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Bioelectrical Impedance Analysis consiste num método de analisar e estimar a composição corporal em massa gorda, massa magra e conteúdo em água. Apresenta-se, por isso, como uma arma poderosa relativamente à ilação de  conclusões acerca do nível de saúde da pessoa ao qual se aplica o método.

A BIA determina a composição corporal através da aplicação de pequenas correntes alternadas pelo corpo, de forma a obter um valor de impedância. A impedância é a oposição que um dado circuito elétrico faz à passagem de corrente quando é submetido a uma tensão. O corpo humano trabalha como um circuito elétrico quando sobre ele é aplicado correntes, originando diferentes respostas e valores de impedância consoante o material ou tecido que a corrente tenta passar.

A impedância tem duas componentes: resistência e reatância, que definem dois comportamentos diferentes de oposição à passagem de corrente. A resistência é a medida da quantidade de corrente elétrica que é completamente bloqueada. No corpo humano, o tecido adiposo, por exemplo, uma vez que é constituído por uma percentagem de 80% de gordura, é um material extremamente resistivo à passagem de corrente. A reatância, por sua vez, é a medida da capacidade de um componente de desacelerar uma dada corrente, em vez de a bloquear por completo. As membranas celulares conseguem armazenar uma dada quantidade de carga por um determinado período de tempo, o que torna a passagem da corrente mais lenta, denotando-se um desfasamento de onda em relação à sinusóide da voltagem aplicada. Este comportamento é idêntico ao de um condensador e o desfasamento entre a onda de corrente e a de voltagem permite avaliar se uma célula é saudável ou não. Quanto maior for a capacidade de armazenar, isto é, quanto maior o desfasamento, mais saudável será a célula.

A capacidade de uma célula se comportar como uma resistência ou um condensador depende da frequência da corrente aplicada. Com uma frequência baixa, a corrente é parada pelas membranas celulares, que atuam como resistências. Aplicando correntes inferiores com frequência inferior a 5KHz, por exemplo, a corrente apenas se deslocará fora das células através de fluídos extracelulares, o que torna possível a medição da água extracelular. Porém, para frequências elevadas, superiores a 50KHz, a célula comporta-se como um condensador e permite apenas o atraso de fase da corrente. Este último caso já terá em conta a água intracelular, uma vez que a corrente consegue passar pelas células, medindo, por isso, o conteúdo total de água corporal.

Como se sabe, a corrente desloca-se preferencialmente pelo caminho que oferece uma menor impedância. Assim, quanto maior a composição em água de um tecido, menor o seu valor de impedância. Desta forma, a corrente tende a deslocar-se em meios hidratados e com presença de eletrólitos, como o sangue ou os fluídos extracelulares. Tecidos como o muscular não oferecem grande oposição à passagem de corrente, já tecidos com o ósseo ou massa gorda indicam impedâncias mais elevadas.

Existem diferentes métodos e dispositivos para a medição do BIA, diferenciando-se em custo, validade e acessibilidade:

– Hand-held BIA: consiste num volante que a pessoa agarra enquanto as medições vão sendo realizadas. Este método analisa a condutividade da corrente alternada que é aplicada e viaja pelo tronco superior do corpo, usando um software para calcular a composição corporal. O método é inicialmente calibrado pelas variáveis próprias da pessoa, como o peso, altura, idade e género.

 Leg-to-Leg BIA: são usados quatro elétrodos colocados nas plantas dos pés, por onde passa corrente que flui pelo tronco inferior do corpo. Este método e o anterior podem obter valores diferentes devido ao facto de avaliarem zonas corporais distintas.

 Hand-to-foot BIA: os elétrodos, como nome indica, são colocados tanto nos pé como nos pulsos (normalmente do lado direito, mas também pode ser de ambos os lados) e realizam medições do corpo completo, refletindo uma composição mais geral que os métodos alternativos.

Independentemente do método usado, depois de recolhidos os dados, é aplicado conjunto de equações para obter os valores desejados e avaliar a composição corporal. As equações diferem consoante os diferentes parâmetros da população a ser avaliada. Como seria de esperar, a aplicação desta técnica recaiu de forma muito assumida na área médica.

Investigadores de Oxford, como Ronnen Roubenoff ou Tamara B. Harris, realizaram um estudo, em 1997, aplicando este método em pessoas mais idosas. Concluíram que a validação dos resultados do BIA dependia, principalmente, das características corporais da população e não da idade dos participantes. Outros estudos foram realizados, de forma a explorar as várias potencialidades desta técnica, sendo que alguns destes têm artigos publicados nos mais diversos temas, desde a medição dos volumes de fluído corporal à análise da complexa impedância do tecido biológico. A análise da impedância bioelétrica também é usada para estudos clínicos.

Embora a aplicação deste método seja vasta e permita uma forma fácil de avaliar o corpo humano, tem algumas limitações metodológicas que podem afetar a capacidade desta técnica em obter valores precisos e viáveis. Algumas destas limitações estão associadas à colocação dos sensores, aos níveis de glicogénio e água do corpo e às variações na escolha das equações aplicadas. Esta última é bastante problemática, uma vez que as equações são modelos aplicados. Porém, embora exista mais que uma equação adaptável a diferentes características, nenhum ser humano é igual e os erros podem ser fortemente amplificados.

Contudo, a investigação desta técnica continua a ter bastante foco deste o século XX e possibilita a obtenção de informação de forma não invasiva e rápida.

Bibliografia:

  • Ellis, Kenneth J, et al. “Bioelectrical Impedance Methods in Clinical Research: A Follow-up to the NIH Technology Assessment Conference.” Nutrition, vol. 15, no. 11–12, Nov. 1999, pp. 874–880, www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0899900799001471, 10.1016/s0899-9007(99)00147-1.
  • Kushner, R F, and D A Schoeller. “Estimation of Total Body Water by Bioelectrical Impedance Analysis.” The American Journal of Clinical Nutrition, vol. 44, no. 3, 1 Sept. 1986, pp. 417–424, academic.oup.com/ajcn/article-abstract/44/3/417/4691951, 10.1093/ajcn/44.3.417.
  • Roubenoff, R., et al. “Application of Bioelectrical Impedance Analysis to Elderly Populations.” The Journals of Gerontology Series A: Biological Sciences and Medical Sciences, vol. 52A, no. 3, 1 May 1997, pp. M129–M136, academic.oup.com/biomedgerontology/article/52A/3/M129/608165, 10.1093/gerona/52a.3.m129.
  • THOMAS, B. J., et al. “Bioelectrical Impedance Analysis For Measurement of Body Fluid Volumes.” Journal of Clinical Engineering, vol. 17, no. 6, Nov. 1992, p. 505, europepmc.org/abstract/med/10124463, 10.1097/00004669-199211000-00016
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