Este fim de semana fui convidado por uma das universidades de engenharia mais prestigiadas da Tunísia – IHE-ESPITA – para falar num evento de Engenharia Biomédica sobre o exemplo de Portugal no que diz respeito à Inovação na área da Saúde.

Ou como intitulei em Francês: ‘o exemplo de um pequeno país de grandes oportunidades’.

Mostrei que o nosso país é muito mais que fado e futebol. Muito mais que bonitas paisagens e boas praias. É um país cheio de história, um dos primeiros impulsionadores da verdadeira globalização na altura das Descobertas. Que fomenta conhecimento, tendo criado uma das universidades mais antigas do mundo. Onde a ciência é das melhores que se produz mundialmente, com instituições sem par como a Fundação Calouste Gulbenkian, a Fundação Champalimaud, o i3s ou até o Biocant, e tantas outras. Que cada vez mais aposta na inovação e tem no seu comissário europeu para esta matéria – Carlos Moedas – um líder e um ícone para os mais novos, incentivando-os e abrindo-lhes portas através dos programas que consegue implementar.

Expliquei que o nosso país após a crise – sim, o ser humano quando passa por dificuldades questiona-se, entra em modo de sobrevivência e readapta o seu rumo para garantir um futuro melhor – começou a apostar nos mais novos, a incentivá-los a criarem o seu próprio emprego, e a oferecer as condições necessárias para que olhem cada vez mais para as novas tecnologias, ao ponto de oferecer os Start Up Vouchers no valor de 5.000eur para os jovens que queiram criar o seu próprio negócio com um foco ‘tech’. E que toda esta estratégia para criar um ecossistema de inovação vai para além das empresas portuguesas, graças à implementação do novo programa Start Up Visa para projetos que têm base não-Europeia e que os seus fundadores queiram instalar-se em Portugal. Porque gerar conhecimento e levá-lo para o mercado também se consegue através da troca de experiências, com apoio de talento estrangeiro e uma perceção mais global das características de uma indústria e das respetivas leis de procura/oferta.

Não, eu não trabalho para a Start Up Portugal. Não, eu não trabalho para o governo. Não, eu não trabalho para uma instituição pública de apoio à inovação. Não, eu não sou pago para falar nestas conferências e dizer estas coisas. Mas estou orgulhoso do que o meu país tem feito nos últimos anos. E se puder falar daquilo que temos feito – porque expor estes feitos ajuda-nos a acreditar no que somos e fazemos, e que estamos no caminho certo – se puder incentivar outros países a adotarem estratégias semelhantes ou pelo menos a olharem para nós e mais do que aprenderem, a não cometerem os mesmos erros, então fá-lo-ei e de muito bom grado. Porque também temos que nos valorizar, e não só criticar!

 Como se diz em Inglês: ‘we’ve come a long way’. As universidades já olham para o conhecimento de outra forma, não se contentando somente com a publicação de artigos científicos como ‘métrica’ para mostrar que estamos ao nível de países como a Alemanha ou Reino-Unido (sim, publicamos tantos artigos per capita quanto estes países). Começam a perceber melhor o conceito de propriedade intelectual, a quem é que a ciência desenvolvida ‘in-house’ pertence e como negociar os respetivos direitos.

Temos uma rede nacional oficial de 135 incubadoras que acolhem start-ups recém-criadas e às quais prestam serviços de apoio financeiro, de IT e de marketing, entre outros. Em 2016 mais de 45% dos empregos criados foram através de start-ups, num ano em que mais de 600 foram constituídas. Temos dos melhores programas de aceleração da Europa, muitos com acordos com incubadoras e instituições noutras zonas geográficas o que permite catapultar as start-ups à internacionalização. Isto para um país pequeno, é obra!

Em relação à inovação em Saúde em Portugal objetivamente falando, só em 2017 foram pedidos mais de 145 registos de patentes a nível europeu, o que significa um aumento de 15% face a 2016. Desses pedidos, 8% correspondem à indústria da Saúde, que é a indústria que mais pedidos submeteu. Na Europa a média nesta área é de 4%, ou seja, submetemos o dobro!

Temos cada vez mais start-ups na Saúde bem colocadas pelo mundo fora, a darem cartas e a mostrarem todo o seu potencial pelo ‘problema que resolvem’ mas também pelo talento por trás delas, que teve uma boa visão e conseguiu operacionalizar a ideia com sucesso. Prefiro não mencionar nomes, até porque trabalho com muitas delas, mas garanto que vão deste ‘Digital Health’, a métodos de análises clínicas, passando por algoritmos que permitem tornar operações cirúrgicas mais eficientes!

Sim, estamos no bom caminho, mas ainda há muito por fazer.

Temos que garantir uma maior mentalidade de inovação. Criar ainda mais incentivos para o lançamento de produtos ao mercado. Certificar-nos que os projetos que saem da universidade sejam mais ‘maduros’, que foquem numa necessidade de mercado e sejam mais business-ready. Conseguir mais fundos sejam eles públicos ou privados, uma atitude por partes dos investidores mais de ‘venture builders’ e uma melhor relação com a indústria. Local e internacional, porque não deixamos de ser um país pequeno, saindo dificilmente do conceito de ‘mercado-teste’. Mas não podemos esquecer que temos (e tivemos) pés em outros territórios e é preciso aproveitar esse fator.

No entanto, já construímos muita coisa, temos tido ótimos resultados e estamos a ganhar um reconhecimento (e respeito!) internacional. Estamos numa fase de amadurecimento, de verdadeiro ‘trial and error’, mas já temos uma excelente estrutura de base.

E uma estrutura que dá frutos e permite um ciclo de inovação rápido e eficiente é um que se baseia na cooperação entre três pilares essênciais: as universidades, a indústria e o governo.

Quanto mais estiverem interligados e em sintonia, mais casos de sucesso vamos garantir, mais empregos vamos criar e mais a nossa economia vai crescer.

Espero que daqui a uns (poucos) anos o titulo de uma palestra minha seja: ‘Portugal, um pequeno país que é a referência mundial na inovação em Saúde’. É para isso que criei a LabToMarket e é com esta visão que vou contribuir com a minha quota-parte. É gratificante juntar-me a pessoas e grupos que já fazem parte deste movimento, que dão valor ao que já tem sido feito, e trabalham positiva e proactivamente para o que ainda está por fazer.

Temos, sem dúvida, a capacidade de alcançar muito mais, e ir bem mais longe, se acreditarmos e nos juntarmos para esse mesmo objetivo.

 

David Magboulé
Fundador da LabToMarket
david@labtomarket.eu

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