A ANEEB teve oportunidade de entrevistar um dos responsáveis pelo Laboratório de Biomecânica do Porto – Pedro Fonseca, que nos recebeu no dia 15 de dezembro de 2017.

[Entrevistador 1] – Rui Garcia

[Entrevistador 2] – Mariana Mourão

[Entrevistado] Pedro Fonseca

 

[Entrevistador 2] – Começando por uma pergunta mais genérica: Qual é a sua área de estudos e porquê o seu interesse pelo LabioMep?

[Entrevistado] – Quando era pequeno quis ser engenheiro biomédico porque gostava de inventar, queria ser arquiteto porque queria construir e acima de tudo, queria deixar uma marca na sociedade: construir coisas novas e úteis às pessoas. Numa perspetiva mais realista, decidi que iria seguir a área da saúde pois queria ajudar pessoas e fazer algo que gostasse! Um dia vi uma apresentação sobre próteses da anca e cimento ósseo que achei muito interessante. Sinto-me bem, gosto do que faço e ao mesmo tempo ajudo pessoas e acho que isso sumaria muito bem a razão pela qual estou aqui, por me identificar com a missão do LabioMep.

[Entrevistador 2] – Como o LabioMep é um laboratório multidisciplinar (tem parcerias com as faculdades de Desporto, Medicina e Engenharia da Universidade do Porto), considera enriquecedor trabalhar com profissionais de outras áreas?

[Entrevistado] – Sem dúvida, eu acho que é uma das grandes vantagens deste trabalho. Puder conviver com profissionais de outras áreas, aprender pois nunca devemos de deixar de ter esse objetivo de vida, querer aprender e saber mais e a melhor. E isso acontece quando se interage com especialistas de outras áreas. Por outro lado, sinto que tenho facilidade, enquanto engenheiro biomédico, de falar com um médico, com alguém de desporto ou da engenharia, pois a nossa formação foi de tal modo genérica, e exploramos tantas possíveis vertentes que temos bases que nos permitem ter um entendimento alargado.

[Entrevistador 2] – Os médicos e os doutores de desporto estão abertos aos estudos efetuados tanto a nível clínico como de reabilitação?

[Entrevistado] – Ainda é um pouco dependente da área profissional. Existem certas áreas que ainda não estão muito abertas a estas questões da investigação. A área desportiva tem uma boa abertura, as pessoas interessam-se muito. Na área médica os clínicos mais jovens que ainda tem uma grande capacidade de absorver mais informação também demonstram bastante interesse. Temos tido a sorte de ser capazes de penetrar em várias áreas profissionais – desportistas, médicos – e levar até eles os frutos da nossa investigação do ponto de vista prático. Estou a falar da realização de análise de marcha no laboratório que auxiliam o médico ortopedista na tomada de decisões pré-cirúrgica, pós-cirúrgica ou para outro tipo de terapêutica.

[Entrevistador 2] – Julga que o desporto de alto rendimento pode beneficiar com a biomecânica?

[Entrevistado] – Sem dúvida. Uma das razões pelas quais nós estamos na faculdade de desporto é mesmo essa. Quebrar recordes não é fácil, não é todos os dias que se faz! Por vezes pensa-se que é necessário ter um super atleta, mas na realidade o que é preciso é ter uma boa equipa que o ajude a melhorar a qualidade e performance do seu treino. Há uns anos atrás tivemos aqui a Naide Gomes, ela fez um salto em comprimento, nós medimos a força que ela fazia na chamada e fomos capazes de ver também a distância que ela fez. Dando-lhe um pequeno feedback de como elevar um pouco mais o joelho durante a elevação pode traduzir-se por uma capacidade de elevar mais o centro de massa, que iria corresponder a uma maior distância saltada e isso pode ser o suficiente para bater o recorde. Na natação, os recordes batem-se às décimas de segundo e pequenos pormenores técnicos têm influência na velocidade e no rendimento obtido.

[Entrevistador 2] – Atualmente acompanham algum atleta da área da natação?

[Entrevistado] – Portugal tem uma tradição na natação muito forte, temos estado presentes nas grandes competições mundiais e olimpíadas. O sucesso é relativo, não estamos a falar em medalhados mas também não estamos a falar em últimos classificados. A ciência na natação em Portugal é forte, o nosso diretor foi treinador olímpico durante muitos anos e é membro do comité olímpico em natação, sempre fez a transição do conhecimento da academia para a aplicação prática nos nadadores. Nós acompanhamos a seleção olímpica, anualmente eles vêm cá fazer várias avaliações de controlo de treino para saberem até que ponto o treino está a ser benéfico e onde se pode melhorar. No início de 2018 vamos ter mais uma sessão desse género e estamos muito satisfeitos por poder dar esse contributo aos nossos nadadores. Temos muito orgulho dos nossos nadadores!

[Entrevistador 2] – Na sua opinião, de todos os estudos desenvolvidos pelo LabioMep, qual foi aquele que teve maior impacto a nível nacional ou internacional?

[Entrevistado] – Quando se fala em relevo e impacto pensa-se logo em prémios e vem-me dois prémios à ideia. A primeira spin-off do LabioMep: uma empresa que surgiu de um estudo iniciado aqui por um estudante que se dedica a combater o gap do conhecimento que há na biomecânica do surf. Então fez um conjunto de procedimentos experimentais, estudou o movimento em condições controladas no laboratório, fez estudos na piscina e assim acabou por desenvolver dispositivos de medição, colocados na prancha de surf, de modo a fazer monitorização do surfista em alto mar e dar-lhe um feedback de como pode melhorar a sua performance. Isso permitiu criar uma empresa que tem tido bastante destaque tanto nacional como internacional. Temos também o prémio da Sociedade Portuguesa de Medicina Dentária num estudo que realizamos sobre a  avaliação ergonómica de um banco em sela que promove uma melhor postura lombar para o médico dentista.

[Entrevistador 2] – Quais as principais dificuldades em manter um laboratório de referência como o LabioMep na linha da frente na investigação em biomecânica?

[Entrevistado] – Eu acho que a maior dificuldade é o tempo, apesar de termos o melhor equipamento que existe no mundo, à medida que o tempo passa ele vai ficando envelhecido, vai deixando de estar na ponta e então temos que durante o tempo disponível tirar o melhor proveito. O facto de termos muitas solicitações obriga-nos a raciocinar muito bem os trabalhos que fazemos. É muito difícil manter esta gestão de trabalhos e de volume de dados que se gera. Fazer ciência e investigar é fácil na medida em que podemos pegar no equipamento e trabalhar agora, o tempo que se necessita para tudo isso é a grande dificuldade e obviamente que há a relação tempo dinheiro: quanto mais tempo se gasta mais dinheiro se perde.

[Entrevistador 1] – Obrigado Pedro pela entrevista, desejo-te a ti e à equipa os maiores sucessos e espero que continuem a singrar, não só a nível académico como industrial.

[Entrevistado] – Quem quiser vir ao laboratório, é sempre muito bem vindo. Como temos um grande número de solicitações significa que terá de ser agendado previamente, mas nunca dizemos que não a ninguém.

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