A ANEEB teve oportunidade de entrevistar um dos cofundadores da Adapttech, Frederico Carpinteiro, que nos recebeu no dia 15 de dezembro de 2017.

[Entrevistador 1] – Rui Garcia

[Entrevistador 2] – Mariana Mourão

[Entrevistado] Frederico Carpinteiro

[Entrevistador 2] – Antes de mais quero dar-vos os parabéns pelo vosso projeto. Qual foi o seu percurso académico?

[Entrevistado] – Eu frequentei o MI em Bioengenharia na FEUP, no ramo de Engenharia Biomédica. Entretanto, tive alguma formação na área de negócios com Programas de Aceleração em que participamos: fiz parte do Royal Tech 2015, da COTEC Portugal e da Porto Business School. Fiz também o inRES da Carnegie Mellon Portugal e na Carnegie dos Estados Unidos para onde acabamos por ir 2 meses para receber formação neste contexto.

[Entrevistador 2] – Criaram a empresa porque surgiu uma ideia ou foi a necessidade do mercado que vos propuseram e vocês foram atrás dela?

[Entrevistado] – Foi um bocadinho dos dois, ou seja, na altura comecei a trabalhar nisto porque quando estava a tirar o curso senti necessidade de pôr em prática alguns dos conhecimentos que estava adquirir. Juntamente com outro colega fomos para um grupo de investigação da FEUP, o BioStar, onde estudantes de doutoramento orientavam estudantes de mestrado, quando fomos para lá eles já tinham temas mas nós podíamos propôr o nosso. Na altura, tinha interesse em trabalhar na área das próteses, e sugeriram criar um modelo 3D do interior de um encaixe. Comecei a trabalhar nisso, e a minha tese baseou-se nessa parte do produto. Entretanto surgiu a necessidade de construir um protótipo e não conseguia financiamento, comecei a ir a alguns concursos de empreendedorismo e de pitch apenas para angariar dinheiro para o protótipo, nunca com a ideia de criar um negócio. Mas o feedback foi tão bom que realmente vi que havia uma oportunidade. Conheci o Mário, ele também achou que poderíamos juntar as duas coisas, e com a tecnologia que ele dominava e a que eu também, conseguimos-nos juntar e ter um produto interessante. Eu acabei o curso em 2014, e comecei por criar um protótipo, cometendo o erro de pensar que se começa pela tecnologia e depois se procura o mercado. Trabalhamos intensivamente e quando construímos um protótipo decidimos ir ao encontro dos investidores. Percebemos que não estávamos minimamente preparados, paramos e fomos aceites no COHiTEC. Em 2015 estivemos a receber formação na área do negócio: desconstruir a ideia, criar um modelo de negócio, e assim que saímos do COHiTEC tivemos a sorte de entrar para o inRES, que nos permitiu validar tudo aquilo que tínhamos construído. Ir falar diretamente com o cliente, estar diretamente em contacto com o nosso mercado principal, que é os EUA, conseguimos o investimento do New York Capital que nos permitiu começar a empresa.

[Entrevistador 1] – Quais as dificuldades na parte da constituição da empresa?

[Entrevistado] – Eu acho que existem três dificuldades principais. Uma das grandes dificuldades para nós foi o início/arranque, para todos os efeitos estivemos um ano e meio a gastar dinheiro nosso e das nossas poupanças para puder trabalhar. Também verificamos que na fase de protótipo há uma necessidade muito grande, principalmente quando se está a falar duma empresa de hardware, em construir alguma coisa, não é só sentar-se num computador e programar, tudo depende do tempo que a pessoa tem, mas falta uma componente física e não havia ninguém que nos pudesse proporcionar esse apoio, nem laboratório disponíveis para nós, não havia componentes que alguém nos pudesse dar ou emprestar. Foi preciso ir a investidores a apresentar o produto com a parte tecnológica menos desenvolvida do que aquilo que gostaríamos. Por acaso tivemos a sorte de ter conseguido o passaporte para o empreendorismo, e investimos algum desse dinheiro na empresa para reconstruir o protótipo básico e comprar as nossas primeiras ferramentas. A segunda dificuldade eu diria que é conseguir o investimento, atrair investimento em Portugal não é fácil e muito menos se é uma empresa de hardware e de hardware médico: é preciso comprar os componentes, ter uma equipa, e com pouco dinheiro é difícil. Na área médica é ainda pior porque uma empresa precisa de alguns anos até conseguir vender seja o que for: existem as certificações, testes clínicos em tudo e agrava ainda mais. Ser uma empresa médica e de hardware é bastante peculiar, por acaso, tivemos a sorte de encontrar o Hovione Capital que é um investidor focado na área médica, em dispositivos médicos e de saúde digital, e foi uma grande ajuda! A terceira dificuldade acho que foi constituir a equipa: as primeiras contratações foram complicadas pois é como que encontrar pessoas que serão quase os teus sócios adicionais! Devem ser pessoas em quem confies, mas de boa qualidade técnica e que estejam dispostas a abdicar de regalias que já têm por serem experientes, não é fácil! A partir daí criámos o nosso método de entrevista, de seleção, a rede interna das pessoas é maior.

[Entrevistador 1] – Uma questão um pouco mais ligeira: vocês devem ter pensado sobre o nome, porquê Adapttech?

[Entrevistado] – Quando entramos para o iUP25k precisávamos de alguma visibilidade, e como era uma empresa focada em ajudar pessoas com limitações físicas a viver melhor o seu dia -a-dia e melhorar a sua qualidade de vida surgiu esse nome. Há muita gente a trabalhar para encontrar cura para doenças, mas ninguém se foca em dar qualidade de vida a essas pessoas, nós fazemos isso, daí tecnologias de adaptação, adaptations technologies foi reduzindo para Adapttech.

[Entrevistador 2] – Há um pouco falou-me que participaram numa feira nos Estados Unidos, a Orthotic & Prosthetic World Congress, pode falar-me um pouco sobre essa experiência?

[Entrevistado] – Sim, nós estivemos no Orthotic & Prosthetic World Congress, em Las Vegas no início de Setembro. Foi uma experiência boa no global, tivemos alguns imprevistos, mas conseguimos estar com todas as grandes empresas da área e tivemos pessoas das maiores empresas a visitar o nosso stand e ver o nosso produto. Saíram resultados importantes desse congresso, futuros clientes e reuniões para demonstração de produto. E agora iremos ter outras feiras importantes aqui na Europa. Iremos estar no World Congress Orthopädie em Leipzig, que é uma feira de ortoprotesia mundial.

[Entrevistador 1] – Vocês costumam trabalhar com estudantes de Engenharia Biomédica?

[Entrevistado] – Sim, eu vim desse Mestrado e o Mário tirou o Doutoramento em Engenharia Biomédica também na FEUP, logo sabemos as mais valias que as pessoas daquele curso tem. Temos estágios de verão todos os anos e para todos os departamentos da empresa. Já tivemos estagiários de França e do Vietname, tivemos pessoas do Minho, Aveiro, Porto, Coimbra. Temos um acordo de estágios com o Instituto de Engenharia de Nuremberg. Durante o recrutamento tipicamente não olhamos para as credenciais. Fazemos uma seleção pelo currículo, competências que tem, e não pelo grau em que está no curso. Tem a ver com a atitude da pessoa, com a vontade de trabalhar e a vontade de aprender, com aquilo que a pessoa gosta e quer fazer. O espírito de equipa e dedicação é totalmente diferente porque toda a gente acredita e adora o que está a fazer!

[Entrevistador 1] – Não é fácil ter esse ideal nos dias que correm e gostava de lhe dar os parabéns pela coragem. Mais uma vez, parabéns pelo vosso projeto. Começaste em 2014 e em 3 anos conseguiste tudo isto!

[Entrevistado] – Em maio de 2016 éramos só os 2 e neste momento somos 14 pessoas. A equipa cresceu bastante e isso é uma das coisas que mais orgulho.

Categorias: Notícia