Este artigo faz parte de uma série de artigos redigidos por colaboradores do Departamento de Ensino e Ação Social da ANEEB. Apoie o autor lendo o artigo no seu LinkedIn.

Desde sempre que a Medicina se debate com a falência de órgãos vitais e as insuficientes doações. Tema para inúmeras conferências, palestras, e conversas, os órgãos artificiais têm vindo cada vez mais a afirmar-se, a par da Engenharia Biomédica, de Células e Tecidos, e da Medicina Regenerativa, como uma possível estratégia para este combate.

Efetivamente, um órgão artificial define-se como um mecanismo fabricado pelo ser humano, visando a integração no corpo humano e, por conseguinte, a restauração de uma função biológica e da qualidade de vida do paciente. Embora atualmente se acentue o desenvolvimento de órgãos artificiais mais complexos, dispositivos como acessórios auditivos e próteses simples já integram o nosso quotidiano há centenas de anos. Anteriormente, eram desenvolvidos exclusivamente a partir de materiais como plásticos e metais, o que lhes conferia um caráter temporário, e uma dificuldade acentuada na mímica de um órgão biológico e suas funções, já que estes integram uma vasta variedade de componentes (diferentes tecidos, ligamentos,…).

Uma grande impulsionadora dos órgãos artificiais contemporâneos é a impressão 3D, e até, mais concretamente, o bioprinting, uma ferramenta que permite a projeção e fabrico de tecidos funcionais. De uma forma geral, caracterizam-se as aplicações possíveis em dois grupos: Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa; e Aplicações Biomédicas (por exemplo, na biopreservação e deteção de narcóticos). Na sua comercialização atuam já diversas empresas, mais focadas na aplicação da técnica à cartilagem, ao osso, aos tecidos hepático e mamário. Seguindo a linha de investigação que se tem dedicado a esta área, a tendência será para que estas impressões evoluam em qualidade e resolução, permitindo o desenvolvimento de equivalentes a estruturas cada vez mais complexas.

Em Portugal, o primeiro implante de coração artificial realizou-se em março de 2017, no hospital de Santa Marta, Lisboa, sob coordenação do cirurgião cardiologista José Fragata. O dispositivo consistia numa “bomba muito diferenciada”, assente em princípios de levitação magnética. Tinha apenas um contacto com o exterior, na parede abdominal do paciente, este que servia para efeitos de carregamento de baterias.  Na altura, já se tinham realizado 20 cirurgias semelhantes em Espanha e 1200 no mundo, e mais 6 portugueses podiam ser os próximos candidatos ao procedimento. Com efeito, a segunda cirurgia nacional tomou lugar, com sucesso, três dias depois, no hospital de Santa Cruz, Lisboa.

Com o desenvolvimento notório dos órgãos artificiais, pessoas invisuais já conseguiram visualizar estímulos, diabéticos conseguem ter um regulador automático de glicémia, os aparelhos de diálise tornam-se portáteis, corações artificiais podem solucionar insuficiências cardíacas, entre outros desenvolvimentos. Ainda assim, a já comum questão-chave levanta-se: a que custo? Efetivamente, o coração artificial referido obriga à dispensa de mais de 200 mil euros. Já as técnicas de impressão 3D, que se espera poderem reduzir os encargos, enfrentam ainda os elevados custos dos modelos. Por último, a avaliação retrospetiva dos efeitos colaterais à aplicação destas tecnologias, ainda não se apresenta suficientemente validada. Não obstante a estes critérios, é significativa a quantidade de depoimentos de pacientes que viram nos órgãos artificiais implementados, uma esperança para as suas vidas.

Bibliografia:

  • Raguin, T., Dupret-Bories, A. and Debry, C. (2017). Artificial Organs. Med Sci, 33(1), pp. 66-72.
  • Matozinhos, I., Madureira, A., Silva, G., Madeira, G., Oliveira, I. and Corrêa, C. (2017). Impressão 3D: Inovações no campo da Medicina. Revista Interdisciplinar Ciências Médicas – MG, 1(1), pp. 143-162.
  • Malchesky, P. (2018). Artificial Organs 2017: A Year in Review. Artificial Organs.
  • Derakhshanfar, S., Mbeleck, R., Xu, K., Zhang, X., Zhong, W. and Xing, M. (2018). 3D bioprinting for biomedical devices and tissue engineering: A review of recent trends and advances. Bioactive Materials, 3(2), pp.144-156.
  • DN. (2017). Primeiro implante de coração artificial bem sucedido em Portugal. [online] Available at: https://www.dn.pt/portugal/interior/ministro-anunciou-primeiro-transplante-de-coracao-artificial-em-portugal-5709504.html [Accessed 15 Mar. 2019].
  • DN. (2017). Já foi feito o segundo implante de ″coração artificial″. [online] Available at: https://www.dn.pt/sociedade/interior/ja-foi-feito-o-segundo-transplante-de-coracao-artificial-5717568.html [Accessed 15 Mar. 2019].
  • DN. (2017). Primeiro português com ″coração artificial″ recusou primeiro a ideia, mas agora deve-lhe a vida. [online] Available at: https://www.dn.pt/sociedade/interior/primeiro-portugues-com-coracao-artificial-recusou-primeiro-a-ideia-mas-agora-deve-lhe-a-vida-8538492.html [Accessed 15 Mar. 2019].
Categorias: Artigo