A ANEEB teve a oportunidade de fazer uma entrevista a um dos fundadores da CardioID, André Lourenço, que nos recebeu no dia 6 de dezembro.

[Entrevistador 1] – Rui Garcia

[Entrevistador 2] – Carolina Marques

[Entrevistado] – André Lourenço

 

[Entrevistador 1] Olá André, podes falar-me um pouco do teu percurso académico.

[Entrevistado] Comecei a estudar no Técnico em 1996 e acabei o curso de engenharia eletrotécnica em 2001. Estive um ano numa consultora e depois voltei para o técnico para fazer um mestrado que demorou 3 anos porque comecei a trabalhar numa Startup – Lusospace. Foi aí o meu primeiro contacto com o mundo do empreendedorismo, com a inovação e com a tentativa de fazer as coisas de maneira diferente. A Lusospace ajudou-me encarar o risco de uma maneira muito diferente, o que é muito importante para as Startups e ajudou-me a perceber que o nosso mercado é lá fora e por isso temos de fazer as coisas para o mundo. Depois comecei a dar aulas no ISEL e passado uns tempos liguei-me a outra Startup – Albatroz Engenharia. Continuei a fazer investigação no Técnico, no Instituto de Telecomunicações(IT) e a participar numa série de projetos da FCT ligados à saúde e desporto com dispositivos da Plux. Estava a viver um ambiente entre academia, indústria, propício à transferência de tecnologias. Nessa altura estava a fazer o doutoramento, também foi aí que surgiu a idealização do Bitalino, no IT, ao qual fiz parte dessa equipa. Entretanto surgiram coisas ligadas aos biosinais e biometria e assim surgiu a VitalID que foi a percussora da CardioID. Era um projeto do IT onde nós tentamos criar uma prova de conceito como utilizar eletrocardiografia para biometria para identificar pessoas, onde utilizamos o Bitalino.

[Entrevistador 2] Como se deu a transição do nome para CardioID?

[Entrevistado] Não nos deixaram registar a empresa como VitalID então fomos procurar um nome alternativo, andamos à procura de palavras dentro dum leque que tinham domínios disponíveis e assim surgiu CardioID.  Pareceu um bom nome porque tinha cardio e tinha identidade, por outro lado ID têm a ver com investigação e desenvolvimento e por outro lado a ligação à matemática e geometria – a forma geométrica – cardioid.

[Entrevistador 1] Em que consiste o vosso produto?

[Entrevistado] O nosso primeiro produto chama-se CardioWheel e é um sistema de assistência à condução baseado em biosinais. A nossa ideia consiste em correlacionar os dados da fisiologia do condutor com o comportamento de condução. Para isso estamos a complementar a nossa tecnologia com outros sistemas, em particular a Mobileye que permite analisar em tempo real todo o contexto de condução.  O nosso sistema consegue produzir indicadores de mudança de condutor (usando a biometria baseada no EG), detecção de fadiga e entrar noutros domínios mais complicados como o stress e emoções.

[Entrevistador 1] Ainda continuas a dar aulas, consideras que é uma mais valia estar em contacto com as geraçõe mais novas na academia?

[Entrevistado] Enquanto professor estou perto dos alunos, perto da geração mais atualizada, que é o futuro próximo. É bom estar próximo do que está a acontecer.

[Entrevistador 1] Como surgiu a passagem da ideia para o produto?

[Entrevistado] Ganhamos vários prémios em 2013, éramos uma ideia com muito potencial, que como prova de conceito estava muito longe de ser um produto. A nossa ideia era transitar a tecnologia rapidamente para uma grande marca e tentar ser incorporados. Mas isso não foi fácil, porque o mercado não foi receptivo ao novo tipo de biometria que criamos. Tivemos por um lado reconhecimento científico, por outro lado reconhecimento da comunidade empreendedora. Decidimos dar um passo em frente, criamos uma empresa. Em 2015 saímos do técnico e em 2016 já começamos a ter coisas mais próximas do mercado, nomeadamente, conseguimos um cofinanciamento da comunidade europeia, num projeto ligada a uma iniciativa, FIWARE, que nos permitiu ligar a nossa tecnologia a uma Cloud interoperável que permitia aos dispositivos da CardioiID comunicarem logo com uma série de outros serviços.

[Entrevistador 1] É open source?

[Entrevistado] O FIWARE é uma plataforma com APIs publicas e implementações de referencia open source. No fundo o que fizemos foi tornar o nosso primeiro produto, Cardiowheel, compatível com aqueles serviços. Desde que os carros tenham FIWARE nós podíamos falar com eles sem mudar quase nada. Foi nessa altura que começamos a trabalhar com a Barraqueiro, uma transportadora que têm acordos com várias operadoras, por exemplo, com a Rede Expressos. Assim começamos a fazer o protótipo da Cardiowheel montando volantes com diferentes materiais condutores.

[Entrevistador 1] Já pensaram fazer alguma parceria com alguma têxtil?

[Entrevistado] Sim, é uma possibilidade, os têxteis condutores em particular são bastante interessantes, no entanto os têxteis não são duráveis o suficiente para uma operação num automóvel, em particular no volante onde interagimos muito. Então tivemos de passar para materiais diferentes, como o couro condutor. Como a pele é um material já utilizado nos volantes foi uma necessidade adaptarmos aquilo.

[Entrevistador 1] Como é que a CardioID evolui ao nível de modelo de negócio?

[Entrevistado] A CardioID passou de uma empresa que estava “simplesmente” a desenvolver um produto, o Cardiowheel, para uma empresa que também está  vender e a integrar outros produtos complementares do mercado de assistência à condução (ADAS). Neste momento somos distribuidores de Mobileye, de um dispositivo de telemática, Geotab, ou seja, foi algo que surgiu pelo contacto com os clientes. Ok!  É preciso? Vocês querem? Então, nós temos, nós podemos integrar, nós podemos vender!

[Entrevistador 1] Esse modelo de cooperação parece ganhador.O que é a Mobileye?

[Entrevistado] A Mobileye é basicamente uma câmara que se coloca no vidro da frente e que consegue analisar a estrada, consegue analisar se há obstáculo e se estamos a mudar de via sem fazer sinal.

[Entrevistador 1] Uma nova pergunta, tu viste-te obrigado a trabalhar com engenheiros eletrotécnicos, biomédicos, eventualmente de materiais, achas que a nossa academia está preparada para esta interdisciplinaridade?

[Entrevistado] Acho que sim, claramente, e a CardioID é um exemplo disso, os meus colegas são provenientes de várias universidades, cursos e é isto que faz com que nós consigamos saber de todas as partes, sensitiva, eletrónica, de processamento de sinal…

[Entrevistador 1] Já vi que trabalhas com engenheiros biomédicos. Estarias disposto a fazer estágios de verão com alunos?

[Entrevistado] Sim, eu tenho feito estágio de verão, neste momento temos uma colega vossa de biomédica do Técnico, também temos um de eletrónica. Nós temos muito essa ótica de conhecer as pessoas antes de as contratarmos.

[Entrevistador 1] André obrigada pela entrevista, parabéns pelo teu projeto.

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