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Organóides são versões miniaturizadas de um órgão, fisiologicamente idênticas, capazes de reproduzir reações e comportamentos semelhantes ao órgãos que representam. Estes derivam de células embrionárias e pluripotentes que, com a capacidade de diferenciação, se organizam e estratificam nos tecidos ou orgãos desejados. As possibilidades são vastas: se pudermos miniaturizar tantos órgãos e tecidos quantos quisermos, poderemos ter ao nosso dispor um futuro livre de testes em animais, um futuro no qual as simulações em laboratório sejam fisiologicamente fidedignas e análogas aos resultados obtidos no ser humano, mas com uma ética e moral bastante superior.

Os organóides podem ajudar a salvar vidas. Já em 2016 saía no Público uma notícia que realçava este mesmo acontecimento. Um rapaz com fibrose quística evitou um transplante de pulmão graças a mini-instestinos usados para testar fármacos in-vitro. A doença descrita necessitava de um dispendioso tratamento, no entanto, sem certezas de que este resultaria para este caso particular. Assim, os investigadores, a partir de células estaminais do intestino, foram capazes de reproduzir o órgão do paciente e assim testar em ambiente in-vitro o referido tratamento. Confirmando a sua eficácia, o hospital pôde avançar sem dispender milhares de euros e sem submeter um paciente a uma terapêutica baseando-se apenas na “esperança de que..”. Esta confirmação constituiu um apoio reconfortante, tanto a nível emocional para o paciente, como a nível monetário.

Os Organoídes são uma realidade não muito distante, tal que já foi possível desenvolver mini-cérebros artificiais com o intuito de testar a toxicidade de substâncias. Para além do perturbante facto de que substâncias potencialmente tóxicas serem ainda testadas em animais, deixa-nos ainda mais desconfortáveis saber que muitas vezes as mesmas substâncias que foram aprovadas em teste animal, falham quando passam à fase de testes em humanos. Tal acontece porque apresenta-se fisiologicamente difícil ter modelos animais que realmente repliquem a reação dos tecidos humanos. Portanto, para além de submetermos animais a testes do género, estes acabam muitas vezes por ser, de certa forma, inúteis. Se o lado empático, do que é ser humano e ter consciência ética das nossas ações, chama por nós, os organóides demarcam-se como um dos tópicos do desenvolvimento da Medicina e da Tecnologia que torcemos para que rapidamente se torne uma realidade em todos os laboratórios. Entre as inúmeras vantagens encontra-se a certeza de que possibilitarão também uma medicina muito mais personalizada.

Estes organóides são também embebidos em chips, formando o chamado organ-on-a-chip. O chip possibilita-nos um vasto design de estruturas elétricas, utilizando tecnologias de microfluídica, que nos permite não só reproduzir o ambiente em que estes órgãos ou tecidos se encontram no corpo humano, como também, paralelamente, efetuar medições e testes, por exemplo de fármacos ou de integridade dos tecidos, entre outras utilidades. Temos por exemplo o skin-on-a-chip, pele esta composta pela epiderme e derme, proveniente de células primárias que são colocadas nestes sistemas complexos onde é possível reproduzir o ambiente vascularizado da pele, a partir de microfluídica. É ainda possível  produzir modelos de pele de doentes e testar fármacos neles, como é o caso da “Úlcera de Pé diabético”, uma patologia crónica na pele de diabéticos que impede feridas de sararem, problema que ainda hoje leva a bastantes amputações de pacientes diabéticos. Skin-on-a-chip com modelos de pele diabética poderá abrir novos horizontes e ajudar a compreender e solucionar diferentes patologias nos mecanismos de cura dos mesmo.

Existem muitos outros modelos de organóides, sendo as possibilidades quase infinitas. O futuro dos testes em laboratório, com a utilização destes “mini” modelos, deixa-nos assim uma esperança reconfortante, que sejam mais reais e por isso mais fiáveis, mais éticos e muito mais personalizados.

Bibliografia:

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