No passado dia 26 de abril de 2018, a ANEEB teve a oportunidade de entrevistar o Bruno Santos (CEO) e o Pedro Madureira (CSO) da Immunethep no Biocant.

[Entrevistador 1] – Natália Alves

[Entrevistador 2] – Patrícia Ribeiro

[Entrevistado 1] – Bruno Santos (CEO)

[Entrevistado 2] – Pedro Madureira (CSO)

[Entrevistador 1] – Qual foi o vosso percurso académico e como é que este vos preparou para o desafio de fundarem a Immunethep?

[Entrevistado 2] – Eu tirei a licenciatura em Bioquímica na Universidade do Porto e depois o doutoramento em Ciências Biomédicas, sempre trabalhando em tentar perceber como é que determinadas bactérias influenciam a nossa resposta imune, sendo que o meu doutoramento foi a caracterização da resposta imune a uma infeção em concreto. Mais tarde, depois do meu post-doc, já a começar um grupo mais independente, conheci o Bruno e os seus sócios da Venture Catalysts e foi aí que formamos a Immunethep. A abordagem da Immunethep foi um pouco a continuação da investigação que eu tinha vindo a fazer.

[Entrevistado 1] – Eu por outro lado tenho um percurso muito diferente, tirei Engenharia Biológica e logo que acabei o curso fui trabalhar para um centro tecnológico da metalomecânica e depois para a indústria eletrónica, sendo que estava sempre ligado á parte do ambiente e da engenharia da segurança e qualidade. Entretanto essa empresa faliu e então decidi fazer um MBA, onde conheci 4 colegas com os quais montei uma empresa que é a Venture Catalysts, cujo objetivo é encontrar investigação de topo que possa ter aplicação no mercado e tentar convencer os investigadores a juntaram-se a nós no sentido de fazer avançar o seu trabalho para produtos reais e novas empresas. Foi isso que aconteceu com a Immunethep, sendo que neste caso a parte da Engenharia Biológica foi muito útil para identificar o produto e para ver o potencial no projeto.

[Entrevistador 1] – Acha que é essencial para alguém que venha da área biológica fazer um MBA para criar uma empresa, ou é possível fazê-lo sem esse?

[Entrevistado 1] – É perfeitamente possível, eu tive 3 colegas que começaram a criar a empresa ainda durante o curso e essa empresa existe atualmente. Eu diria que, nesta altura, quase 20 anos depois de termos acabado o curso, quase metade dos meus colegas optaram por caminhos empreendedores, não só em empresas de biotecnologia mas também outras como consultorias e laboratórios, o que é interessante. No meu caso, não me sentia confiante para o fazer sozinho, mas em contacto com o mercado de trabalho pensei: eu consigo fazer pelo menos tão bem quanto isto, e por isso decidi avançar. Depois depende da empresa, nesta estamos a falar de um grande nível de complexidade e portanto exige conhecimentos muito mais específicos quer na área da gestão quer da biologia. Não considero que seja uma “necessidade” até porque há pessoas que conseguem sem MBA, mas sinto que ajuda e é muito mais seguro.

[Entrevistador 1] – Podem explicar um pouco o funcionamento da vacina PNV-1 e o valor que esta vem acrescentar ao mercado?

[Entrevistado 2] – Todos nós temos ideia de como funciona uma vacina: o sistema imune têm capacidade de criar memória contra moléculas estranhas, por isso é que há infeções que temos quando somos pequenos mas depois durante o resto da vida estamos imunes a elas. Como qualquer vacina, a nossa o que faz é induzir essa memória no hospedeiro, fazer com que o nosso organismo consiga atacar rapidamente um certo alvo, e é aqui que está a novidade que a nossa vacina vem introduzir. Nós descobrimos que diferentes bactérias que nos infetam e causam doenças libertam uma proteína que impede o nosso sistema imune de atuar, e é essa proteína o alvo da nossa vacina. Assim, sempre que houver uma bactéria que a liberte, os anticorpos neutralizam-na e o sistema imune consegue atuar perfeitamente contra a bactéria. Com isto conseguimos que uma única vacina impeça infecções de 5 bactérias diferentes e de todos os seus estereótipos.

[Entrevistador 1] – Um tema que atualmente é muito abordado e controverso é a resistência aos antibióticos. De que forma é que este produto vai combater isso?

[Entrevistado 1] – Apesar do conceito da nossa vacina parecer muito lógico, ainda ninguém teve este tipo de abordagem. Até agora a abordagem tem sido, identificar um problema e eliminá-lo. Agora nós olhamos para as coisas de uma forma completamente diferente, para o porquê do nosso sistema imune não conseguir responder, e foi isso que nos permitiu detetar a proteína que é excretada por bactérias diferentes. A abordagem de “matar” um a um, faz com que as vacinas que temos sejam muito limitadas, leva a que os antibióticos não funcionem se houver alguma alteração da bactéria, e é isso que leva ao problema da resistência a antibióticos. Como estamos a abordar a questão de uma forma diferente nem sequer se chega a colocar esse problema.

[Entrevistado 2] – Um antibiótico neutraliza uma molécula que é importante para um processo essencial à bactéria, como por exemplo a síntese de DNA. Como a própria bactéria está a sofrer ação direta desse fármaco, e como as bactérias têm uma capacidade grande de se mutarem, o que muitas vezes acontece é que há essa pressão seletiva e basicamente ou vamos selecionar aquelas que são resistentes, e o antibiótico deixa de atuar, ou as próprias bactérias começam a produzir algo que anule o efeito do antibiótico. Nós estamos a neutralizar algo que é libertado pela bactéria, ou seja, ela em si nunca sofre essa pressão seletiva, nem sabe o que lhe está a acontecer.

[Entrevistador 1] – Como foi testado o produto antes de ir para o mercado?
[Entrevistado 1] – Ainda não foi para mercado, mas todos os produtos farmacêuticos tem que passar por uma série de etapas antes de serem comercializados. Primeiro fazer testes pré-clínicos em modelos animais próximos daquilo que é o problema em humanos, que mostram que o produto é seguro e eficaz. Depois há 3 fases de ensaios clínicos: vemos se não causa problemas em pessoas saudáveis; testamos num pequeno grupo de pessoas que têm o problema para ver os primeiros níveis de eficácia; e por fim, testamos numa população significativa e estatisticamente relevante em que se comprove que de facto desempenha a sua função sem perigos. No caso presente, como é uma vacina, ainda por cima preventiva, o maior problema será a fase 3 das etapas visto que não sabemos à partida quais serão as pessoas que serão infetadas. Neste momento, todos os ensaios pré-clínicos foram realizados com sucesso, e estamos agora a passar para os ensaios clínicos.

[Entrevistador 2] – Como perspetivam o futuro?
[Entrevistado 1] – Ou desenvolvemos os produtos até que uma empresa farmacêutica esteja tão interessada neles que nos compra, ou chegamos a um ponto que licenciamos esses produtos e continuamos a fazer investigação e a lançar e desenvolver novos produtos. Neste momento estes são os caminhos possíveis e normais de evolução, mas daqui a uns anos veremos qual vai ser a tendência para a Immunethep. Qualquer que seja o caso, o nosso objectivo é que uma grande parte das operações continuem a ser feitas em Portugal.

Categorias: Notícia