A ANEEB teve a oportunidade de fazer uma entrevista a um dos fundadores da NeuroPsyCAD, Hugo Ferreira, que nos recebeu no dia 6 de janeiro.
[Entrevistador 1] – Carolina Marques
[Entrevistador 2] – Rui Garcia
[Entrevistado] – Hugo Ferreira
[Entrevistador 1] Olá Hugo, fale-nos um pouco de si, como surgiu a Startup?
[Entrevistado] Sempre tive jeito para captar tendências, pelo que no âmbito da minha investigação em neurociências deparei-me com o tópico de conetividade cerebral, ou seja com o modo como o cérebro está organizado do ponto de vista estrutural e funcional. Nisto comecei um projeto no tópico abordando a vertente da neuroimagem, em 2011, candidatei-me a financiamento pela FCT e o projeto foi aprovado. Neste projecto, que incluiu a colaboração de ex-alunos do primeiro ano do curso de Engenharia Biomédica e Biofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), desenvolvemos uma abordagem multimodal ao estudo de conectividade resultando numa aplicação de software, a primeira no mundo, que combinava dados de imagiologia por ressonância magnética e de medicina nuclear. De igual forma fomos também os segundos do mundo a fazer tratografia com base num novo modelo de difusão por ressonância magnética para o qual contribuímos. Por fim, percebendo outra tendência científica decidimos aplicar algoritmos de aprendizagem automática aos nossos dados. Os resultados que obtivemos na classificação de dados relacionados com as doenças de Alzheimer, de Parkinson, Esquizofrenia e Autismo foram bastante encorajadores pois as nossas classificações apresentavam uma elevada precisão, competitiva com o que existia publicado na área. Sentimo-nos assim na obrigação de fazer algo mais pelos doentes e “tirar os resultados do laboratório e colocá-los no mercado”, estava aqui o embrião da NeuroPsyCAD, uma plataforma de apoio ao diagnóstico de doenças neuropsiquiátricas que faz recurso de imagem médica e algoritmos de aprendizagem automática. Assim sendo, em 2016 convidei a Diana Prata, a Vânia Tavares e o Ricardo Maximiano a participar no programa COHiTEC que justamente ensina a traduzir os resultados de investigação em ideias de negócio. Avançámos com o projecto NeuroPsyCAD e acabámos por ser uma das duas empresas financiadas pela Caixa Geral de Depósitos com 100 mil euros no âmbito do programa. E foi assim que o projecto se materializou com a formalização da empresa em Maio de 2017, o arranque no TecLabs, centro de incubação de empresas da FCUL, e a formação da equipa de trabalho em Julho de 2017.
[Entrevistador 1] Como surgiu o nome da empresa?
[Entrevistado] O nome é sempre muito complicado! Pensámos em vários nomes mas depois acabámos por chegar a um consenso: tínhamos estudado modelos para doenças neuropsiquiátricas, ou seja NeuroPsy, como usamos computer assisted diagnosis ficou CAD e assim surgiu NeuroPsyCAD.
[Entrevistador 1] A equipa da NeuroPsyCAD é muito multidisciplinar?
[Entrevistado] Sim, temos uma pessoa de informática e três de engenharia biomédica, com competências em desenvolvimento de software, processamento de imagem e em mineração de dados recorrendo em particular a algoritmos de aprendizagem automática. Eu, como tenho competências quer de engenharia quer clínicas, desenho o sistema e faço a revisão do ponto de vista do significado dos resultados obtidos com a algoritmia.
[Entrevistador 2] Relativamente à questão que disse, sobre dar significado aos resultados que têm, julga que uma colaboração com um estudante mais tradicional de saúde, como um neurologista ou um psiquiatra seja favorável?
[Entrevistado] Nós temos colaborações com especialistas em neurologia e psiquiatria e temos na nossa equipa um interno de neurorradiologia, que nos está a ajudar também a adquirir mais dados. Faz sentido que toda a gente esteja envolvida, porque na prática nós colocamos o doente no centro e todos nós estamos a ajudar, quer sejamos médicos, engenheiros biomédicos, enfermeiros, psicólogos ou outros técnicos de saúde. Trata-se de um trabalho de equipa sendo que a dinâmica desta é muito importante em equipa. Pois uma equipa que partilha e se apoia consegue avançar de forma mais eficiente.
[Entrevistador 1] Qual a principal diferença entre o projeto de investigação e a startup?
[Entrevistado] O ritmo de uma Startup é muito diferente comparando com o de investigação académica, é muito mais dirigido, temos um foco e temos de construir uma solução funcional e robusta, no nosso caso neste momento são soluções de suporte ao diagnóstico de doenças de Alzheimer e Parkinson. Ainda, muito importante, temos de errar muito rapidamente. Quanto mais rápido nós errarmos, seja no código, nas nossas percepções e nos pressupostos que temos relativamente ao mercado, mais rapidamente poderemos corrigir e redirecionar os nossos esforços. Em resumo, numa Startup o ritmo é muito rápido, focado contudo exploratório e de um ambiente de constante aprendizagem. Desde o início deste ano já construímos modelos de Alzheimer e Parkinson e de dia para o outro processámos, de forma cega, vários dados de doentes de um hospital parceiro fornecemos os resultados das avaliações ou sugestões de diagnóstico sobre a forma de relatório e obtivemos 100% de acertos na distinção entre pessoas saudáveis e doentes com Alzheimer, e ainda na distinção de doentes com défice cognitivo ligeiro e os outros dois grupos com elevada taxa de acerto, o que não é trivial.
[Entrevistador 1] Quais são as vossas perspetivas?
[Entrevistado] Uma das perspetivas que nós temos é que esta plataforma sirva de suporte ao diagnóstico, ou seja, uma plataforma que possa ajudar os colegas neurologistas, psiquiatras ou neurorradiologistas a diagnosticar com maior confiança, que seja fornecemos um relatório de avaliação imagiológica que serve como mais uma peça do puzzle diagnóstico que eles podem usar. Frequentemente, após a anamnese e exame neurológico sumário, o doente já fez testes neuropsicológicos, análises bioquímicas e até exames de imagem, como a imagem por ressonância magnética. Após estes exames complementares de diagnóstico, connosco têm a possibilidade de obter mais informação, pois encontramos um padrão de doença nestes dados imagiológicos complexos. Num futuro próximo, acreditamos que a plataforma NeuroPsyCAD pode evoluir para algo que seja centrado no doente, uma vez que o doente está cada vez mais informado e responsável pelo seu estado de saúde. Este inclusive poderá cada vez mais determinar quem quer que gira e analise os seus dados clínicos. A NeuroPsyCAD pretende assim promover uma maior proximidade entre o doente, o clínico e restantes profissionais e serviços de saúde, otimizando a gestão da saúde e do doente. É esta a visão para a NeuroPsyCAD no futuro, neste momento estamos já focados em apoiar e ajudar no diagnóstico.
[Entrevistador 1] Obrigado pelo seu tempo Professor e continuação de bom trabalho.
[Entrevistado] De nada, eu é que agradeço.