunho de outras pessoas, de outros voluntários que tinham feito projetos noutros países e ficamos logo muito motivadas e interessadas. Decidimos que íamos esperar um ano para que no ano seguinte pudéssemos ter tudo organizado e partir para esta aventura e assim foi. No ano letivo seguinte, no nosso segundo ano de universidade, inscrevemo-nos na página da AIESEC e recebemos logo um telefonema, até acho que foi no dia a seguir. Neste telefonema, uma das representantes da AIESEC que é daqui de Aveiro, disse-nos logo que recebeu a nossa candidatura, que queria falar connosco. A partir daí, fizemos um perfil nosso, onde colocámos as nossas competências, o curso onde estávamos, aquilo que queríamos do nosso projeto de voluntariado e a partir daí começámos a fazer candidaturas para vários países. O Brasil, neste projeto que a Glória falou agora, foi o primeiro país que nos respondeu e por isso foi o primeiro que aceitamos. Também um bocadinho pela língua, pela facilidade de contactar com as pessoas de lá, tudo isso foram pontos a favor de termos aceite logo a nossa primeira opção. Depois de termos aceite começamos logo a falar com membros da AIESEC do Brasil que nos começaram a informar de como é que tudo ia ser, mais ou menos onde íamos ficar alojadas, onde é que íamos trabalhar, com que tipo de crianças, para ficarmos um bocadinho mais descansadas. Depois começamos também a tratar ao longo desse ano de intervalo, pois isto aconteceu tudo mais ou menos em setembro e a nossa viagem ia acontecer em julho do ano seguinte, da viagem, do passaporte, das vacinas que são tudo burocracias necessárias antes de sair do continente.

[Entrevistador] Quais foram as maiores dificuldades na preparação da viagem e das atividades?

[Entrevistado 1] – Como a Lara acabou de dizer, isto é um processo que é muito burocrático, então exigiu que o preparassemos com muita antecedência. Tivemos que ter muita atenção a documentos, a vacinas e também a uma coisa que nos preocupava, principalmente por causa da segurança, que era o seguro que teríamos que fazer. Acho que isso foi a nossa maior dificuldade durante a preparação porque ninguém nos conseguia orientar sempre no mesmo sentido. Havia pessoas que davam a opinião de ser um seguro de vida, outras um seguro de saúde. No entanto, um seguro de vida implicava um pagamento mensal ao longo de vários anos e isso não fazia sentido. Então, depois de muito procurar, nós tivemos uma OPS no Porto, organizada pela AIESEC que tinha como objetivo preparar-nos não só a nível burocrático, mas também emocionalmente. Nessa mesma palestra, uma companhia de seguros acabou por nos resolver o problema e a nossa maior dificuldade acabou por ficar pelo caminho. A este tipo de viagens também estão sempre associadas dificuldades, por exemplo, na preparação da mala, no que é necessário levar. Mesmo até preparaste-te emocionalmente para aquela realidade, mas acho que quando são duas pessoas a ir, uma acaba por ser um bocadinho o suporte da outra e vamo-nos ajudando mutuamente e as dificuldades acabam-se por se dissipar.

[Entrevistado 2]  – Só referir que este fim de semana da OPS foi muito importante, pois a associação preparou-nos muito em termos de cuidados de segurança que devíamos ter, a realidade que íamos enfrentar lá. Isto era importante porque tudo o que nós ouvíamos falar tínhamos em conta, mas termos alguém mesmo da associação que já conhecia os projetos e os voluntários que de lá vinham tinha muita influência. É um ponto a referir, porque se fossemos por conta própria, nunca teríamos essa preparação. Esse acompanhamento foi muito importante antes de ir.

[Entrevistador] Quando lá chegaram foram bem recebidas? Onde ficaram hospedadas? 

[Entrevistado 2]  – Fomos muito bem recebidas. O povo brasileiro é muito caloroso, sentimo-nos logo em casa. Eu e a Glória ficamos em duas famílias de acolhimento diferentes, mas acho que posso falar pelas duas quando digo que tivemos mesmo muita sorte nos locais em que ficamos. Tivemos oportunidade de conviver com o dia a dia daquelas famílias. De conviver com as suas rotinas, de perceber a cultura deles. Ficamos muito mais próximas do povo brasileiro do que se tivéssemos ficado num hotel ou num sítio sozinhas alojadas porque realmente deu-nos outra segurança e conforto. Tanto eu como a Glória criamos uma relação muito boa com as nossas famílias de acolhimento. É um sentimento de gratidão muito grande aquele que temos por eles.

[Entrevistado 1]  – Chegou uma altura em que nós já nos tratavamos mesmo por família. Momentos em que mandava mensagem para o grupo a dizer “Família, já estou em casa” (risos).

[Entrevistador] Como descreverias a vossa emoção naquele primeiro choque com a realidade de lá? A realidade que encontraram foi muito diferente da expectativa? 

[Entrevistado 1]  – Houve dois momentos em que foi muito difícil digerir o que estava a acontecer. O primeiro foi quando nós chegamos ao CEDEP, era um sítio que parecia um oásis para aquelas crianças. O primeiro contacto com a diretora e o discursos dela acho que foi o primeiro “balde de água fria” que nós tivemos. Ela começou por apresentar as instalações, dizer qual era a dinâmica do CEDEP, falou dos projetos que tinham e aí, quando ela falou de um que era o projeto “Fénix”, assustou-me um bocadinho. Isto porque fez-nos perceber que a realidade é mesmo muito diferente da nossa. Aquilo era um projeto que dava uma oportunidade de crescimento a crianças com 14/15/16 anos de voltarem a ter uma vida normal depois de terem estado no tráfico. Pensar que nessa idade elas já estão no tráfico é uma realidade dura e faz-nos mesmo perceber que é uma zona mais complicada e que merece mesmo a nossa atenção. Depois ela também disse que era normal nalguns dias as crianças falarem com ela e lhe pedirem comida que tinha sobrado para levarem para os irmãos e que nós íamos notar que em dias de chuva, o número de meninos ia diminuir. Eu, pelo menos, quando nos falou disso a primeira vez, não pensei logo no porquê, mas a razão era tão simples quanto eles não terem forma de se aquecer nesses dias. E a solução que alguns deles tinham era ficar em casa em cobertores. Para nós, na nossa sociedade, não teres um casaco é quase impensável. E eles lá era havaianas, t-shirt e uns calções, mesmo nos dias mais frios. Claro que haviam outras crianças que até tinham alguma coisa, mas também havia quem estivesse muito mal. Tive uma situação neste seguimento em que num dia de chuva, uma menina estava de manga curta e estava muito frio – porque aquilo era um espaço acolhedor, mas frio quando estava a chover – ela passou por mim, tocou-me no braço e disse “oh sôra, que casaco quentinho” e ficou a tocar-lhe. E tu estás ali e sentires aquilo é uma sensação muito forte e é um choque de realidade. Quando nós fomos à favela, o percorrer daqueles caminhos, acho que ainda foi o mais traumático. O interior da favela não se assemelha nada a ruas, são caminhos formados pelas habitações que se constroem umas ao lado das outras e por ali vêem-se pessoas que são muito felizes com aquilo que têm – e isso impressiona – mas o que têm é muito pouco, só que parece que lhes chega. Talvez porque também não conhecem muito para além daquilo. Acho que isso foi o processo mais traumático. Quem nos estava a acompanhar, que era mesmo do coração da favela, ia mostrando casas onde tinham sido assassinadas pessoas e que aquilo era normal, assim como crianças ouvirem tiros à noite era considerado normal. Tudo isto é difícil ouvir e aceitar-se que existe.

[Entrevistado 2]  – Só acrescentar também uma experiência que tive e que também me marcou muito, apenas como prova de como as pessoas de lá já estão completamente conformadas com aquilo que têm. Uma vez em conversa com uma senhora que trabalhava no CEDEP e que vivia na favela, perguntei-lhe o que achava que seria a solução para aquelas pessoas. Ela olha para e disse assim “Deus, só”. Eu fiquei sem resposta. Muito mais do que mostrar fé em Deus, mostrou mais ainda a falta de esperança de que as coisas vão melhorar. Isso chocou-me muito. 

[Entrevistador] Qual era a vossa função lá? Como passavam os vossos dias?

[Entrevistado 2]  – A Glória já explicou um bocadinho o que é o CEDEP e em que consistia. Aquilo basicamente tinha muitos projetos de impacto social. Aquele em que nós estavamos a participar era as “Oficinas do Saber”. Essas oficinas eram dirigidas a crianças, mais ou menos desde os 5/6 até aos 15 anos. Elas iam para lá e tinha oportunidade de fazer outro tipo de atividades que não faziam na escola. Como desporto, artes marciais, dança, artes plásticas, teatro, entre outras coisas. O nosso papel era um bocadinho participar nesse dia-a-dia. Nas primeiras 2 semanas em que chegamos lá, calhava nas 2 semanas de férias de inverno deles, então os professores do CEDEP estavam de férias e o que nós fizemos nessas 2 semanas foi ficar encarregues das 120 crianças que iam para lá para o campo de férias. Foi uma responsabilidade muito acrescida logo de início, ficamos um pouco assustadas. Os primeiros dias no CEDEP que deviam ser adaptação, foram os primeiros dias mais difíceis em que ficamos sozinhos com um bando de miúdos que nem sabíamos como controlar e fazer com eles. Foi um processo de aprendizagem, preparamos várias atividades ao longo dos dias, iamos adaptando, vendo o que funcionava e não funcionava (risos). Ao longo dos dias começamos a ganhar a confiança e o respeito deles. Foi muito bom sentir que 2 semanas depois já conseguíamos ter um contacto mais próximo deles. Sem dúvida que foi um dos frutos do nosso trabalho que me deu muito gozo ter. No mês seguinte em que os professores já tinham voltado e o CEDEP já estava na sua dinâmica normal, nós participavamos em algumas aulas e também organizavamos algumas aulas de acordo com aquilo que achávamos que eles precisavam. Por exemplo, para os mais pequeninos organizavamos aulas de inglês e para os mais crescidos fazíamos conversas de perspetivas de futuro, como entrar na universidade, o que é que eles queriam da vida deles mais tarde. Isto é muito importante porque por vezes eles nem são incentivados a pensar nisso. Também fizemos algumas atividades relacionadas com o aquecimento global, reciclagem, reutilização e por aí. No geral eles gostaram muito e foi bastante produtivo. 

[Entrevistador] E nos tempos livres? Iam sair, conhecer novos sítios, divertiam-se?

[Entrevistado 1]  – Sim, muito. E já no final da nossa experiência eu estava a conversar com um Uber e ele perguntou-me que sítios eu já tinha conhecido e eu comecei a enumerá-los. E ele “Ah então já podes ir embora. Já viste tudo o que aqui existe”. Acho que nós aproveitamos bem. Nós usavamos os fins de semana para conhecer os sítios mais turísticos de Florianópolis, que eram essencialmente elementos naturais. Fomos por exemplo fazer várias trilhas. Aquilo tem paisagens incríveis que parecem que foram pintadas. Aproveitamos também para ir a São Paulo porque tínhamos uma amigo lá e usamos um presente que a diretora nos deu, que foi um dia de folga (risos), e fizemos um fim de semana prolongado onde conseguimos conhecer São Paulo. Depois também saiamos durante a tarde. O nosso turno no CEDEP terminava às 14h e à tarde íamos sair com os outros voluntários, até ao centro de Florianópolis.Iamos conhecer algumas praias, principalmente sítios que ainda não tinhamos visto com a nossa família de acolhimento. Acabamos mesmo por conhecer bem Florianópolis. 

[Entrevistador] Nos últimos dias, na hora do adeus, o que mais vos marcou?

[Entrevistado 2]  – Aquilo que mais nos marcou, na minha opinião, foi o facto de termos percebido que marcamos tanto aquelas pessoas, como nos marcaram a nós. Sentir que aquelas pessoas estavam mesmo tristes por nós irmos embora e agradecidas pelo tempo que passamos lá com elas foi o sentimento mais bonito que nos podiam ter dado naquele momento. Foi um sentimento de missão cumprida. Outra coisa que nos marcou muito foi a mítica frase do Jonas, que era um menino muito engraçado e inteligente de 7/8 anos. Quando estavamos para ir embora, ele diz “Prófis, eu adorava que Portugal começasse a arder para vocês ficarem aqui para sempre”. Acho que isto demonstra o quanto eles gostaram de nos ter lá. 

[Entrevistador] Voltariam de novo? Aconselhariam a experiência?

[Entrevistado 1]  – Sim. Eu acho que se pudesse, voltava já (risos). É muito difícil deixar aquelas crianças para trás, sem os trazer a todos. Pelo sorriso que têm só pelo olhar. Eles são mesmo felizes com o pouco que têm e tu não vês isso cá. Isso faz-nos crescer muito. Gostava de voltar daqui a uns tempos, ver onde estão e se conseguiram sair daquela realidade. Nem que fosse para lhes dar só um beijinho. 

[Entrevistador] O que vos fica da experiência?

[Entrevistado 2]  – Fica uma consciência muito maior da desigualdade que se vive a nível mundial porque é algo que ouvimos falar, mas estar ali e viver aquilo que efetivamente acontecia deu-mo uma consciência muito maior de que é preciso agir e sermos pessoas ativas na sociedade. Para pararmos de olhar tanto para nós e mais para o outro. Percebi que podemos fazer a diferença com pequenas coisas. Fica esse sentimento de querer fazer mais e de querer passar essa vontade aos outros, e fica também o sentimento de gratidão. Devíamos agradecer mais aquilo que temos.  

[Entrevistado 1]  – E a sensação de que devíamos sair da nossa zona de conforto porque isso acaba por nos acrescentar muito e nos tornar pessoas. É muito difícil quando nós nos cingimos à nossa realidade de percebemos que há mais para além das nossas fronteiras, não só físicas, mas também interpessoais. É uma experiência pelo qual todos devíamos passar.

[Entrevistador] Obrigado a ambas!

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