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A telecirurgia, sistema cirúrgico emergente que utiliza redes sem fios e tecnologia robótica para conectar cirurgiões e pacientes localizados à distância, tem demonstrado grandes avanços tecnológicos ao longo dos últimos anos. Na década de 70, foi sugerido pela NASA que os investigadores analisassem a opção de robôs controlados remotamente fossem utilizados em cirurgias em astronautas. Desde então, a Nasa e o Exército dos EUA têm trabalhado constantemente na criação de robôs fiáveis que possam operar à distância. A primeira telecirurgia do mundo ocorreu em 2001 e foi conduzida por uma equipa cirúrgica em Nova Iorque, EUA, usando o sistema robótico ZEUS (Intuitive Surgical, Sunnyvale, CA, EUA). Este projeto consistiu numa colecistectomia laparoscópica de sucesso com duração de duas horas, que foi realizada num paciente do sexo feminino num hospital em Estrasburgo, França, sendo que a sua recuperação não teve qualquer complicação.

Porém, quando é abordado uma tecnologia como esta, existe muita aversão por parte dos pacientes, pelo facto da cirurgia ser feita em última instância por um robô e por não conhecerem o cirurgião que os opera, que, na realidade, poderá estar a quilómetros de distância. Mas, apesar do desconforto que este pensamento pode causar, este sistema oferece muitos benefícios face a uma cirurgia convencional. Em primeiro lugar, o facto deste modelo de cirurgia eliminar a necessidade de viagens de longa distância, juntamente com o encargo financeiro relacionado com as viagens. Paralelamente, a telecirurgia fornece cirurgias de alta qualidade para locais medicamente carentes, como áreas rurais ou campos de batalha, fazendo com que os cuidados médicos cheguem a qualquer ponto do planeta. Todavia, uma das vantagens mais importantes e mais apreciadas pelos pacientes é o facto deste tipo de cirurgia minimizar os danos em tecidos saudáveis, acelerando a recuperação do paciente, isto porque, o tremor fisiológico natural do cirurgião é cancelado por esta tecnologia em tempo real, melhorando a precisão cirúrgica.

Não obstante, também existem problemas associados a este modelo de cirurgia. Um grande problema com a telecirurgia é o tempo de latência, que é definido como o atraso na transferência de feedback auditivo, visual e até tátil entre os dois locais distantes. O aumento do tempo de latência é atribuído principalmente ao problema e ao congestionamento do roteamento da rede e à sobrecarga do servidor. Para além disto, um estudo da universidade de Washington afirmou que é possível hackear um robô de telecirurgia. Isto é, é possível alterar os comandos de modo que os movimentos do robô sejam irregulares. Os investigadores envolvidos neste estudo fizeram movimentos mais longos ou mais curtos do que o médico pretendia, acionando um mecanismo de paragem automática que impedia a continuidade da cirurgia e, finalmente, foram capazes de assumir completamente os controlos do cirurgião. Foi descoberto ainda que a ligação de vídeo que permitia ao cirurgião ver o que ele estava a operar era acessível ao público.

Postas todas estas vantagens e desvantagens de um sistema que se mostra visionário, será que confiaria numa telecirurgia sabendo que esta poderia ser hackeada, mas que, caso isso não acontecesse, saberia que é um modelo de cirurgia muito mais precisa que as convencionais?

Bibliografia:

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