No passado dia 15 de fevereiro, decorreu na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (UC), a segunda conferência do ciclo “Conversas com Ética”, que está a ser organizado conjuntamente pelo Departamento de Ciências Médico -­ Legais e Ético -­ Deontológicas da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e pelo Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa, com o tema CRISPR – copy-paste de ADN: As novas tecnologias de Engenharia Genética.

Com o aparecimento de técnicas cada vez mais simples, rápidas e eficazes para a manipulação do ADN (como o aclamado CRISPR- CAS9), estamos perante uma verdadeira revolução no mundo da genética, comparável com aquela que os computadores trouxeram à ciência e à sociedade no geral. No entanto, tal como acontece com qualquer grande mudança de paradigma, temos de ser extremamente cautelosos na maneira como manuseamos e aplicamos estas técnicas pois, se é facto que elas podem trazer respostas que a comunidade científica persegue há anos (como o tratamento de doenças genéticas), é igualmente verdade que em mãos erradas podem vir a ser catastróficas para a humanidade. Neste contexto, torna-se imperativo que se discutam abertamente as questões morais e éticas por detrás deste tema e foi esse o objetivo, muito bem conseguido, desta “Conversa com Ética”.

Numa ótica da bioética da edição genética, a Dr.ª Ana Sofia Carvalho da Universidade Católica Portuguesa e atual coordenadora do Programa para a Responsabilidade na Investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), começou por apontar que, apesar do CRISPR-CAS9 ter sido um grande breakthrough do ponto de vista científico, este assunto traz muito pouco de novo no âmbito da montagem e do tipo de discurso ético. A grande diferença é que, ao contrário do que aconteceu com outros temas controversos como o aborto ou a eutanásia, agora o espaço de tempo que decorre entre aquilo que é uma mera eventualidade e uma realidade é extremamente curto, o que obrigará a uma discussão célere, mas ao mesmo tempo eficaz e consciente sobre as questões bioéticas.

A Dra. reforçou a ideia de que este tema é de uma abordagem pública extremamente sensível, salientando o importante papel que os meios de comunicação social têm ao fazer uma divulgação correta e, acima de tudo, cientificamente fidedigna dos progressos e descobertas que têm sido feitos. “É muito fácil dar falsas esperanças a quem já as perdeu por completo”, diz em relação aos casos de pessoas com familiares portadores de doenças genéticas, “e os jornais ao anunciarem estas técnicas como miraculosas estão a dar uma perspetiva irrealista e cruel às pessoas”.

Do lado mais técnico-científico do tema, o Dr. Francisco Regateiro, Presidente dos Serviços Hospitalares da UC, referiu que existem ainda muitos problemas por resolver, sendo o principal a aplicação desta técnica às células da linha germinativa, pois ainda não se compreende a 100% quais poderão ser os impactos dessa alteração a longo prazo e se essas modificações se perpetuaram através das gerações. Para além disso, o Dr. refere que esta técnica é interessante para doenças que advém de uma única mutação e não tanto para as mais complexas e multifatoriais, como acontece na maioria dos casos.

Foi, sem dúvida, um debate muito necessário e produtivo, que veio enriquecer bastante todos os que nele participaram. Resta congratular os organizadores por esta iniciativa e incentivar todos os leitores deste artigo a investigar mais sobre estes temas, de maneira a que possam criar uma opinião informada e consciente sobre a sua aplicação na nossa sociedade.

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