Este artigo faz parte de uma série de artigos enviados por estudantes de Engenharia Biomédica, que serão publicados nas plataformas da ANEEB de forma a dar voz aos estudantes

Hic Sunt Dracones”. Era com esta frase que muitos marinheiros assinalavam mares perigosos ou desconhecidos. Autênticas quimeras naturais fervilhando com as mais fantásticas criaturas. Sereias, dragões e até rochedos mal-amados que de tanta amargura afundavam todos os que assistissem ao seu sofrimento. “Vá…menos Camões”, o certo é que muito mudou desde que embarcámos em naus e caravelas rumo ao mundo. Talvez, até demais. Em 2014, graças à proposta mais inusitada que já recebi, viria a conhecer como nunca, o problema desse “até demais”. Como todas as propostas inesperadas, esta também foi feita à porta do ginásio. Só que desta vez, pelo meu professor de biologia e geologia. Dali a 6 dias embarcaria na réplica de um navio do século XV, a Caravela Vera Cruz, numa expedição oceanográfica que duraria quase uma semana no mar, a 300 km de casa e que mudou a minha vida.

Há séculos, milhares de anos atrás, os conhecimentos que hoje temos, alguns já no ensino básico, ainda não existiam. Muitos eram aqueles que se aventuravam por eles em trirremes, caravelas, viagens de camelo ou de elefantes, ou simplesmente em salas secretas recheadas de engenhos prontos a mudar o mundo. Arriscavam a vida e a sanidade por coisas hoje, tão elementares para nós. Esses, os que descobriam o futuro com uma estranha incandescência de vida, inspiraram de tal forma as gerações que os sucederam, que mudaram o presente e ainda hoje, os podemos sentir e ver na alma daqueles que iluminaram. Eles questionavam-se, questionavam o mundo e enfrentavam tudo para encontrar respostas sólidas a essas dúvidas. E nós? Somos capazes de questionar, ou apenas de assimilar o mundo?

Há muito se tornou evidente que é necessário incutir nos jovens o espírito crítico, abraçar esta sua sede de inovação e reconstrução. Mas será que todas as Academias, e não apenas uma mão cheia delas, adotam estas ideias como princípios basilares? Será que a nossa Academia o faz? Eu tive professores extraordinários, que me revelaram que o verdadeiro significado de ensinar é muito mais do que apenas transmitir conhecimento. É redescobrir com o outro a capacidade e o desejo de compreender, partilhar, enaltecer, inspirar e criar. É pensarmos por nós próprios, saborearmos por nós próprios o gosto da descoberta. Estas coisas não se podem perder, elas não são um “até demais”, elas são o que há de mais vital no ensino. Todavia, para que preservemos estes princípios na nossa vida, alguém tem de nos dar as bases certas. Se apenas quiséssemos as Academias para absorver conceitos, teoremas, teorias, preteriríamos muitas vezes o Google ou o Youtube à despesa financeira, mental e emocional. E infelizmente, aqui e ali, isso acaba por acontecer.

No entanto, a verdade, é que quando entramos nas Academias, entramos com o desejo de que nos inspirem à medida que nos passam conhecimentos, compreendam as nossas circunstâncias e não nos imponham limites, nos transmitam ideias e valores que nos motivem a perseguir um futuro comum melhor. Há um sentido muito especial de pertença quando este espírito nos “é tocado com amor, bem afinado e a rigor pois, ninguém há que lhe resista”. Academias que sejam incapazes de fazer vibrar simultaneamente quer o professor como o aluno, não se afirmando como uma plataforma por excelência do debate e de construção humana e cognitiva, são um completo atentado ao futuro e um mecanismo de desprezo pelo presente.

Hoje, requer-se dos alunos, que sejam intelectualmente corajosos, abertos a novas ideias e humildes com todos os seus pares. Capazes de acompanharem uma ciência e tecnologia que parecem viver à “velocidade warp”, mesmo não sendo alunos de “exatas” – o que só nos leva a abraçar ainda mais o verdadeiro valor da Academia. Capazes de serem sempre metodológicos, mas dados a uma certa irreverência. O mundo é antigo, cheio de amarguras e consequências, altamente diverso e sequioso por reinventar-se, expandir-se e compreender-se. O mundo ainda não tomou real consciência de si mesmo e aqueles que planeiam acompanhar o presente e tornar o futuro algo realmente novo, realmente melhor, verdadeiramente comum, não podem temer as criaturas fantásticas de mares nunca navegados. Não podem perpetuar os erros do passado, nem podem desconhecer as realidades e exigências das suas sociedades e do mundo profissional que os esperam. As empresas, as unidades de investigação, serviços e cuidados e a sociedade civil anseiam por profissionais capazes de responderem a desafios, de encontrarem soluções, de escutarem e compreenderem. Mas isso, não é só responsabilidade dos alunos, mas das Academias que deles vivem. Os alunos e as Academias servem o outro, desde Alexandria e para sempre.

Na Vera Cruz, tive a oportunidade de contactar com biólogos, médicos veterinários, marinheiros e militares, todos envolvidos numa missão – proteger e descobrir o melhor das riquezas naturais da nossa costa. Por uma semana, tudo fazia mais sentido, todos partilhavam conhecimento, eram mais curiosos, desafiadores e motivavam-se mutuamente. Todos realmente escutavam “a fala dos pinhais, o som presente desse mar futuro, a voz da terra ansiando pelo mar”. A bordo da caravela, em pleno ensino secundário, senti-me renovado, como se tivesse passado pela maior das Academias.

Se queremos que os nossos estudantes estejam à altura das exigências dos nossos tempos é crucial que nos reinventemos nesse sentido. Que lhes proporcionemos novas experiências, que façamos do seu percurso académico uma eterna aventura. Façamo-lo já, se ainda não o tivermos feito. Que professor sou eu quando entro na sala de aula? Que aluno sou eu quando me sento na sala de aula? Nós alunos, pois todos nós sempre o seremos, não podemos almejar ser apenas números numa pauta. Afinal, quando estivermos na proa de uma caravela, à beira de uma tempestade, quem seremos nós? Um número ou uma ideia?

Por Miguel Barbosa, FCT-NOVA

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