[Professor Paulo Freitas]: (…) Então diga lá as perguntas.

[Rui Garcia]: Então, nós gostaríamos começar com uma breve descrição do seu percurso académico professor. (…)

[Professor Paulo Freitas]: Percurso académico, a minha vida escolar tanto foi no Porto como fora do país: Moçambique, etc (…) depois fui para o Estados Unidos fazer doutoramento na Carnegie Mellon em Física, era um misto de física com engenharia electrotécnica, mas mais centrado na física. Depois a partir daí estive na IBM, portanto a Yorktown que é talvez um dos melhores laboratórios dos Estados Unidos, daí vim direto para o INESC(-MN), o que foi uma surpresa porque era um físico num edifício que tinha entre quatrocentos a seiscentos engenheiros eletrotécnicos, porém tive liberdade de fazer o que quisesse e financiamento do INESC(-MN). Em Lisboa não era muito conhecido ao contrário do que acontecia no Porto. Na altura, tinha muito trabalho em supercondutores, materiais magnéticos, sensores, e fui ganhando reconhecimento, então depois, passado um ano ou dois passei para o técnico na área da física, mantendo sempre os pés dentro do INESC(-MN). Em 2005 ou 2006, fui contactado pelo (Ministro) Mariano Gago para ser o vice diretor aqui (no INL), ficando um diretor espanhol e um vice diretor português. Fui subindo e fiquei professor no (Instituto Superior) Técnico muito cedo, sendo que como é uma instituição muito dinâmica permitiu subir na carreira facilmente. (…) Na altura, eu vim dos Estados Unidos, pouco depois de Portugal se ter juntado à união europeia portanto havia muito financiamento disponível (…) então isso permitiu-nos dar um salto enorme na parte de prototipagem de sensores, circuitos, etc. (…) Começamos a trabalhar na parte biológica, na parte de biochips, depois um bocadinho na parte de neurociências, e podemos dizer que há três pilares que foram sendo desenvolvidos, (…) juntaram-se depois o João Pedro Conde, a Virgínia Chu, a Susana Freitas mais tarde e fizemos aquele grupinho (…), um núcleo que formou aquela área toda lá em baixo. A parte biológica surgiu como uma área de aplicação das áreas que nós conhecíamos, nós já tínhamos os técnicos e éramos bons, competitivos, e aquilo era uma uma área nova de aplicação, estamos à quase vinte anos em aplicações na área biológica barra biomédica, eu digo sempre biomédica no fim porque é para aí que nos interessa ir.

(…)

[Rui Garcia]: Já tive oportunidade de ouvir o professor falar sobre sensores magneto resistivos… li o seu artigo na diagonal, e vi que já arquiteta algumas aplicações para biomédica, pode detalhar um bocadinho mais?

[Professor Paulo Freitas]: Neste momento nós estamos a usar uma tecnologia licenciada à Magnomics, nós temos duas, (…), estando a testar diretamente em pacientes que têm AVCs, no Hospital de Santiago (de Compostela). Quando o paciente
chega faz uma análise de sangue e nós estamos a testar dois biomarcadores, aquilo
demora uma hora aproximadamente, sendo necessário para saber se o paciente pode
ou não receber o tratamento antitrombótico, portanto, isto é, o exemplo direto do
trabalho. Temos duas engenheiras biológicas (Univ. do Minho e Univ. de Aveiro) que
estão a fazer testes pré-clínicos (…) Os testes estão a ter resultados, depois é fazer uma
boa publicação na área médica, com impacto. Também estivemos a começar testes para
a detecção de biomarcadores de cancro colorretal em fezes… eu preferia trabalhar em
soro (risos), mas o importante é saber como é que se trata aquilo, mas para isso é
necessário TER bancos de dados, creio que é o Hospital de Ourense, neste caso, que já
tem os bancos de dados, portanto aquilo é direto.

 

[Rui Garcia]: Trabalha muito com Espanha já estou a ver…

[Professor Paulo Freitas]: Trabalha-se, porque tivemos um acesso mais rápido. A
vantagem de Espanha, em Santiago (de Compostela) em particular, é ter bancos de
dados que podem ir até aos cinquenta anos, tendo a informação da história clínica dos
pacientes. Estão a fazer-se testes agora com CTC’s lá e aqui no (Hospital de) Santo
António e embora quiséssemos fazer uma colaboração com hospital de Gaia na parte de
cirurgia de intervenção não foi possível devido à falta de bancos de dados. (…)Este é um
projeto muito bonito que mistura a física com a biologia, tentando fazer um sensor que
vá verificar dentro do coração a funcionar se tem uma placa vulnerável.

[Rui Garcia]: Mas vê isso com os mediadores inflamatórios que estão a ser
libertados?

[Professor Paulo Freitas]: Começamos a fazer o estudo in vitro, para ver se
conseguimos imobilizar fluoróforos dinamicamente com o mesmo fluxo sanguíneo que
existe dentro do coração e já sabemos que conseguimos, agora temos de conseguir fazer
a imagem, para conseguir ter uma técnica que pode passar para um cateter. Neste momento eles trabalham, mas não têm este tipo de informação, não têm uma informação química têm apenas informação física e técnicas, portanto, de OCT que permitem ter uma ideia tipo da densidade do meio (…) nós temos como objetivo ter a informação química que comprove a existência ou não deste marcador de infecção, mas isso é um exemplo de projeto que está longe de estar terminado.

(…)

[Rui Garcia]: Uma última pergunta qual é para si a importância de ter uma associação nacional de estudantes de engenharia biomédica que faça um bocado a ponte entre universidades, empresas e também com outras especialidades, nós queremos contactar com os médicos, biólogos, veterinários…Como é que imagina daqui a cinco anos a nossa missão?

[Professor Paulo Freitas]: O importante é que vocês possam dinamizar encontros onde são expostos os alunos aos professores que trabalham mais na interface, ou às companhias que vão depois empregar essas pessoas na interface, portanto isso tem vindo a ser feito nos encontros nacionais de engenharia biomédica…

[Rui Garcia]: …mas sempre muito especializados, falta a parte de fazer a transição…

[Professor Paulo Freitas]: Mas não precisam ser especializados, não é? Têm lá as suas coisas normais, mas este tipo de interface, creio, que é muito importante ser discutido, vocês podem falar comigo e com outras pessoas e escolher casos para mostrar estes programas de pontos de interface que existem porque se não corre-se o risco de as pessoas (…) enveredar por caminhos que fogem muito à formação de engenharia biomédica. E, eu acho que a área biomédica é uma área brutal. Como se viu neste seminário, há uma série de aplicações a nível de biossensores, uns mais avançados que outros, desde biossensores in vivo, dérmicos, de várias formas e feitios (…), depois também temos muita coisa na parte de imagem que está em falta, principalmente na imagem ligada à parte química e a ter informação detalhada sobre o que se está a passar no momento, (…), portanto é este tipo de coisas (…) que se tem de ir procurando e encontrando fazendo por criar contactos que estão disponíveis para trabalhar, e aí vocês até podem ajudar, porque ao pôr, e criar estes encontros que não precisam ser muito grandes, fazem MEXER e levar as pessoas a pensar “o que é que estou aqui a fazer?”, isso leva a que se comece a falar de coisas, que às vezes parecem estúpidas e que não são, tendo possibilidades para avançar rapidamente…

[Rui Garcia]: Professor…obrigadíssima.

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